Chegamos ao fim da reportagem completa do Sonica Ekrano, com a última leva de filmes a que assistimos no Barreiro. Hoje viajamos um pouco por tudo o mundo, com partida nos Estados Unidos, passamos pela Austrália e Indonésia, damos um salto à Europa (França, Eslovénia e Noruega) e aterramos no Brasil. O mote para esta última parte é a revolta musical e social, o activismo TikTok e a rebeldia consciente, à sombra das folhas largas de uma árvore mítica.

Numa altura em que tudo é arte performativa, desde a política, passando pelo amor até à manifestação artística propriamente dita, é vital separar as águas e compreender que, se toda a arte implica uma certa rebeldia, não é menos verdade que rebeldia não é resistência. A cena musical alternativa veste-se com as cores da insubmissão e da bandeira tricolor do Texas em Butthole Surfers: The Hole Truth and Nothing Butt que esconde dois filmes num só, a javardice sensasionalista e o sentimentalismo estéril. É um filme anárquico, selvagem e juvenil, um retrato fiel da banda ou pelo menos de como a banda escolhe apresentar-se. Se acham graça a histórias de bebedeiras o documentário não desilude. Fantasias coprofílicas, relatos escabrosos de droga e álcool e o orgulho no Texas – não, não é nada punk disparar uma espingarda do palco do Lolapalooza.
A última secção do filme (15/20 minutos) dá uma volta de 160 graus num arco com um final feliz apesar das tragédias como a revelação do vocalista Gibby ser uma criatura frágil que foi abusada sexualmente em criança e que usa o humor para manter as pessoas à distância. O filme acaba com a banda reunida em estúdio onde os músicos se sentem muito abençoados e vão ser felizes para sempre. Um documentário sobre uma banda chamada Surfistas do Olho do Cu não pede uma sessão de terapia de casal.

The Best Summer surgiu por acaso quando a realizadora descobriu as gravações durante a evacuação dos fogos em Malibu, em 2025. Estas gravações são da digressão Summersault (com bandas rebeldes como Sonic Youth, Foo Fighters, e Beastie Boys, entre outras) que passou pela Austrália e sudeste asiático e incluem patetices de bastidores e filmagens dos concertos de várias bandas. O entusiasmo dos fãs indonésios é retribuído por uma cena no hotel com os Beastie Boys e a realizadora. É sempre tocante ver uma banda dos Estados Unidos a queixar-se da pobreza e da sujidade (diz o roto ao nu) em países onde não deixam de meter o bedelho há décadas. The Best Summer não é um filme, é a tortura que sofremos quando vamos a casa de um amigo que não vemos há 10 anos e somos obrigados a ver o VHS das férias de 1995. O melhor verão de Tamra Davis é o pior filme do Sonica Ekrano.
Um filme sobre Erik Satie tinha tudo para ser um grande documentário. Compositor de excelência e personalidade inconformada, Satie teve uma intervenção política muito afiada, com a sua inscrição primeiro no Partido Socialista (logo após o assassinato do deputado e editor do jornal «L’Humanité» Jean Jaurès) e depois no Partido Comunista desde a sua fundação, e com a sua própria música que entendia como um factor de reunião de classes.

Um autêntico trovão no mundo do ballet surgiu com Parade que causou uma escandaleira na estreia em Maio de 1917, com metade do público a apupar o espectáculo e a outra metade a aplaudir efusivamente. Reacções extremadas numa obra que juntou a nata dos artistas de vanguarda da altura, com Erik Satie a escrever a música para um libreto de Jean Cocteau, num bailado coreografado por Leonide Massine com cenografia, figurinos e pano de fundo de Pablo Picasso e com as notas do programa a serem escritas por Guillaume Apollinaire. Infelizmente, Le Mystère Satie de Bastien Loukia despacha esta e outras obras em meia dúzia de frases numa curta obra cinematográfica soporífera que mais parece uma página da wikipedia.
Para ouvir e descobrir mais

O título do documentário Punk Under Communist Regime tem a subtileza de um elefante com uma vuvuzela na tromba. Típico projecto que a União Europeia adora financiar, o filme debruça-se sobre o movimento punk como forma de resistência contra o diabólico regime comunista na Eslovénia, ex-república da Jugoslávia, um dos países mais permissivos em relação às manifestações culturais do ocidente. Não é por acaso que muitos dos punks tinham os discos todos que traziam de Itália (para onde viajavam regularmente) e que a música dos Sex Pistols circulava livremente pelos liceus – até baptizaram uma praça central com o nome Johnny Rotten.
Inadvertidamente, o filme acaba por se transformar numa comédia quando os punks e ex-punks recordam a opressão a que estavam sujeitos pelo choque cultural que provocavam com o seu visual arrojado. A polícia importunava constantemente os grupos de miúdos na rua (que diriam os fãs de Heavy Metal na Argentina que eram regularmente espancados?) e as revistas da época brindavam os primeiros discos eslovenos de punk com más críticas (mas queriam ser rebeldes ou ser aceites?). Noutro caso uma banda teve que mostrar as letras quando o presidente estava presente num dos concertos. Estão a imaginar os Renegados de Boliqueime a tocar «Troco Deus por Uma Cerveja» para Cavaco ou Marcelo?
Por outro lado, as bandas punks eram apoiadas pelas instituições do Estado, seja com equipamento, estúdios e salas de concertos. As bandas faziam a sua música e cantavam sobre o que lhes apetecia. Uma canção sobre a violência de trabalhar numa padaria, outra sobre a obrigatoriedade de fazer um estágio na fábrica onde se podia prosseguir uma vida profissional e a dificuldade de um horário das 6 às 14, com 30 minutos de intervalo. É esta realidade que alimenta o furor punk dos anos 70/80, bordões que se têm revelado ocos como “sentimento pró-liberdade”, “liberdades políticas”, uma “sociedade livre”. A principal reivindicação era mesmo o aborrecimento, na escola, na cidade, na vida. Isso e um dos punks que se assume como cristão (idiossincrasias balcânicas), foi criado numa família cristã, a queixar-se da opressão de viver sob um regime socialista. A ironia escreve-se a si própria. A parte mais lunática é a teoria do serviço militar obrigatório ser utilizado pelo regime jugoslavo para acabar com o Punk. Fizeram o mesmo em Portugal, pelos vistos, e continuam a fazê-lo na Grécia.
Ficou na retina a história mal amanhada dum caso de polícia com a suposta banda 4th Reich que, mesmo sem existirem problemas de intolerância racial, tinha letras assumidamente chauvinistas e cujos fãs pinchavam suásticas nas paredes porque é rebelde. Num lado mais tenebroso, muitos punks se queixavam de estar fartos de ouvir falar dos partisans e restantes heróis da Segunda Guerra Mundial. Tendo em conta que ninguém mencionou o sofrimento infligido pelos nazis, por um lado, e principalmente pela perversidade perpetrada pelos Ustaše apenas 30 anos antes, dá que pensar o que é o realizador Andrej Košak pretende numa altura em que existe uma reabilitação dos fascismos um pouco por toda a Europa. Em suma, os punks eslovenos queriam ser como os ocidentais e comer ananás – está no filme.

A sinopse de Hex diz-nos que estamos perante um filme realizado por uma mulher onde três norueguesas formam um conventículo para criar uma banda de Black Metal feminista. Não sabemos nada sobre a história da banda ou as suas integrantes, o que poderia ser um bom ângulo se o filme enveredasse pelo lado hermético, muito associado ao próprio estilo. Cruzado com dispensáveis episódios mundanos de vida familiar, há um desfilar de notáveis do género a louvar o grupo, desde fãs, editores discográficos e músicos. Este zunzum em redor da banda ajuda a explicar que, mesmo sem qualquer registo discográfico, tenha conseguido tocar no festival de Roskilde e a seguir fazer o circuito dos festivais de Metal europeus. Ainda por cima quando elas próprias assumem que não sabiam tocar instrumentos (a cena no estúdio com a baterista incapaz de manter o tempo é dolorosa) e que os primeiros concertos foram horríveis. Em termos de carreira parece tudo estudado ao pormenor – a quantidade de merchandise associado a uma banda que está agora a começar é impressionante.
As Witch Club Satan definem-se como um misto de Black Metal com arte performativa, uma banda “verdadeiramente feminista” que abraça causas fundamentais de empoderamento feminino e de libertação da mulher. Nisso a figura da bruxa e de Satã funciona como esse símbolo de resistência à misoginia inerente à tradição judaico-cristã (a ideia de recriarem um julgamento ao estilo de Salem é boa mas está um bocado embrulhada) e precursora de um sistema patriarcal que vê as mulheres como seres subservientes. Fica-se tudo pela superfície sem aprofundar nenhum dos temas. Sim, o genocídio é mau, Trump é péssimo (não há nada mais progressivo para um liberal ocidental do que criticar o laranjinha) e vimos o keffiyeh a passar de repente ali no ecrã mas e agora? Sobram palavras de ordem e faltam ideias, como se estivéssemos a fazer scroll no TikTok. Querem libertar-se do quê? Que opressão sentem como mulheres na Noruega? Faltam posições concretas e sobram corpos seminus.

AO filme sobre Hermeto Pascoal, O Menino d’Olho d’Água trata de uma rebeldia diferente, se calhar aquela que mais interessa. Com uma tapeçaria de imagens muito bem urdida, com especial incidência na terra natal do músico brasileiro, Alagoas, em particular junto dos povos originários que ainda resistem, o documentário é uma reflexão quase poética sobre a relação de Pascoal com a terra que o rodeia, dando origem a uma música que mais do que universal (misturando os sons da natureza e os sons – musicais e do quotidiano – do Brasil que reproduzia com instrumentos artesanais que construía) é visceral. Hermeto Pascoal fala pouco (daí uma certa desilusão inicial) mas, qual sábio ancião, as suas palavras têm o condão de nos tocar bem fundo.
Numa história encantadora, recorda como – ainda adolescente – compunha música no autocarro até ao estúdio da rádio onde trabalhava e cantava as melodias repetidamente à janela para não as esquecer até as poder gravar. Segundo o artista, tudo tem que ter sentido. A música não deve ter adjectivos, tem que se sentir. Assumindo a música como a sua verdadeira religião e a maior fonte sem fim de alegria e prazer, Pascoal considera que é “a música que segura o mundo enquanto a gente viver”.
Mau grado a decepção inicial, após algumas semanas, o filme aparece na mente de uma forma muito diferente. A eterna questão da arte que imita a vida ou a vida que imita a arte deixa de fazer sentido aqui. Vida e arte são uma e a mesma coisa. O maior mérito do filme de Carolina Sá e Lírio Ferreira é produzir o mesmo efeito da música de Pascoal que acaba por ser, afinal de contas, o efeito que procuramos em qualquer actividade humana, seja na forma como lidamos uns com os outros, tanto a um nível mais pessoal como num plano geoestratégico. O mais importante é plantar sementes, seja com os pensamentos de Pascoal, o sangue dos resistentes jugoslavos, as harmonias excêntricas de Satie ou a desmistificação dos papeis de género. Que essas sementes possam germinar numa árvore nova de humanismo e respeito mútuo com raízes suficientemente fortes para resistir aos atavismos históricos que nos ameaçam.
Para ouvir e descobrir mais











One comment
Comments are closed.