Ferrol, Pardinhas, Lisboa: duas faces da causa palestiniana

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Ferrol, Pardinhas e Lisboa foram palco, no início deste mês, de decisões que colocaram no centro do debate público a causa palestiniana. O arquivamento judicial de uma denúncia contra um ativista galego, o boicote num festival de música e uma polémica condenação da Comissão pela Liberdade Religiosa marcaram a atualidade.

Redação |

Os primeiros dias do mês de agosto ficaram marcados por acontecimentos que colocaram no centro do debate público a causa do povo palestiniano e a denúncia do genocídio. Entre decisões dos tribunais, pichagens de protesto e boicotes no palco dos festivais populares, a sociedade civil reafirmou o seu posicionamento crítico face à atuação do estado de Israel.

Enquanto a justiça arquivava a queixa em Ferrol e organizadores do festival cancelavam um concerto em Guitiriz, perto de Lugo, em Lisboa, um organismo governamental apelava ao Governo português contra o “crescimento do antissemitismo” por um slogan em favor da causa palestiniana.

O primeiro destes episódios teve lugar no âmbito judicial no passado dia 31 de julho, quando o ativista Bruno Lopes Teixeiro prestou declaração no Tribunal de Ferrol. A comparência ocorreu na sequência de uma acusação de suposto delito de ódio e antissemitismo, promovida através de um relatório da Brigada de Informação da Guarda Civil por causa de publicações realizadas na rede social X em apoio à causa palestiniana.

O ativista pela causa palestiniana Bruno L. Teixeiro

O juiz decidiu determinar o sobreseimento definitivo e o arquivamento da causa concluindo que as mensagens analisadas se enquadram no âmbito da crítica às políticas do estado de Israel, descartando o discurso de ódio ou antissemitismo.

Segundo a decisão judicial, o relatório policial apresentou “constantes juízos de valor e interpretações subjetivas” criticando ainda a mistura de questões religiosas com debates políticos. É a segunda vez que o Tribunal de Ferrol arquiva o caso, depois de a Audiência Provincial ter ordenado a reabertura para novas diligências.

Em comunicado, o coletivo Mar de Lumes – Comité Galego de Solidariedade Internacionalista – expressou a sua satisfação com a decisão, sublinhando que a denúncia pretendia “confundir deliberadamente antisionismo e antisemitismo“.

Apenas dois dias depois da resolução judicial, a Palestina voltou a ser protagonista, desta vez na vertente cultural. No domingo, 2 de agosto, durante a realização do 47º Festival de Pardinhas em Guitiriz, o concerto da banda alemã Dobranotch acabou por ser suspenso devido a um protesto do público.

Bandeira palestiniana no Festival de Pardinhas

O incidente começou quando assistentes, empunhando bandeiras palestinianas, começaram a interpelar o grupo pela sua atuação em Israel durante 2025, exigindo a adesão ao boicote cultural contra o estado israelita. A tensão aumentou quando foram lançadas pedras e copos ao palco.

Perante o clima gerado e a saída da banda do palco, a associação cultural Xermolos, organizadora do festival, optou por cancelar o concerto por razões de segurança. Em comunicado público, a associação lamentou que, tendo em consideração a trajetória e a vontade de colaboração, não houvesse diálogo prévio para aclarar possíveis desentendimentos e evitar este tipo de acontecimentos. A organização fez questão de reiterar publicamente a sua postura de condenação ao genocídio e destacou diversas ações organizadas nos últimos anos pela associação em prol da causa palestiniana.

Já no dia 3 de agosto, a Agência Ecclesia avançou que a Comissão da Liberdade Religiosa, após receber carta de protesto da Comunidade Israelita na capital portuguesa condenou a aparição em maio de uma pichagem com a frase “Free Palestine from the river to the sea” perto da sinagoga de Lisboa.
O organismo consultivo do Parlamento e do Governo justificou a sua condena considerando a expressão “Free Palestine” uma reivindicação legítima de autodeterminação ao abrigo da liberdade de expressão, mas advertiu que “a segunda parte do slogan ultrapassa esses limites” ao reclamar para o Estado Palestiniano o território entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. Para a comissão, esta fórmula representaria a “negação do estado de Israel”, o que “gera uma perturbação emocional” e ameaça “o sentimento de segurança das comunidades judaicas em Portugal“. Na sua resolução, a primeira de 2026, a Comissão chega a relacionar o slogan político pela liberdade do povo palestiniano com a ideologia nazi e o holocausto alemão, e o movimento contrário a Israel com o antissemitismo, Não fez no entanto nenhuma referência à atual situação na faixa de Gaza ou à política de apartheid israelita.


Fotografias:  @nuMaGz (X), Mar de Lumes, redes sociais

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