As Covas do Barroso são uma comarca natural do norte de Portugal, integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde dominam sistemas agrícolas de pequenas explorações e o pastoreio com vacas, ovelhas e cabras. Tudo contribui para suster a população num sistema de soberania alimentar e económica, que não destruiu as suas bondades ambientais originárias que perduram desde há gerações. Isto fez que a FAO a declarasse como Sistema Importante do Património Agrário Mundial em 2018, denominado como “Paisagem Natural Impressionante” — único em Portugal e um dos sete lugares assim distinguidos de toda a Europa. Desde essa data é Património Agrícola Mundial (ou SIPAM – Sistema Importante do Património Agrícola Mundial).
Mas este lugar excecional do ponto de vista ambiental e social está ameaçado. Uma empresa inglesa, a Savannah Resources, tem a concessão para a sua exploração — daquela que pode vir a ser a maior mina de Lítio da Europa. Este projeto detém uma declaração de impacto ambiental favorável dada pela APA (Agência Portuguesa do Ambiente). Vai ser uma mina a céu aberto que provocará um imenso movimento de terras e a destruição irreversível deste território de grande valor ambiental e cultural.
O grave problema da minaria não é apenas a destruição do território. Também é muito grave a poluição dos cursos de água que serão afetados. Neste caso, águas acima (a montante) já estão bastante poluídos, vindo da Galiza.
Em Covas do Barroso acontece que há habitantes que gostam de viver na sua Terra e querem defendê-la, porque está em perigo não apenas o seu Território, mas as águas que por ele passam e lá nascem, como o Rio Tâmega e o Douro. O Rio Cávado, que nasce na Serra do Larouco, é afluente do Lima, que está afetado polo encoro de Conchas a montante, na Galiza a Norte. Este rio vai passar polo Barroso a jusante e somará a sua carga poluente à da mina. Outros rios, como o Rabagão ou Pissões, levarão a sua carrega de peçonha a jusante no seu percurso, como também o fará o Rio Tâmega, que já traz da Galiza sua carrega de contaminação.
Estão também os rios Beça, que nasce na Serra do Barroso, e o Terva e Covas, que regam o rico vale do Baixo Barroso em Boticas. Nesta região, os cursos de água são abundantes, como é característico da Galiza, quer a Norte quer a Sul do Minho: “adeus rios, adeus fontes, adeus regatos pequenos…” (Rosalía de Castro).
Nesta conjuntura mundial de crise ambiental global, o cuidado dos rios é transcendental, quer a montante das águas, nas nascentes, quer a jusante, águas abaixo. A luta corajosa e responsável da vizinhança do Barroso é um exemplo de respeito e de responsabilidade. Diziam os vizinhos face à ameaça da GNR: “Os terrenos são dos baldios e os baldios são do povo e o povo tem todo o direito a defender o que é dele. A partir deste momento, quando as máquinas comecem a trabalhar, nós bloqueá-las-emos. Se o Sr. Comandante nos quer levar detidos é porque trabalha para a empresa”.
Sabemos também que uma representação dos vizinhos chegou até aos acampados no Porto que protestavam pola falta de habitação para contar o seu problema e que lá foram muito aclamados. Viajaram a jusante dos rios, seguindo o caminho das águas que ainda guardam algo da sua pureza, mas sabendo que o Douro vai ser atingido pola poluição da minaria.
Grupos ecologistas têm convocado manifestações em cidades como Lisboa ou Braga. Também eurodeputados portugueses queixaram-se diante do Parlamento Europeu, que deu à mina o valor de empresa estratégica, pola procura que há de Lítio devida às novas tecnologias. E vão mão com mão com a representante galega Ana Miranda, do BNG.
Nós sabemos que todas as águas caminham para o mar. Todas arrastam na sua passagem parte da terra que percorrem. O que fizermos aos rios no seu curso vai repercutir águas abaixo, a jusante, no seu caminhar. Sem as águas nada somos. O Planeta Terra, em realidade, é um planeta água. Esse líquido maravilhoso que nos dá a vida e que tão pouco é respeitado por multinacionais sem pátria nem moral, que só procuram o lucro monetário, esquecendo que a riqueza ambiental é não apenas o nosso sustento, mas também a nossa cultura.
Na Galiza a Norte há também duras lutas para controlar a minaria. É assinalada a oposição à mina de Touro, de piritas de cobre, que está a montante da ria de Vilagarcía, um dos ecossistemas mais ricos do Oceano Atlântico. Os venenos que se libertam com os trabalhos da mina (lameiros ácidos e metais pesados) são arrastados a jusante polos rios Lanhás, Brandelos e Ulla até ao mar, poluindo a ria e pondo em risco toda a sua riqueza biológica. Se se apagar esta riqueza, farão o mesmo as conserveiras e, com o êxodo das gentes, apagar-se-ão também as palavras e a cultura da Ria. Igual poderíamos falar das minas de Lítio de Doade, na cabeceira do Suído, cheio de nascentes, que vai contaminar as águas a jusante.
As lutas na Galiza não implicam tão diretamente a população assente na zona, porque muita dessa gente já partiu para a cidade, quer Vigo, quer além fronteiras. Quando a terra se esvazia de pessoas, não resta quem a defenda, se não fossem os grupos ecologistas, que em muitos casos têm uma vinculação indireta com o Território. Por isso este interesse político e das macro-indústrias extrativas para concentrar as pessoas nas cidades, deixando abandonado o campo — longe do contacto com a Terra, a meio do cimento, e imbricando política e economia e condicionando a liberdade de decisão.
Por isso o caso de Covas do Barroso é exemplar: gente orgulhosa do seu, defendendo com coragem e dignidade a sua Terra e a sua forma de vida. No território guarda-se não apenas a terra, os rios, as fragas; também nele se cria a nossa cultura e quem a fala. O capitalismo atual sustenta-se em privatizar os ganhos e socializar as perdas, aliando-se com os poderes políticos para apoderar-se do Território e agir sem qualquer controlo ambiental e social.
Se tivessem de pagar os danos ambientais e sociais, os seus lucros já não seriam tantos e comportar-se-iam com menos agressividade e mais respeito pelo que é o comum: Propriedade do Povo.
E o povo é quem mais ordena. Ou não?




