Quando isto anoto é junho andado em Paris. Já não é cá um dos centros do mundo mas também não vem de acontecer a repressão brutal “à antiga” da Comuna, nem há bombas de anarquistas. Também não começara ainda este protesto geral.
Por sorte esta semana vai fresca entre duas vagas de calor. O que deixa que me ponha o xaile de flâneur e passeie. No serão, à chegada, deixo a mala e exploro arredor do Hotel, com um livro de bolso com ensaios de William Morris, na sacola, pena lápis e caderneta. Paro num café perto e simplesmente observo. Afinal é Paris.
Surpreende-me a gestualidade tranquila e as vozes pausadas na conversa direita dos grupos nas mesas. O contraste com os grupos de ingleses e alemães. Os espanhóis berram, mesmo que sós, ao telefone pela rua.
Volto. Do quarto do hotel vejo as torres da BnF Mitterrand. Almoço tranquilo, no dia a seguir. O mesmo comportamento e gestualidades nos indígenas. Dou em lembrar o Eça que, por isso intitula.
De manhã cedo atravesso a passarela Simone de Beauvoir, escalo a pirâmide da base (que fascinação napoleónica pelas escadarias e pirâmides) e contemplo os edifícios: quatro, em L, de vinte andares, com cristais, ao sol, protegidas as janelas inúmeras com paneis internos (provavelmente colocadas a posteriori). Há anos que quero ver em pessoa o projeto megalómano e absurdo com jardim pechado1 central, agora vedado para não se tirarem as gentes. O melhor são as salas baixas de exposição, cafetaria e livraria.
Percorro as avenidas arredor. Cafés, lojas, colégios, procuro um sebo que não encontro aberto. Dou em caminhar à beira-rio do Sena. Muitos carros e de mais e mais gente enquanto me vou achegando os espaços instagraneáveis. Os turistas invadimos a área de Notre Dame e o Quartier Latin. A Rive gauche e a Sorbonne estão repletas de gente. A Shakspeare & co nem abriu e já tem uma fila que nem a Lello & irmão. À Torre nem me achego (hei de ver – isso sim – desde o Sacré-Cœur à noite) que combinei com um amigo em Montmartre. O Louvre vejo de longe. Bom, melhor digo: vejo as fileiras que nem a horda dourada, e fujo. Passo as horas pervagando por livrarias, lojas de banda desenhada, antiquários e cafés.
Bouquineio de volta do Quai du Louvre até a Pont Marie e perco-me pelo Boulevard Diderot chego depois de mais algum expresso e de parar a jantar algo. Excetuando os clássicos e o ensaio, não entendo bem os destaques das livrarias francesas, quanto best seller traduzido, muito roman policier, muito romancinho coreano e japonês (desses que misturam utopias de fracasso e renúncia ao salário capitalista e trabalho alienado para recuperarem uma loja, uma artesania familiar, um ofício ou uma ordem do mundo). Tranquilizantes.
Da Gare de Lyon ao Hotel, uma vez passada a mole do Ministério de economia, é nada. À tarde desfruto de Paris Bercy, do belo parque, Cinémathèque acarão2 e o Cour Saint-Émilion de lojas e restaurantes, uma antiga instalação de armazéns de vinho para transporte fluvial ferroviário. Passo antes por fora da BPI Lumière (Bibliothèque publique d’information) Centre Pompidou. Edifícios e praça de oficinas convertido em uso público e vivenda. Mas que teima com as escadarias e vidros nas Bibliotecas.
Para terminar o dia, sento-me numa esplanada. Uma leffe blonde em Happy hour, permite-me observar o tráfego de gentes. Perto do Arena há duas bocas de metro e a encruzilhada se situa entre a pequena estação de Bercy- Bourgogne – Pays d’Auvergne e a caminho da de Lyon.
Observo na gente que passa. A olhada souril – que diria Otero Pedrayo -da burguesia, essa cordialidade indolente upperclass e maioritariamente branca, essa satisfação no andar seguro e as interações corteses da gente de certa idade (da minha ou por cima dela). É uma manifestação coletiva de uma gente satisfeita, que transmite o orgulho redondo de serem franceses, de volta para as suas casas.
Na gente nova, há outro estar, mais pressa, mais raiva, mais protesto nos olhos, menos cordialidade. Também há outros tons na pele e cabelos.
Abro o livro, mas evado-me na cerveja. Dou em fantasiar. Imaginemos, que, por um momento, um William Morris viajante steampunk no tempo chegasse ou espertasse no mundo em que vivemos.
Acho que não se surpreenderia muito. Só constataria que os mesmos idiotas cegos continuam pensando no benefício rápido e imediato, focados em tecnologias em progresso – a nenhures – permanente, e a projetar guerras até, no meio de crises e colapsos sempre imprevistos do capital, para fazerem mais dinheiro. Elites orgulhosas de viverem fugazes no topo, persistindo no programa de destruírem o mundo, fazerem as cidades inabitáveis e martirizarem os seres humanos. A vida, por desgraça para nós, e por sorte para o mundo, é breve.
Levanto a cabeça do livro e a pinta. Continuam a passar gentes novas, diversas, um desfile de mestiçagem plural de tempos históricos e nações, roupas coloridas, cabelos inverossímeis, tatuagens e sacolas gastas. Vão alhures. Alguns petiscando comida rápida ou com envoltórios de supermercados. Não sei se vão ou voltam de trabalhos ou estudos. De menos em menos passam já burgueses protótipo daqueles corretamente vestidos com esse pontinho elegante e completamente funcional que é próprio da manhã e dos ambientes institucionais comerciais dos que voltam.
A ver se vai ser, que contra a ideia do capital, competitividade permanente, tecnologia e esforço, a satisfação vai ligada a ter desfrutado de uma boa educação pública e laica, a facilidade para encontrar trabalhos bons, às garantias sociais e benefícios sanitários assegurados, a poder disfrutar de boas comidas tranquilas e de horários laboráveis pactuados.
Termino a pinta. Penso no Céline. O mundo vai-se fazendo noite.




