Neira Vilas será a figura das Letras Galegas 2027

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Redação |

Nascido em Vila de Cruzes em 1928, onde também faleceu em 2015, o escritor Neira Vilas será o homenageado do dia das Letras Galegas em 2027. Neira Vilas imortalizou na sua obra a infância vivida no interior da Galiza rural dos anos 30 e 40. Os trabalhos do campo, as romarias e a escola moldaram o universo do seu livro “Memórias dun neno labrego” , a obra de maior relevância da sua carreira, consolidada durante décadas como o livro mais vendido e lido da história da literatura galega.

Publicado originalmente na Argentina em 1961, o romance converteu-se num fenómeno editorial, alcançando sucessivas edições e múltiplas traduções, iniciadas com a versão em castelhano em 1963. A primeira versão em português moderno, Memórias de um Pequeno Camponês, foi feita por José Viale Moutinho, e publicada pela Forja Editorial no ano de 1977. A obra foi também editada em alemão, catalão, basco, asturiano e inglês. Existem ainda traduções em russo, checo, búlgaro, chinês, italiano e francês que não chegaram a formato impresso ou que foram parciais e uma versão em braille e uma adaptação teatral inédita na língua maia.

A narrativa, ensaios e investigação jornalística de Neira Vilas foram profundamente marcados pelas memórias da Guerra Civil — patentes em Aqueles anos do Moncho —, a febre mineira do volfrâmio e, decisivamente, a experiência da emigração, consolidando-o como a voz literária da identidade galega da época.

Ao desembarcar na capital argentina em 1949, Neira Vilas integrou as Mocidades Galeguistas e envolveu-se ativamente em iniciativas de afirmação e preservação da identidade cultural galega. O principal veículo para a difusão e dinamização destas atividades cívicas e culturais era o jornal Adiante, publicação onde o escritor começou a consolidar o seu papel na imprensa.

Em 1957, Neira Vilas casou-se com a escritora cubana Anísia Miranda. Impulsionados pelo idealismo da época, o casal mudou-se para a Cuba da Revolução, movido pelo desejo de participar na construção de uma nova sociedade. Na capital caribenha, ambos desenvolveram uma intensa atividade cultural e editorial, integrando-se nos projetos intelectuais do novo panorama político e social cubano.

Em Cuba, Neira Vilas ingressou no Ministério da Indústria, liderado por Che Guevara, onde exerceu as funções de chefe do departamento de Intercâmbio na Empresa Nacional da Indústria Automotriz. Mais tarde, integrou a Direção de Relações Internacionais do mesmo ministério.

Apesar da carreira institucional, o autor manteve-se firme no propósito de trilhar um caminho nas letras e iniciou uma profunda investigação sobre a diáspora na secção galega do Instituto de Literatura e Linguística. Este trabalho resultou em obras como Castelao em Cuba, A imprensa galega de Cuba e os volumes de Memórias da Emigração.

Em 1983, a sua trajetória ganhou um novo rumo ao assumir a chefia de redação da revista infantil Zunzún. Ali, ao lado da sua esposa Anisia Miranda, dedicou-se à criação de textos pedagógicos, poemas e relatos de divulgação cultural.

Após 31 anos de vivência em Cuba, Neira Vilas regressou definitivamente à Galiza em 1994 para se fixar em Gres, a sua terra natal. Longe de se retirar da vida pública, o escritor assumiu a direção da Fundação Neira Vilas, instituição sediada na própria Casa do Romano em que nasceu. A partir deste espaço, deu continuidade à atividade cultural e jornalística, promovendo a dinamização da língua, a ligação à diáspora e o apoio à criação literária até ao fim da sua vida.

Membro numerário da Real Academia Galega, Neira Vilas foi reconhecido como Doutor Honoris Causa pelas universidades da Corunha e de Havana, além de ter sido galardoado com o Prémio da Crítica em ensaio. O seu impacto social e cultural valeu-lhe ainda a Medalha Castelao do governo, o Pedrão de Ouro e os prémios Cela Nova – Casa dos Poetas e o Trasalva. No âmbito internacional, foi reconhecido com o Prémio de la Crítica da Asociación Española de Críticos Literarios na categoria de narrativa.


Fotografia: www.cultura.gal

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