Faz poucos dias que regressei a casa, vinda de uma pequena viagem e de uma enorme residência em tempo e lugar entregues ao ofício da escrita. Regressei de uma experiência que, sei agora, não é possível reproduzir em qualquer outro lugar. Sei disso e, ainda assim, os dedos empurram-se nas teclas no balouçar da memória, atirados à crónica dos meus catorze dias de hospedagem artística na Casa Para Sempre – Vergílio Ferreira, na aldeia de Melo, na Serra da Estrela.
A respiração própria que nasce no embalo da aventura fez-se sentir, como sempre acontece, antes da aventura propriamente dita. Começa em escolhas silenciosas e gestos insuspeitos. Levo este e este livro, ficam aqueles outros. O dicionário de sinónimos, claro, e os diários da última viagem. O caderno de notas em uso e o caderno de notas do romance que precisa de ser podado. As ilustrações que esperam textos há quase três anos. Algo para ler pela tarde, pela noite, pela madrugada… contos, talvez. O computador, a música e os ficheiros de que possa precisar, mas só para isto. Três projetos em escolha, é preciso não dispersar. Roupa confortável e o pijama, o tricô a fazer companhia, um agasalho e um chapéu.
A montanha é um lugar de refúgio arredado do mundo e do ruído. Pelo menos, é assim para mim. Um lugar de calma e de pensamento, onde os pássaros cantam a falar-nos da vida que corre, e o sol se levanta e se põe a horas certas em horizontes visíveis de uma ou de outra janela, de dentro da casa que me deu as boas-vindas. Um lugar geográfico, mas também um lugar interior, onde vinha escondida a semente de fazer crescer algo novo. Um poema, um livro, uma viagem.
A montanha recebeu-me como a uma filha entre o vento que traz o cheiro das urzes e a quietude própria da lonjura. Entre as paredes de uma casa cheia de histórias e de presenças, os livros que aqui se inspiraram e que ficaram, de facto, Para Sempre. Uma casa que se pousa, amarela e silenciosa, no limite do largo onde os homens se reúnem pela manhã e as mulheres se sentam pelo fim de tarde. Perdi-me muitas vezes a olhar a montanha da varanda do meu quarto. Só a liberdade absoluta é um perpétuo horizonte, para lá de todos os horizontes, que é o horizonte do impossível. Pergunto-me se Vergílio Ferreira estaria naquela mesma varanda, com os olhos perdidos no mesmo recorte entre o céu e a serra, enquanto escrevia estas palavras em Contra-Corrente, discorrendo sobre todos os horizontes.
Também a casa me recebeu como a uma filha, entre os corredores, as escadas e os recantos, os jardins e as janelas, os objetos e as memórias. Foram estes os meus horizontes durante catorze dias. Estes e, claro, aqueles que trago por dentro. Tendo dedicado a minha hospedagem naquela casa à escrita, mergulhada nas palavras, à procura das palavras, fazendo sentido da vida e do mundo através das palavras, os meus horizontes foram também esses, os da imaginação e os da linguagem.
Sobre os limites da imaginação, disse certa vez o artista plástico sul-africano William Kentridge que uma das coisas mais difíceis de compreender é o limite daquilo que somos, e daquilo que a nossa imaginação consegue concretizar. E explicava o que queria dizer com um exemplo da sua vida, que é tantas vezes a melhor forma de nos fazermos entender. Quando tinha três anos de idade – dizia Kentridge – eu queria ser um elefante. Falhei nesse propósito e, então, fiquei reduzido a ser um artista. Também eu, artista, levei o sonho de ali semear uma planta de haste forte e fruto maduro. Levei um elefante na mala, junto com o dicionário de sinónimos e os diários da última viagem, o caderno de notas em uso e o caderno de notas do romance que precisa de ser podado, as ilustrações que esperam textos há quase três anos, um agasalho e um chapéu. Se eu falhar ao horizonte da imaginação e não for capaz de escrever algo de merecimento, terei, pelo menos, um agasalho e um chapéu.
Dos horizontes da linguagem, dizia Ludwig Wittgenstein qualquer coisa como os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo, e esta é uma ideia tão familiar a um artista que escreve como o seu tipo preferido de canetas. Entender os limites da linguagem como os limites do mundo – ou da existência – tem, para mim, um sentido agudo. Num ofício com palavras por ferramentas, os limites da linguagem são, necessariamente, as barreiras mais graves. Sei que posso apenas caminhar até onde me deixam ir as palavras e escrevo contra essa barreira, porque sou naturalmente rebelde – ou apenas teimosa, não sei bem –, e atiro o corpo sempre mais para a frente, à procura de resgatar o horizonte do impossível, que de falava Vergílio Ferreira.
Quando me faltavam os horizontes, dei por mim a ler as ideias que iluminavam a sala de trabalho a partir do candeeiro suspenso sobre a mesa. Dei por mim a ver as lombadas dos livros que aqui são deixados em partilha. E dei por mim a pensar em cada artista que aqui se pousou em hospedagem, toda essa massa de elefantes e de horizontes que cá estiveram antes der mim e que virão a seguir a mim. A pensar em como nos liga este lugar e esta experiência.
Ali, rodeada e habitada por horizontes, longe de ruído e informação desimportante, descobri que tenho talento para eremita. Fui feliz e sinto que cheguei perto do meu elefante. Com um mínimo de esforço para disciplinar o contacto com o exterior, com alguma atenção para não deixar descambar o sossego ou desabrigar o silêncio de que a escrita se alimenta, entrei na respiração serena daquele lugar, afastei-me de tudo o que não fosse útil ao elefante, e dediquei todos os meus horizontes a um dos três projetos que levei na bagagem.
Mais do que produtivos, os meus catorze dias na montanha foram curativos.
Soube tão bem conversar com as pessoas da aldeia, criaturas de hábitos, todas elas, mais fáceis de encontrar durante a manhã, desconfiam um pouco a princípio, mas cedem o sorriso logo a seguir. Reúnem-se no café do Senhor Pinto, mais à frente no largo a seguir à escola primária, e depois espalham-se pelos bancos do passeio ou do jardim, a conversar ou a ler os respetivos jornais. Gostam de conhecer os artistas que se vão artisticamente hospedando na Casa Amarela, e perguntam, então e que livro do Vergílio gostou mais de ler? A conversa é fácil a partir daí. Foi uma surpresa descobrir como alguns dos habitantes mais antigos da aldeia são enormíssimos leitores ou maravilhosos contadores de histórias. Penso que todos nós – artistas em hospedagem – devíamos ter a oportunidade de conversar com eles. Com o Alberto, que ainda é primo do Vergílio, que vem todas as manhãs na mesma rotina, os mesmos passos e pousos, o mesmo café e o mesmo pedido de pão fresco, outro jornal, é certo, por ventura as mesmas notícias, e um sempre renovado sorriso a mostrar a alegria do encontro. E a Marie, que atravessou o mundo por amor e tem uma história de vida melhor do que qualquer personagem de romance. Ou a Senhora Conceição, de voz doce, que vai contando – às vezes também cantando – o curso de vidas que se desfiam nos gestos da terra e da saudade. A Senhora Conceição foi minha vizinha por catorze dias. Fomos juntas à igreja, rezar o terço com as outras mulheres pelo fim da tarde. A litania das vozes partilhadas, mais do que as orações em si, funcionaram como um instante de repouso do pensamento e redenção da memória. Penso que todos nós – artistas em hospedagem – havíamos de fazer o mesmo, mas talvez estas coisas sejam estas coisas só para mim.
Escrevi, pensei muito, comi bem e a horas, dormi cedo e lindamente, acordei sem despertador com a primeira luz da manhã, escrevi, caminhei no redor da casa, apanhei flores que trouxe esmagadas entre as páginas do dicionário, escrevi, acompanhei o sol a pôr-se nas costas da mesa de trabalho, cobicei as cerejas e escrevi. Escrevi muito.
Faz poucos dias que regressei a casa, vinda de uma pequena viagem e de uma enorme residência em tempo e lugar entregues ao ofício da escrita. Na mala trouxe roupas e cadernos em desordem, um agasalho, um chapéu e um novo livro de poemas.


