Altruísmos, caridades e outras fraternidades!

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Quando Montenegro acenou aos manifestantes que demonstravam a rejeição das suas políticas por todo o país com um frio «egoístas», deveria ter primeiro olhado para o lado e percebido, a partir do seu Orçamento de Estado para 2027, que o «egoísmo», a existir, só pode existir para o lado dos que querem reter, ou aumentar, os seus recursos. É um paradoxo chamar de «egoísta» a alguém que luta por umas meras migalhas. Não seria «egoísmo»; quanto muito, seria «miserabilismo» — mas, uma vez que quem se manifesta não vive propriamente na fartura, tratou-se, de facto, de «desespero».

Pela Praça do Rossio, em Lisboa, ou pela Praça D. João I, no Porto, onde Montenegro e o sinistro ministro Neves, o J. Edgar Hoover português, decidiram retorquir com pancada a quem apenas exigia uma coisa tão simples, singela e humana como o acesso condigno à habitação, não terão passado aqueles seres fraternos, muito poucos, cada vez menos, que beneficiarão dos 1.688 milhões de euros com que o Governo brindará as empresas, em especial as grandes, em borlas e descidas do IRC — da descida da taxa nominal aos créditos fiscais à capitalização de empresas, à investigação e desenvolvimento ou ao investimento.

Também não terão por lá passado os caridosos que receberão os 409,3 milhões em benefícios fiscais em ISV para automóveis «comerciais» ou híbridos plug-in, já que os ricos que compram automóveis de luxo não são muito amigos dos elétricos.

Quem por lá passou também não estaria entre os socialmente solidários compradores de 49,9% da TAP, por uma pechincha e, ainda por cima, pelos vistos, a pagar pela própria empresa. Também não desfilaram, certamente, os altruístas que compraram a Caixa Geral Brasil, com cujos programas de capitalização, delineados em 2017, o Governo de Montenegro também se comprometeu. É interessante que o executivo PSD/CDS tantas vezes culpe o Governo anterior pelos erros cometidos e, num erro evidente, nunca se tenha lembrado de o apontar.

Já os mãos-largas para o povo que são os beneficiários das proverbiais PPP (Parcerias Público-Privadas), que desviam serviços públicos para os privados, para que estes verdadeiros filantropos da economia, aumentando os preços, despedindo pessoal e esmagando os direitos dos trabalhadores que ficam, possam ficar com os lucros prometidos, recebendo-os mesmo que não atinjam tais resultados. Só nesta rubrica estão 1.438 milhões de euros, mais 6,8% do que o estimado para 2026, distribuídos entre os setores rodoviário e ferroviário, a saúde e os aeroportos — e nem os peixes do Oceanário escapam à paixão pela coisa pública que esta gente demonstra.

Por outro lado, outros que não surgiram nas manifestações e não levaram umas bastonadas por praticarem o crime de «egoísmo» foram os que beneficiarão dos 855,9 milhões de investimento na Defesa, os que receberão 818,1 milhões com as compras do programa SAFE, para aquisição de aeronaves, submarinos e fragatas, em vez de as fazerem cá, já que as compram. Também não foram vistas as almas singelas que beneficiarão do valor, ainda desconhecido, para a renovação da frota de F-16, provavelmente por recurso ao avião mais caro e, do ponto de vista da prontidão de combate, o mais ineficaz da história, o F-35, ou os que ainda receberão as verbas decorrentes das PPP da Defesa, como sucede com a entrega da OGMA. Mais uma central de competências que o Governo PSD/CDS pretende colocar ao serviço… do privado.

É certo que este privado está muito preocupado com uma Federação Russa que é incompetente em tudo, mas que vem aí já amanhã, visando a união, numa só Nova Roma, de todo o território que vai de Lisboa a Vladivostoque.

Estas são apenas algumas das enormes contribuições de uma imensamente altruísta classe proprietária para com todo o povo português. Não se inserem aqui as contratações intermédias, de serviços e consultoria, a empresas privadas como a Deloitte; não estão aqui considerados os fundos comunitários pagos às «empresas» e associações patronais, para que formem os seus quadros especializados; não estão aqui os lay-offs, os estágios e muitos outros recursos com que o patronato português se habituou a contar, altruistamente, para os seus negócios.

O que é facto é que, quanto mais os governos têm acentuado este caminho, mais «egoísmo» surge do lado dos trabalhadores e dos povos. Mais ávidos se mostram na reivindicação de luxos como melhores salários, um serviço público de saúde tendencialmente gratuito que funcione, trabalho sem precariedade e uma habitação condigna, para que possam planear a sua vida. Os jovens, esses «mimados», engrossam cada vez mais as fileiras dos descontentes, obrigados a adiar uma vida que queriam planear, como havia sido permitido a muitos dos seus progenitores. Os idosos, esses mal-habituados à fartura, apenas não querem ser despejados, ficar na rua com pensões de miséria e sem sequer lares públicos para onde ir.

Trata-se de uma onda de «egoísmo» que se contrapõe à opressão da filantropia dos 1% mais ricos, que querem tanto ao país e ao povo, que o querem todo para si, contando com a ajuda preciosa de governos demasiado «caridosos» para lhes rejeitarem tais anseios.

Não, senhor Montenegro, o que o senhor não pensava ser possível é que também os portugueses fossem capazes da solidariedade intergeracional e da combatividade demonstradas. E não foram precisos os «nuestros hermanos» para que o conseguissem: bastaram-lhes as suas políticas «moderadas», «responsáveis» e «altruístas»!

O odor a bafio que delas exala acordou todos os que gostam da sua terra, do seu país, sendo aqui onde querem fazer vida, e não a emigrar, como os senhores sempre lhes mandaram fazer.

Invocar os sacrifícios dos nossos avós apenas nos prova que Vossas Exas. saíram do mais negro buraco de que a história portuguesa se lembra: os 48 anos de fascismo. Ora, para fascismo já nos chegou esse, e a miséria de «contas certas» que nos trouxe. Ainda hoje pagamos o preço disso…

O seu governo é a lembrança viva desse preço!


Fotografia: Redes Sociais Acampada de Lisboa

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