A praça, a rua e o mercado

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Ando estes dias a pensar na cidade do Porto. Sempre que lá estive fui turista, estrangeiro, por isso tenho memória de um lugar belíssimo, mas sem vivências pessoais de grande alcance. Não me interpretem mal: o vivido por lá foi muito significativo, e até mudou bastante a minha visão do mundo. Afinal, sou natural da Galiza, e o só facto de experienciar uma cidade inteira na minha língua é uma vivência chocante. Mas sempre foi, em qualquer caso, um tempo da minha vida para espairecer, uma coisa acrescida, fora do meu quotidiano.

Lembro-me bem da praça de D. João I, sair do Rivoli depois de alguma peça de teatro e encontrar aquele espaço aberto do outro lado da Rua do Bonjardim. Para ser sincero, nunca achei a praça especialmente bonita. Encontrar um espaço aberto, saindo do escuro do teatro, é sempre agradável, mas gosto de zonas verdes, e aquilo é uma superfície seca e aborrecida. Não é um prato de gosto para turista ver. 

De dia, alguma vez, parei naquela praça, só para ver passar pessoas. De férias é mais fácil perder tempo com coisas como essa. Havia turistas, sim, mas também muita gente local a mover-se desordenadamente, cada uma em sua direção, às vezes aos pares ou pequenos grupos. Umas iriam ao trabalho, outras às compras, outras inclusive trabalhavam naquele espaço. E eu estava ali a olhar, como um marciano, a tentar imaginar um quotidiano que me resulta alheio. Também lembro, do outro lado da praça, a Rua Sá da Bandeira, que por simples falta de educação costumo atravessar a qualquer altura, sem procurar as passadeiras. Sinto-me à vontade o suficiente para isso, quando estou no Porto. Já subi algumas vezes a rua para visitar o Mercado do Bolhão: muito bonito, por sinal, mas para mim uma realidade simplesmente estranha. 

Voltando à Sá da Bandeira, e ao meu hábito de a atravessar à bruta, é claro que sei que os carros passam pelo asfalto, e que há que passar por onde está marcado. É a ordem das coisas, como a praça, qualquer uma, ser um espaço normalmente vazio, e os mercados espaços ocupados por pessoas locais. Por isso, nestas últimas semanas, as imagens da D. João I superlotada pelas mobilizações em defesa do direito à habitação me resultaram chocantes, como a qualquer pessoa. É para dar nas vistas, mas não compreendo que incomodem.

O antropólogo barcelonense Manuel Delgado, num dos artigos do livro La danza de los nadie. Pasos hacia una antropología de las manifestaciones1, estabelece a diferença entre as mobilidades, quer dizer, o movimento normal, utilitário, das pessoas num espaço urbano, e as mobilizações, a alteração coletiva desses movimentos com um valor simbólico. E afirma que toda mobilização cumpre no fundo a função teológica da manifestação, quer dizer, o momento em que o oficiante, na missa, exibe o santíssimo sacramento. Efetivamente, tanto faz que se trate de uma procissão religiosa, um ato de protesto ou uma festa popular, a alteração da ordem normal de um espaço urbano torna sempre visível aquilo que até ao momento não o era: nuns casos o sagrado, noutros o conflito, e em todos simplesmente o coletivo. 

Ora é ao coletivo da cidadania do Porto que eu nunca pertenci, precisamente, e por isso o mercado do Bolhão me resulta incómodo. Passeando por dentro, desfruto, como qualquer pessoa, de um lugar agradável, e gosto dele porque é um quotidiano que consigo observar, como gosto de fazer às vezes. E, no entanto, o facto de haver paredes faz-me lembrar que estou onde não devia, que posso ser visto enquanto observo, incomodar as pessoas. Aquilo não é para turistas, mas para a cidadania. O espaço é dum mercado, mas o quotidiano das pessoas não é um bem de mercado. Embora nós, turistas, pensemos às vezes o contrário, ou simplesmente não paremos para pensar no assunto. 

Na cidade em que cresci, Ponte Vedra, atravessávamos habitualmente a rua sem considerarmos as passadeiras, numa atitude que seria selvagem noutros lugares do mundo. É uma cidade mais pequena, e hoje um exemplo internacional de humanização dos espaços públicos. A minha mãe sempre me ralhava quando, em criança, tentava atravessar a rua de forma aloucada. Era, por exemplo, quando a acompanhava à praça, que é como chamávamos ao espaço mais parecido com o mercado do Bolhão na cidade do Leres. Ali comprávamos o peixe e às vezes carne e legumes, e conservo grandes recordações da infância ligadas às peixeiras e outros comércios da zona. Naquela praça habitam ainda algumas das minhas lembranças mais íntimas.

Hoje, no Porto, o turismo interrompe o quotidiano todos os dias, como eu a atravessar a rua de qualquer maneira. Talvez não seja ele a causa última do problema da habitação em Portugal, mas manifesta teologicamente os interesses do mercado, que não é a cidadania. Torna isso visível. Por isso agora, quando visito o Porto, gosto menos, mas nem por isso deixo de aprender algumas coisas importantes. Agora já sei que a praça não é o mercado.


Fotografia: Sérgio Aires

  1.  Padulles, Jofre & Uribe, Joan (dirs.), La danza de los nadie. Pasos para una antropología de las manifestaciones. Ediciones Bellaterra. Barcelona. (2017). ↩︎

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