A Xenofobia na África do Sul: mais um teste à eficácia da União Africana

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A actual onda de xenofobia na África do Sul não é um fenómeno novo. Trata-se do recrudescimento de um problema recorrente que voltou a ganhar força a partir de abril de 2026, quando novos ataques contra migrantes africanos foram registados em várias localidades daquele país.

Esta onda de ataques expõe, mais uma vez, uma das maiores contradições do continente africano: os líderes discursam sobre integração e unidade, enquanto milhares de africanos continuam a ser perseguidos por outros africanos. Tais acontecimentos demonstram que o ideal de unidade africana permanece distante da realidade vivida por muitos migrantes.

Segundo informações divulgadas pela DW e pela RTP em 2 de junho de 2026, assim como os canais noticiosos em Moçambique, pelo menos sete moçambicanos perderam a vida e mais de 800 foram vítimas de ataques xenófobos na cidade sul- -africana de Mossel Bay. Cinco dessas mortes resultaram diretamente dos ataques, enquanto outras duas ocorreram durante o regresso das vítimas a Moçambique. Centenas de cidadãos foram forçados a abandonar as suas residências e procurar refúgio, numa situação que coloca em evidência a gravidade do problema. E estes números referem-se apenas aos moçambicanos. Não incluem cidadãos do Zimbabwe, Malawi, Nigéria, Somália e de outros países africanos que também enfrentam hostilidade e violência em território sul-africano.

Com foi dito anteriormente, a xenofobia não é um fenómeno novo na África do Sul. Desde 2008, o país tem registado episódios recorrentes de violência contra migrantes africanos. O argumento utilizado pelos grupos anti-imigrantes é quase sempre o mesmo: os estrangeiros seriam responsáveis pelo desemprego, pela criminalidade e pela escassez de oportunidades económicas. No entanto, esta narrativa ignora alguns problemas estruturais como a desigualdade social, a pobreza e a incapacidade das políticas públicas de responder às necessidades da população.

O que torna esta situação particularmente revoltante é a memória histórica do continente. Durante os anos do apartheid, muitos países africanos apoiaram a luta do povo sul-africano pela liberdade. Moçambique acolheu refugiados, ofereceu apoio político e pagou um elevado preço pela sua solidariedade com os movimentos de libertação. Hoje, porém, cidadãos moçambicanos e de outros países africanos são perseguidos no mesmo país cuja liberdade ajudaram a defender. Trata-se de uma inversão dolorosa dos valores de fraternidade africana.

Diante disto, a atuação da União Africana tem sido ineficaz. A organização foi criada para promover a paz, a cooperação e a defesa dos povos africanos. Contudo, sempre que surgem ataques xenófobos, a resposta resume-se, na maioria das vezes, a comunicados de preocupação e apelos à calma. “A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos deplora os ataques xenófobos e a conduta de grupos paramilitares perpetrados contra cidadãos de outros países africanos na República da África do Sul.” Essas declarações, feitas em 27 de Abril deste ano, têm valor simbólico, mas não são suficientes para travar a violência nem para proteger as vítimas.

A União Africana precisa assumir um papel mais firme. Em primeiro lugar, deveria criar um mecanismo permanente de monitorização da xenofobia no continente. Em segundo lugar, deveria enviar missões de observação e mediação às zonas afetadas, acompanhando de perto a situação. Além disso, a organização deve pressionar diplomaticamente os governos que falham em garantir a segurança dos migrantes africanos.

Caso os ataques persistam e as autoridades nacionais demonstrem incapacidade ou falta de vontade para proteger as vítimas, a União Africana deveria considerar medidas mais duras, incluindo sanções políticas e económicas proporcionais. Não faz sentido que a organização adote posições firmes perante golpes de Estado e permaneça praticamente silenciosa quando cidadãos africanos são mortos por motivos xenófobos. A unidade africana não pode ser selectiva.

A xenofobia na África do Sul deixou de ser um problema interno daquele país. Tornou-se um problema africano. Enquanto a violência é exclusão continuarem, os discursos da União Africana sobre integração continental, unidade e solidariedade soarão vazios. A verdadeira união africana não se mede pelas cimeiras dos chefes de Estado, mas pela capacidade de proteger a dignidade e a vida dos africanos onde quer que estejam.

Se africanos continuam a morrer por serem africanos, então a promessa de uma África unida ainda está longe de ser cumprida.

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