Discurso sobre o amor com soneto de fundo

   Tempo de leitura: 3 minutos

Amor é fogo que arde sem se ver, mas logo se nota quando aquece a pele. As emoções vivem no corpo, e isso é uma parte essencial do seu próprio significado como conceito. Elas são o lugar em que o significado e o corpo coincidem, em que o somático é também semântico. Os opostos mais básicos estão entrelaçados, e a poesia, a arte, é a sua linguagem natural. O que se sente não cabe nas palavras. Será sentido, mas não tem sentido: simplesmente é.

Pensamos as emoções como boas e más, próximas ou contrárias, e às vezes até criamos um conceito vivido que as abarca todas. Qualquer emoção é mais complexa do que a dor física, ou uma simples sensação calórica: é ferida que dói, e não se sente. E o amor é um contentamento descontente, uma emoção complexa, integradora e dependente de outras, que lhe podem parecer contrárias. Em parte é por isso que é culturalmente maleável: poemas, canções, romances, artigos, ensinam-nos o que esperar quando o sentirmos, e a sua aprendizagem é longa, atravessando prazeres, e todo o tipo de emoções e sensações negativas. Por isso também é dor que desatina, certamente, mas fá-lo sem doer, porque é possível vê-la a partir da abstração: para isso é que serve ser ideia.

Tentamos convencer-nos de que amar é um não querer mais que bem querer. Mas às vezes queremos mesmo mal. E mesmo assim, a paixão tem a função de unir, embora não todo o mundo ao mesmo tempo. Buscamos a pessoa amada, e se ela faltar, se não corresponder a um amor dado, então é um baldio de coração senciente, é um andar solitário entre a gente, é um ver-se único e indiferente. 

Nenhum espelho, nem retrato, tem mais importância que os olhos da pessoa amada. É neles que delegamos a nossa própria segurança emocional. Mas nunca nos veem como nos vemos, porque nunca nos vemos como somos. É nunca contentar-se de contente, e é um cuidar que ganha em se perder. O que se entrega é a própria entrega. O que se recebe, também.

Pensamos a partir da categoria do indivíduo. Mas o amor é maior do que ele, apesar de ter nascido nele, e não lhe ser necessariamente contrário. Do ponto de vista da liberdade, é querer estar preso por vontade. Visto de um prisma lutador, é servir a quem vence, o vencedor. E dessa visão individual, egoica, nascem problemas graves. É ter com quem nos mata, lealdade. E também amar uma ideia pode ser perigoso. O amor alarga-se a mais pessoas, elas próprias conceitos, mas por isso se sente menos vivamente. Amigos, amigos, coloridos à parte.

Mas como causar pode seu favor, nos corações humanos, amizade? Dizem que deus é amor, e isso talvez sugira que necessitamos dele para dar sentido ao mundo. Mesmo quem não acredita em deus, costuma acreditar no amor. E diz-se que os caminhos do senhor são insondáveis. Talvez não possa ser doutra maneira, se tão contrário a si é o mesmo Amor1


(Começado a escrever na Sertã, durante a 11ª edição da Maratona e Leitura, o festival literário mais bonito de Portugal, dedicado ao tópico do amor neste ano 2026. Acabado na Galiza, duas semanas depois.)

  1. Amor é fogo que arde sem se ver,
    é ferida que dói, e não se sente;
    é um contentamento descontente,
    é dor que desatina sem doer.

    É um não querer mais que bem querer;
    é um andar solitário entre a gente;
    é nunca contentar-se de contente;
    é um cuidar que ganha em se perder.

    É querer estar preso por vontade;
    é servir a quem vence, o vencedor;
    é ter com quem nos mata, lealdade.

    Mas como causar pode seu favor
    nos corações humanos amizade,
    se tão contrário a si é o mesmo Amor


    Luís de Camões ↩︎
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