Para quem, como eu, foi sempre fraco em disciplinas de ciência, a simples existência do motor de combustão parece quase um milagre. Pequenas explosões controladas, no seio de cilindros metálicos, fazem mover pistões, que imprimem movimento a braços articulados, que dão movimento ao resto da maquinaria a que pertence. Inclusive o movimento gerado pode tornar-se eletricidade, que alguma bateria poderá guardar, para poder produzir outros processos. Já estão a ver que ainda não caí na moda do carro elétrico. Seja como for, tamanha precisão é ao mesmo tempo bela e assustadora. Talvez o ruído ajude a produzir ambas coisas, mas pensar que um aparelho assim tenha sido criado pelo ser humano, o mesmo que morava em covas há uns poucos milhares de anos, até estremece os neurónios. Percebe-se o fascínio de um Álvaro de Campos na Ode Triunfal. E eu aqui a escrever este artigo num computador infinitamente mais evoluído, e tu talvez a ler num telemóvel.
O engenho humano parece não ter limites. Parece. O conhecimento científico, técnico e tecnológico tem avançado tanto. A capacidade humana de compreensão, de perceber como o mundo funciona, tem-se construído por um processo milenar de prova e erro, mas também por uma passagem da memória dos resultados de umas pessoas a outras. O método científico aperfeiçoou definitivamente esse procedimento. E agora a psicologia, a psiquiatria, a neurologia, são capazes de analisar-nos como mecanismos, descobrindo que a nossa compreensão do mundo poderá condicionar o nosso comportamento, mas nunca foi a nossa força motora.
Desculpem que chegue a brasa à minha sardinha, mas, na verdade, a etimologia já nos estava a falar precisamente disto. A mesma família lexical do latino movere deu lugar à palavra motor, mas também a emoção e motivação. É precisamente a emoção que põe a nossa psique em movimento. Também não estou a dizer nada de novo. O que nos move não é a racionalidade pura, antes as emoções, como pequenas explosões, descargas. E é perfeitamente possível emocionar-se com e para a racionalidade, é claro.
Costumamos ganhar amor pelo conhecimento e a ciência no contexto da escola. Ela é, de facto, uma espécie de fábrica de montagem do conhecimento, de precisão talvez mais duvidosa. Sobre uns saberes, vão sendo construídos outros, para chegar a um resultado desejado. Há avaliações do processo de produção a vários níveis, inclusive internacional, como o famoso informe PISA, que este ano deixou a Galiza e Portugal em pânico. A escola deve formar pessoas para viver em sociedade, para serem produtivas, e para serem, inclusive, felizes. Mas acho que isto último não costuma ser assim tão avaliado.
Nos meus tempos, as salas de aulas já incluíam um bom número de material didático. Havia livros, mapas, tabelas periódicas, e material para escrever ou desenhar, como papel, canetas, lápis. Às vezes trazia-se uma tv, com vídeo, e via-se um filme ou documental. Mais tarde, já sendo eu professor de português língua estrangeira, chegaram aparelhagens, ou laboratórios de idiomas, que permitiam a pessoa ouvir, gravar-se e ouvir-se repetindo. Depois ainda chegaram computadores, com ligação à internet, e ecrãs em que se podia compartilhar o que o computador mostrava.
Suponho que outras pessoas poderão ter passado por outros percursos, com laboratórios de química ou física, em que fizessem outras experiências. Mas se observo o meu próprio percurso, só posso pensar que todo aquele material, agora, cabe num telemóvel, como o que talvez estejas a empregar tu agora. Até as pessoas estão lá dentro. Na verdade, acho que a única coisa que tinha a velha sala de aulas, e um telemóvel não pode reproduzir, são, tão simplesmente, as paredes.
Um pistão, num motor de combustão, move-se pela explosão no interior de um cilindro que o dirige. Numa sala de aulas das de antes, as emoções podiam mover a atenção dentro do espaço que as paredes delimitaram. A janela era a válvula de escape. Agora o telemóvel é uma janelinha ao mundo, por onde a atenção escoa, apesar da sua incrível potencialidade didática.
Está cada vez mais difícil motivar es alunes. Isso se ouve dizer de quem trabalha com crianças e adolescentes. Mas talvez, no fundo, o problema seja estarem motivadas de mais… fora das aulas. E talvez seja momento de parar, arrefecer motores, não tentar competir pela atenção contra uma maquinaria que talvez seja invencível. Antes ensinar a observar, valorizar, escolher, aquilo que realmente motive. E quem sabe? Talvez até aprender a ser felizes. Boa falta nos faz.
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