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O coletivo Fartudibos lançou, no passado dia 20 de junho, o álbum de intervenção Sissoco Na Kai, uma obra que transforma a música numa ferramenta de denúncia política e resistência na Guiné-Bissau. Disponibilizado nas plataformas digitais, o disco traz no próprio título o tom do manifesto: em língua guineense, a expressão significa “Sissoco vai cair”.
O Fartudibos é um movimento musical de intervenção política que junta rappers, ativistas e poetas guineenses, na sua maioria a residir na diáspora. Criado em julho de 2023, o coletivo nasceu com o propósito de usar a música de protesto como uma ferramenta de combate ao regime autoritário liderado por Umaro Sissoco Embaló.
Ao longo de três anos, o Fartudibos deu voz a 17 temas que traçam um retrato cru da realidade guineense. As suas letras denunciam os raptos, espancamentos, perseguições políticas e prisões arbitrárias que marcam o quotidiano. Apontam também a instrumentalização étnico-religiosa, a violação sistemática da Constituição e os assassinatos cometidos sob o “sissoquismo” — um regime que o coletivo considera camuflado sob a capa do Alto Comando Militar.
Em entrevista à e-Global, Marlon Lopes Correia, cantor, rapper e produtor do movimento — conhecido artisticamente como Marlon C — declarou que Sissoco Na Kai é uma tomada de posição frontal contra Umaro Sissoco e contra o sistema político que o rodeou. No entanto, o artista ressalta que não pretende limitar a intervenção artística à crítica de uma figura individual.
O objetivo, segundo diz, é atingir o conjunto de estruturas políticas que considera responsáveis pela degradação das liberdades públicas. Por fim, o cantor relatou ataques contra o grupo e acusações de ligação partidária, uma marca frequente nos contextos de polarização política, onde a crítica artística é muitas vezes confundida com militância formal.
Na mesma entrevista à e-Global, e perguntado sobre a reação ao álbum, o rapper afirma que o impacto público está a ser condicionado pelo medo. “As pessoas estão até com medo de reagir às nossas músicas, sobretudo as que se encontram na Guiné-Bissau, pelos motivos que todos conhecemos”, revelou.
Na linha da frente do projeto estão Marlon C, responsável pela voz, produção, mistura e masterização; Big Bandera e MC Igreja, essenciais nas composições e letras; além de Bongoman e MC Mano, que somam o seu talento musical e rimas ao grupo. A geografia do coletivo estende-se com as participações de Slim Drácula, rapper radicado em Curitiba, e de Jada Imperatriz, ativista em Lisboa e única voz feminina do coletivo.
O álbum-manifesto ganha ainda o contributo de referências da cena musical da Guiné-Bissau. Manecas Costa assume os arranjos de guitarra em “Pasa dianti”, enquanto Eneida Marta deixa o seu testemunho (shout) na faixa-título. O alinhamento musical completa-se com participações de MC Ndangmésse Nabiam, Chito Kaharam Killer e Lagartixa Npasmadu.
Imagem: e-global.pt





