Protestos juvenis: entre a defesa de direitos e a doutrina do choque

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Durante os últimos anos, insistimos em caracterizar a juventude como uma geração de cristal, ansiosa, egoísta e superficial, habituada a ter tudo feito e preocupada com a satisfação imediata dos seus interesses. Contudo, mais uma vez, a realidade questiona esta narrativa. Se Greta Thunberg, sendo adolescente, conseguiu colocar a emergência climática no centro do debate público, as recentes mobilizações protagonizadas por jovens em diferentes países europeus voltam a demonstrar que a juventude também pode ser um agente político comprometido com a transformação social.

Os protestos registados em França, Albânia, Espanha e Portugal, apesar das suas diferenças, expressam um mal-estar que é necessário levar a sério: a corrupção política, a deterioração dos serviços públicos, as dificuldades de acesso à educação e o encarecimento do custo de vida, especialmente da habitação. São reivindicações que apontam para problemas estruturais e questionam a capacidade das instituições para garantir condições de vida dignas. Estas mobilizações evidenciam que uma parte da juventude não renuncia a intervir no espaço público, pelo que os preconceitos sobre a apatia juvenil deveriam ser desmentidos.

Mas nem todas as ações que se apresentam como protesto respondem à mesma lógica nem merecem idêntica avaliação. Os distúrbios, os saques e os atos de violência registados noutras mobilizações obrigam a distinguir entre a expressão coletiva do descontentamento e aquelas práticas que, em vez de fortalecer os direitos, contribuem para erosionar a convivência democrática. A violência não adquire legitimidade pelo facto de invocar uma causa política, do mesmo modo que a ordem pública não pode servir de desculpa para desatender as razões que alimentam o mal-estar social.

É necessário, além disso, não esquecer a chamada doutrina do choque, popularizada por Naomi Klein, que expõe a utilização de situações de crise e comoção coletiva para introduzir reformas económicas e políticas que, em circunstâncias ordinárias, encontrariam uma maior resistência social. A história recente oferece exemplos de como a desorientação dos cidadãos pode facilitar a perda de direitos, privatizações e o enfraquecimento dos serviços públicos. Por isso, convém desconfiar tanto da instrumentalização do descontentamento como de quem pretende aproveitar o medo da desordem pública para justificar respostas autoritárias.

Sabemos que a democracia não consiste apenas em votar de tempos a tempos e que precisa de uma cidadania ativa, capaz de se organizar, questionar o poder e exigir responsabilidades. O protesto civil, pacífico e coletivo é uma ferramenta fundamental para defender o Estado de Direito e impedir que os direitos conquistados se transformem em concessões revogáveis. Perante a indiferença, a mobilização; perante a violência, a ação cívica; perante a resignação, a defesa coletiva dos direitos.

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