A crise entre pensar e criar

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Há dias em que tudo parece estar no lugar. O computador está ligado, o documento aberto, o cursor pisca à espera de uma frase. Sentamo-nos diante da tela convencidos de que vamos produzir alguma coisa. Talvez um artigo, um poema, uma história, uma ideia. Mas os minutos passam e nada acontece. Pensamos, apagamos, reescrevemos e voltamos a apagar. Existe algo dentro de nós que queremos dizer, mas não conseguimos encontrar as palavras para dizê-lo.

É nesse espaço entre aquilo que pensamos e aquilo que conseguimos produzir que nasce uma das experiências mais frustrantes de quem escreve e cria: a crise entre pensar e colocar em prática.

Quem olha de fora pode pensar que se trata simplesmente de falta de criatividade. “Se não tens ideias, escreve sobre outra coisa”, sugerem. Mas não é tão simples. Às vezes, as ideias existem. Elas estão na cabeça, misturadas, incompletas, talvez até brilhantes. O problema é transformá-las em algo concreto. É fazer com que um pensamento se torne uma frase, uma frase se transforme num parágrafo e os parágrafos encontrem algum sentido.

A página em branco, nesse momento, torna-se quase uma provocação.

Quanto mais olhamos para ela, maior parece a nossa incapacidade de preenchê-la. E quanto mais nos obrigamos a criar, mais distante parece estar a criatividade. O cursor continua a piscar, indiferente à nossa ansiedade, enquanto começamos a questionar a nossa própria capacidade: será que já não tenho nada para dizer? Será que as minhas ideias deixaram de ser boas? Será que perdi a capacidade de escrever?
Talvez o problema esteja justamente nessa necessidade de produzir o tempo todo.

Vivemos numa época que transformou a produtividade numa espécie de medida de valor. Precisamos estar sempre a fazer alguma coisa, publicar, escrever, estudar, trabalhar, criar, empreender. Nas redes sociais, parece que todos estão constantemente a produzir algo extraordinário. Há sempre alguém lançando um projeto, escrevendo um livro, criando conteúdo ou anunciando uma nova conquista. E, quando estamos parados diante de uma página vazia, podemos ter a impressão de que estamos ficando para trás.

Mas criar não funciona como uma máquina.

A criatividade também precisa de descanso. Precisa de experiências, silêncio, observação e tempo. Uma pessoa não pode simplesmente ordenar a si mesma: “Agora vou ter uma grande ideia”. Pensamentos não obedecem sempre aos nossos horários. Algumas ideias precisam amadurecer antes de se transformarem em palavras.
O problema é que muitas vezes não damos esse tempo a nós mesmos.

Queremos que o primeiro parágrafo seja perfeito, que a primeira frase seja memorável e que cada pensamento tenha imediatamente alguma utilidade. E é justamente essa exigência que pode sufocar aquilo que ainda está a nascer. Em vez de escrever para descobrir o que pensamos, queremos primeiro saber exatamente o que pensamos para depois escrever.

Talvez seja necessário aceitar que algumas primeiras tentativas serão ruins. Que haverá textos inacabados, frases sem sentido e páginas que precisarão ser apagadas. Isso não significa fracasso. Faz parte do processo.
A crise criativa também pode ser uma forma de cansaço. Às vezes, não estamos sem ideias; estamos simplesmente saturados. Consumimos tanta informação, tantas opiniões, tantas imagens e tantos textos que já não conseguimos ouvir a nossa própria voz. A mente está cheia, mas, paradoxalmente, parece vazia.

Por isso, talvez a solução nem sempre seja permanecer diante do computador durante horas. Às vezes é preciso fechá-lo. Ler alguma coisa sem a obrigação de produzir. Caminhar. Conversar. Observar pessoas. Viver experiências que nada têm a ver com escrever. E, quando voltarmos, talvez aquela frase que procurávamos esteja finalmente à nossa espera.

A crise entre pensar e criar é frustrante, sobretudo para quem sente necessidade de criar. Mas ele não precisa ser interpretado como o fim da criatividade. Pode ser apenas uma pausa. Porque há momentos em que não conseguimos escrever não porque deixamos de ter algo a dizer, mas porque ainda estamos a descobrir como dizê-lo.

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