Sugo no mate. Vai meia vida. Imitando Naipaul, poderia dizer que dentro da casa o ar está quente e carregado. Já podia ir frio e a cidade estar envolta na brêtema1. O facto é que no salão soam os compasses melancólicos das Chicharras de Catuxa Salom e eu termino de ler um volume de artigos de Úrsula K. Le Guin.
As entrevistas e soltos desta senhora resultam-me profundamente simpáticos, elegantes, lúcidos e aliciantes. Vários dos seus romances e relatos estão entre os meus favoritos.
Gosto, com os anos, a cada vez mais, como se Tolkien plagiasse Swift em solaina antiga remetida para fazer um amplo salão luminoso e na voz de uma tia fidalga, sufragista, anarquista, ecologista e retranqueira.
Países imaginários, outros mundos, labirintos, grandes florestas, desertos e planetas congelados, anti-heróis por acaso e pseudo-vilões com background, gentes despossuídas, escravidão, trabalhos, línguas, convenções, mestiçagem, indígenas perplexas, nenas e mulheres no fio, valentes viageiras, disquisições morais, o duvidoso dos roles e os géneros, a importância da reprodução, as bolsas, as redes e o coletivo, outros valores, raças, sistemas sociais e pensamentos.
As viagens pelo universo dos etnólogos espaciais, as comunidades nos planetas perdidos, a linguagem e os arquivos da alimária, as escolhas e contextos desses relatos abrumadores, onde o verdadeiro terror emerge das férreas convenções sociais. A ecologia e a denúncia, as patriarcadizes evidenciadas, os balances e as complexidades da vida, a ficção visionária.
Até no mais convencional, daquele Ged idoso, com as suas habilidades de arquimago e poder perdidos, atarefado em esfregar, sem saudade, a mínima louça doméstica na rústica choupana de Gont que compartilha com a Tenar e a Therru.
Desfruto muito dessas ideias, perguntas como de quem e invitações profundas a pensar, imaginando alternativas, contra os poderes estabelecidos, em prosa literária, reformuladas em ensaio ou vivas em artigos e entrevistas.
Nomeadamente, nestes ensaios sobre a escrita e a narração, interessa-me a proposta de que entre nós, na humanidade, a língua ocupa o centro do mundo, desse espaço que organizamos arredor e imos herdando, do nosso imaginário coletivo. Desse sermos animais sociais que articulamos sistemas de organização e cooperação através da linguagem.
Chama-me poderosamente esse deslocar a comunicação do emissor-recetor individual para situá-la no coletivo em que se produz esse intercâmbio, fazendo chamado à importância do acervo cultural (protocolos, contextos, metáforas, ritmos, identidades…) que se compartilha e a faz possível. A antropologia molda à escritora e reconduz a linguista.
Dito isto tudo, como prólogo contexto, pergunto-me se tem qualquer sentido escrever sem coletivo?
Eu adoito fazer ao Mário Herrero a piada de que a contrário dele eu não sou poeta, nem escritor de romance e, portanto, nem sei, nem posso escrever a sós. Apenas posso escrever se estou mergulhado num coletivo; não apenas em sintonia com um público a que me dirijo, senão dentro de um grupo com quem compartilho algum projeto.
A minha escrita alguma vez antes tratou de ser participativa, pretendia ajudar a construir o coletivo resistente, entanto ia ela se construindo a base de prática, procurando ir elaborando língua (para fazer Língua assim com maiúsculas).
É por isso que deixara de escrever. Não porque perdera voz ou ânimo. É porque não enxergava ao meu redor mais qualquer coletivo. Tenho plena consciência dos momentos em que o coletivo se me esvaiu como uma frota na névoa. E fomos ficando sós, o mar o barco e mais alguma amizade solta que ficou.
Nos últimos tempos refugiei-me a ler, em desordem. Livros enfim nos que procurei fazer tempo e com respeito ou curiosidade beber qualquer saudade. Deixei-me levar pelos ritmos distantes, envolver-me no protesto de género e no embalo da contemplação poliglota, humanística de espaços habitáveis, jardins, artesanias, projetos, pessoas dissidentes.
Mas o amigo Pichel, largou corda do DNS, para eu abordar, mais uma vez.
A vida é (suponho) assim. Simplesmente. Acontece encontrar gente afim. Projetos, comunidade, navegar, escrever. A escrita – antes não compreendia – era um ritmo que agasalhava qualquer ideia em leixa-prem. Melancolia, imaginação, ironia, ceticismo, crítica, ternura são ecos que sonhavam – sonham – a língua comum inexistente.
- Brêtema: nevoeiro. O autor escreve numa variedade de português que inclui particularidades galegas ↩︎





