Caldeirada de raias e travessões

   Tempo de leitura: 3 minutos

Em casa, quando era criança, às vezes comíamos raia ao jantar. Na verdade, nunca fui grande apreciador, não pelo sabor, mas pola1 textura e por aqueles travessões —————— fibrosos que, parecendo filamentos de plástico, me causavam uma repulsa difícil de explicar.

Quase sempre a comíamos em caldeirada, um prato que também se encontrava em muitos menus de restaurantes, polo menos nas Rias Baixas e que hoje é difícil de ver, num cenário de invasão alimentar, primeiro pola cozinha padronizada espanhola, e agora pola americana (germânica e italiana).

A raia – que, por acaso, na Galiza tem o mesmo nome que em Portugal – é conhecida em castelhano por “raya”. E enquanto, na nossa língua, usamos a palavra “travessão” para designar o traço longo (—), em castelhano esse sinal também se chama “raya”.

É precisamente sobre travessões e raias que quero falar.

É que não me lembro de ter escrito muitos travessões nos meus textos em castelhano – e digo nesta língua de propósito, porque foi nela que nós, galegos e galegas, fomos treinados para melhorar a nossa expressividade natural. Foram horas e horas e horas, desde crianças, dedicadas obrigatoriamente a aprender e a aperfeiçoar a língua que, para a esmagadora maioria da minha geração, não era a língua dos nossos avós, nem sequer a de muitos dos nossos pais.

No entanto, apesar de todo esse tempo, poucos conseguiram usar com naturalidade este elemento textual nos seus escritos na língua de Castela. Quando é que ele deve realmente ser colocado? Será equivalente à vírgula? Indicará uma pausa? Terá uma função semelhante à dos parênteses? Alguém me explica?

Há uns aninhos, por motivos profissionais, tivem de aprender quando devem ser utilizados. Para tal, procurei primeiro informação na net e conseguim ver que o travessão é: «usado no aposto, para isolar conteúdo da frase que tenha o objetivo de explicar, bem como conteúdo para o qual se quer dar destaque. Além de vir separado pelo duplo travessão, o aposto pode ser isolado por vírgulas ou parênteses.» Mas esta explicação não me deixou completamente esclarecido. Continuei a procurar noutros manuais de estilo jornalístico, que ajudam mais, mas nunca ficava totalmente convencido.

Cansado, acabei por perguntar qualquer cousa aos modelos de IA sobre outros assuntos que mais me interessam, e eles responderam sistematicamente – cada uma das respostas – com este artefacto discursivo.

Mas, ainda que o travessão não seja uma raia – já que a raia é um peixe –, graças às respostas dos modelos de IA, julgo rever aquelas caldeiradas da infância, com raias transmutadas em travessões de plástico. No fundo, é uma inteligência artificial que me fai saborear de novo este alimento e perceber quando devem ser usados – e também identificar, nos meus escritos e nos alheios, quem os emprega com uma correção tão mecânica que se torna profundamente suspeita.


  1. O autor escreve numa variedade de português que inclui particularidades galegas ↩︎
Share