Já aqui falámos anteriormente do Sonica Ekrano, o único festival de documentário musical do país. Agora que está finalizada a 5.ª edição, que decorreu no teatro municipal ArteViva no Barreiro, numa sala sempre bem composta, apresentamos aqui no De Norte a Sul – num rigoroso exclusivo – um relato completo do que pudemos acompanhar ao longo de 9 dias intensos de muitas ideias, música e filmes numa tetralogia de artigos. Na primeira parte mergulhamos a fundo nas questões do nacionalismo e soberania.

Todos sabemos que durante o século das luzes a Europa do Iluminismo enriquecia (uma pequena elite, claro, porque o mexilhão – antes como hoje – vai-se agarrando às rochas como pode) através de um brutal sistema colonial que subjugava continentes inteiros e se apoderava das riquezas materiais e humanas do resto do mundo. É o chamado Iluminismo na metrópole, escravatura para a periferia. O que gostamos de esquecer é que em 2026, no coração do império onde o Sol nunca se punha, o Reino (cada vez menos) Unido mantém debaixo das suas garras uma colónia chamada Irlanda do Norte. Este paradigma ocidental (divide et impera?) de cortar os países ao meio já se tornou uma tradição, como se viu na Alemanha e Vietname e ainda vemos na Coreia, Sudão e Irlanda. E é precisamente da Irlanda que trata o filme de Dennis Harvey e Lars Lovén, vencedor do público do festival Sonica Ekrano.
Celtic Utopia tem vindo a coleccionar prémios no circuito europeu dos festivais. o que pode significar uma de duas coisas. Pode ser um pedido de desculpas formal para ficar tudo na mesma (uma sessão de terapia psicológica no ecrã para expiar a culpa e limpar a consciência) mas também pode significar um crescente ganho de consciência do mundo que nos rodeia. Apesar de nos convencerem que aquilo que se passou na Irlanda entre 1968 e 1998 com o IRA (não nos ensinaram que o inimigo é sempre terrorista?) foi acima de tudo um conflito religioso – aconteceu o mesmo com o esfrangalhamento da Jugoslávia e decorre há quase 100 anos com o genocídio na Palestina – a realidade contra outra história. Acima de tudo, a liberdade colectiva não pode ser menosprezada – não há nada assim tão complexo nisto.
O documentário foca-se em músicos irlandeses de géneros muito díspares mas com uma incidência particular no folk e, partindo da sua arte e das suas posições, traça um retrato da sociedade irlandesa que ao longo de séculos tem sido esmagada por dois titãs com um poder incomensurável, o império britânico e o cristianismo (protestante e/ou católico). O filme recorda o caso da estátua do cavalo púca (figura da mitologia irlandesa com corpo de homem e cabeça de cavalo) que, por pressão da Igreja (para a Igreja tudo é satânico, incluindo a própria vida), teve que ser deslocada de uma praça central para o jardim de um museu, em contraponto com o escândalo dos abusos sexuais em escolas religiosas.

Celtic Utopia fala também dos sinistros asilos de Madalena, onde mulheres de duvidosa moral, mães solteiras e vítimas de violação foram aprisionadas e obrigadas a trabalho escravo nas lavandarias e na costura. Muitas vezes sem o conhecimento da própria família que até hoje não sabe nem conhece os seus próprios parentes desaparecidos. Nas escavações que se fizeram até agora (muito haverá ainda por desenterrar) descobriram-se restos mortais de largas dezenas de cadáveres de recém-nascidos, bebés e crianças soterrados em valas comuns. Os que tinham a sorte de sobreviver eram dados para adopção para desgosto das pobres jovens encarceradas. Este desprezo pela vida humana (as condições em que as crianças viviam eram absolutamente atrozes) contrasta com a preocupação extrema com fetos, pois a Irlanda manteve uma das leis reprodutivas mais reaccionárias a nível europeu até ao referendo de 2018.
Como se isto não bastasse, do outro lado do mar temos a Inglaterra que, por trás do véu da democracia e da(s) liberdade(s), sempre tratou os irlandeses como sub-humanos. Basta lembrar o massacre que foi a grande fome (ou nas palavras da aristocracia político-religiosa inglesa o castigo divino) de meados do século XIX e a limpeza étnica que constitui a partida dos navios caixão (adivinhem lá porque se chamam assim) da emigração forçada para os EUA. E o regime de constante opressão a que a Inglaterra sujeitou o povo irlandês materializado na imagem chave de todo o documentário. Uma pequena criança irlandesa na rua com a mala da escola nas mãos e três muito corajosos soldados da coroa britânica armados até aos dentes. Um deles aponta a arma na direcção do miúdo que – subitamente – vira a cabeça para trás para olhar para a câmara. É o combate ao terrorismo em todo o seu esplendor. Esta cena (dos anos 70/80) podia passar-se hoje na Palestina ocupada – daí a ligação muito forte que une as duas comunidades. A guerra é a mesma, sempre foi.
A cantora Branwen Kavanagh, com o sentido de humor muito próprio dos irlandeses, lembra que os vencedores escrevem a História mas os derrotados escrevem as canções. Porém, a luta continua, até no aspecto cultural com um renovado interesse na língua irlandesa junto dos sectores mais jovens da população – só no ano passado foi eliminada da legislação britânica a obrigatoriedade de se falar em inglês nos tribunais, permitindo finalmente o uso do irlandês. Num dos últimos momentos musicais do filme, podemos assistir à comovida interpretação do clássico «The Sea Around Us» por Charles Hendy, da banda The Mary Wallopers, que agradece a Deus o facto da Irlanda estar rodeada de água para manter os ingleses à distância.
Para explorar mais a fundo
Há muita coisa em comum entre Celtic Utopia e outro dos filmes em destaque do festival, Nteregu, da autoria de Roger Mor e Manuel Loureiro, que percorre a história musical da Guiné-Bissau. Quer no prestígio que se confere aos músicos – o carácter sacrossanto da música está sempre presente em todas as cerimónias – quer no plano sociológico com toda a problemática colonial ainda muito à flor da pele. É muito frustrante ver este filme aos olhos da metrópole e constatar que não sabemos praticamente nada sobre aquilo que nos habituámos a chamar países irmãos. Não sabemos e não queremos saber. É triste pensar que podíamos ter relações privilegiadas com todos estes países se tivéssemos a decência de não olhar para eles de cima para baixo.

As crianças aprendem a tocar e a cantar como aprendem a falar porque a música na Guiné-Bissau é feita para ser vivida, de forma muito espontânea. A grande diversidade étnica no país, cada grupo com as suas particularidades culturais muito próprias, proporciona uma miríade de cultos, danças, gastronomia e formas de expressar a sua relação com o mundo que os rodeia. A natureza ocupa aqui um papel muito marcante, como explica o músico Nino Galissa que nos descreve a kora como um instrumento quase mágico, com a cabaça (símbolo da terra) forrada com couro (símbolo dos animais), feita com paus (símbolo da madeira das árvores) e o ferro (símbolo espiritual) com cordas de nylon da pesca tradicional.
A consciência desta diversidade está (lá como em todo o lado) ameaçada pelas imposições do mercado da indústria musical de massas que mais não é do que o resultado da educação colonial. Antes da chegada dos pseudo-descobridores portugueses existia uma tradição musical muito forte nas tabancas que foi completamente dizimada pela nova autoridade que exigia cada vez mais mão de obra, como cozinheiros, criados e serviçais. Para quê proporcionar uma educação se a única coisa que a administração colonial precisa é trabalho escravo? Os nativos que tocavam nas tabancas foram fazer este trabalho, quer quisessem quer não – é bom lembrar. Já não se podem portar como nas tabancas. Têm que andar bem vestidos e bem calçados, numa palavra – ocidentalizados. O mais sinistro deste sistema é convencer o escravizado que pertence a outra classe. Um selvagem assimilado, recuperado para a civilização com vergonha do seu próprio cabelo, da sua própria língua, da sua própria pele. O arquipélago dos Bijagós conseguiu resistir a essa tendência, mantendo até hoje os mesmos traços da sociedade matriarcal que sempre caracterizou as ilhas. A isso não será alheio o relativo isolamento do arquipélago que lhe permitiu resistir à penetração das tropas portuguesas e das religiões monoteístas.

Este lento processo de etnocídio foi acelerado pela iniciativa Uma Guiné Melhor do general Spínola (o cantor Zé Lopes dizia a respeito desta velha política colonial disfarçada de nova – água salgada é bonita mas é intragável) que procurava combater a crescente influência dos terroristas (sempre terroristas) do PAIGC junto da população. As músicas tiveram o condão de trazer de volta para a luta as ovelhas tresmalhadas. A música da Guiné-Bissau ocupou um papel preponderante de resistência a este branqueamento da sua sociedade com a exaltação da guerrilha dos movimentos de libertação nacional.
Tanto assim que a PIDE/DGS começou a prender músicos guineenses. Prova cabal de desespero de um regime cada vez mais apodrecido e da importância cada vez maior de figuras como José Carlos Schwarz que sempre usou a música como uma arma. Em particular a canção em crioulo (a língua dos selvagens, sublinhe-se) «Lua Kata Kema», verdadeiro hino que avisa os guineenses para não correrem atrás do Sol (os colonos europeus) e se concentrarem na lua que é mais serena e não queima.

Uma última palavra para duas cenas marcantes em Nteregu. Um pequeno excerto do concerto dos Super Mama Djombo no Festival Músicas do Mundo em Sines em 2023 a interpretar a canção onde recordam a sua passagem pelo Festival Musical da Juventude em Havana em 1978. O que demonstra mais uma vez – se ainda fosse necessário – como há um padrão a ligar todos os conflitos e que existem países que têm a arrogância de se posicionar do lado certo da história. O lado da solidariedade, pela soberania dos povos e contra o colonialismo. E para equilibrar o processo de despolitização muito acentuado (com a honrosa excepção do MC Mário) da nova geração de músicos da Guiné-Bissau, temos uma uma cena espantosa com Mû Mbana a tocar num riacho uma música acerca dos lobos (ou serão os vampiros do Zeca?) que tudo devoram à sua passagem, numa interpretação muito crua e cheia de sentimento pela sua terra natal.
Essa é a diferença entre o nacionalismo do centro e o nacionalismo da periferia. Um é xenófobo, profundamente racista e defende o direito (muitas vezes divino) de cumprir o seu destino manifesto. Outro defende o direito (sempre humano) de ser dono da sua própria terra. Se somos todos filhos do Iluminismo, esta deveria ser uma pauta indiscutível.
Para explorar mais a fundo







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