Entrevista | Joana Magalhães: «A ciência também se vai transformando com a sociedade »

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Natural de Espinho, Joana Magalhães recebeu em maio de 2026 o MCAA Career Award 2025, a mais importante distinção atribuída pela Marie Curie Alumni Association, tornando-se a segunda portuguesa a receber este reconhecimento europeu. Licenciada em Biologia pela Universidade de Aveiro e doutorada em Bioquímica e Biologia Molecular pela Universidade Complutense de Madrid, desenvolveu investigação em medicina regenerativa, biomateriais e osteoartrite antes de orientar o seu percurso para a comunicação científica, a ciência cidadã e a participação pública na investigação.

Depois de catorze anos na Galiza, onde integrou instituições como o INIBIC, a UDC e o CIBER-BBN e foi nomeada académica da Academia Galega da Língua Portuguesa, vive atualmente em Barcelona, onde é investigadora sénior na Science for Change e co-coordena o projeto europeu COALESCE, que prepara o futuro Centro Europeu de Competências em Comunicação Científica.

Nesta conversa com o De Norte a Sul, partilha um percurso construído entre laboratórios, línguas e geografias distintas, refletindo sobre mobilidade, identidade, ciência cidadã, inteligência artificial e os desafios que continuam a marcar a investigação europeia.

Mora há três anos em Barcelona e antes disso, esteve catorze anos na Corunha, depois de uma trajetória que também passou por Aveiro, Madrid, Gante e Sheffield. Fala várias línguas. Como se está a adaptar à Catalunha?

Acho que o facto de ter vivido na Galiza me predispõe para uma sensibilidade com a língua como identidade que eu não tinha antes. Por isso há um respeito muito grande por aquilo que o catalão representa. Aconteceu-me uma coisa curiosa: nos primeiros dias em Barcelona, entendia praticamente tudo, mas respondia em galego, sem saber porquê. No dia a dia, onde mais contacto tenho com o catalão é no Jardi Del Silenci, um “centro cívico ao ar livre” que ainda resiste à forte pressão imobiliária no bairro de Gràcia. Desde que cheguei tornei-me voluntária e aqui encontrei um espaço intergeracional, feminista, que transmite valores culturais diversos conectados com a ciência e a educação ambiental, e me permite conectar com o humano e não humano. É sem dúvida o lugar através do qual senti que Barcelona também é “casa”.

É uma Joana diferente segundo que língua esteja a falar?

Para mim, o sentir noutros idiomas, permite ter múltiplas identidades. Sinto que tenho muitos eus, e sou, se calhar, uma Joana diferente em cada um dos lugares onde estou, porque não é só a língua, é o contexto. O caso da Galiza foi o mais marcante, porque estive aí 14 anos e foi na Galiza que adquiri a minha consciência política e de ativismo, através do associativismo que há aí, que sinto que é difícil de encontrar noutros lugares e que admiro profundamente. Não é só a Joana que fala galego ou a que fala português: é tudo aquilo que marcou cada um desses contextos e que faz parte de mim. E às vezes até digo ser “híbrida”, porque acabo por ser híbrida na linguagem, mas também no pensamento. Por exemplo, há expressões que não se conseguem traduzir, porque não é só tradução literal, é pensar e sentir nesse idioma, a morrinha não é o mesmo que a saudade. A morrinha implica sempre uma ligação à terra, enquanto a saudade pode não a ter.

A mobilidade parece inerente à carreira científica. Como olha para essa exigência?

No meu caso, olhei para isso como um privilégio, e como uma oportunidade de crescimento. Respeito e apoio quem prefere ficar onde tem a sua família e não quer ser obrigado a partir, e acho que devem existir oportunidades para trabalharmos onde escolhermos.

Mas para mim foi precisamente uma das coisas que mais me atraiu: a possibilidade de aprender outras formas de trabalhar, o pensamento multicultural, que ativa outras áreas do pensamento. O programa ERASMUS, a bolsa Marie Curie foram ferramentas fundamentais para conseguir ter acesso a estas oportunidades, e das pessoas que conheci nestes programas, poucas são aquelas que não viram o seu percurso ser influenciado, seja em escolhas pessoais e profissionais, como também expressar uma maior tolerância e respeito pelo outro.

Com mais de vinte anos de carreira e depois do prémio Marie Curie, como se apresenta hoje? Como investigadora?

Sim, ainda que diga que passei de um laboratório mais contido, a trabalhar com células, para considerar a sociedade inteira como laboratório. Abriu-se assim uma dimensão nova, e também uma parte de gestão de ciência, que é hoje uma das vertentes em que mais trabalho.

Acho importante que se reconheçam perfis científicos que não são os tradicionais e que incluem a comunicação de ciência, o diálogo com a sociedade, a perspetiva de género. O conceito de ser cientista no século XXI é bastante mais amplo. A ciência também se vai transformando com a sociedade, não pode continuar a ser unidirecional, no sentido do cientista a transferir o conhecimento para fora; hoje em dia temos a possibilidade de criarmos um diálogo com os outros saberes e tipos de conhecimentos, com as necessidades reais das pessoas e abrimos a porta do laboratório e instituições para trabalharmos em comum. A ciência cidadã e a comunicação de ciência participativa, assim como os agentes que a praticam, são perfeitos mediadores destas novas relações.

A ciência também se vai transformando com a sociedade, não pode continuar a ser unidirecional,(…) hoje em dia temos a possibilidade de criarmos um diálogo com os outros saberes e tipos de conhecimentos, com as necessidades reais das pessoas

Acha que a aposta europeia na ciência se traduz depois em recursos concretos?

Sem dúvida. Uma das vantagens que mais tenho observado é a criação de redes internacionais para responder a necessidades conjuntas. Um exemplo claro entre a Galiza e o Norte de Portugal foi a criação do instituto em rede IBEROS, do qual formei parte nos seus inícios e que hoje continua ativo, tendo fomentado a criação de vários postos de trabalho, capacitação de profissionais, e avance no conhecimento, contribuindo para a consolidação da eurorregião na área da bioengenharia e biofabricação.

Por outra parte, uma das prioridades que ainda falta cumprir, a nível europeu, é o combate à precariedade nas carreiras científicas. Isso foi, aliás, discutido na própria conferência em que recebi o prémio da Marie Curie Alumni Association. O caso de Portugal, é flagrante: ainda há pessoas com bolsas que não são necessariamente contratos de trabalho,com descontos voluntários, tanto no doutoramento como no pós-doutoramento. Em 2005 quando cheguei a Madrid estava a haver mobilizações contra essa precariedade e desde quase duas décadas os contratos de trabalho são uma realidade para qualquer investigador/a. Que isto ainda não tenha acontecido em Portugal, em 2026, é preocupante.

Mas a Joana acedeu a uma bolsa europeia particularmente bem dotada.

Tive consciência disso desde o início, e isso não me impede de estar ao lado de colegas com condições piores, pelo contrário, acho que essas devem ser as condições a que todos os Estados-membros aspirem. Também não creio que seja uma questão de brilhantismo individual: é uma questão de competências e de flexibilidade. E há hoje um movimento internacional para mudar a forma como se medem os méritos numa carreira científica, dando peso ao impacto social, político e à transferência de conhecimento, e não apenas à produção de artigos.

A sua trajetória mistura ciência, comunicação e cultura, faz parte da revista Quiasmo, da Academia Galega da Língua Portuguesa.. Como se cruzam essas áreas?

A ciência permeia qualquer âmbito da vida. Desde sempre gostei de aprender de tudo: lia Shakespeare aos dez anos, quis ser professora de inglês, depois arqueóloga.. Durante o doutoramento, também não queria fechar-me numa única especialidade, depois bebi de grupos de investigação de química, engenharia, biologia, medicina… E em paralelo fui-me nutrindo de outros espaços e estar com profissionais de outros âmbitos, por exemplo da arte e literatura, para fazer e pensar outro tipo de perguntas. Alguns exemplos que contribuíram para isso foram, o “Ollo da arte” com a Antía Otero, o “Laboratório da Palavra” com a Estibaliz Espinosa, a residência TransCénica com Artesacía, ou “Galiza: uma porta aberta para o mundo” com a Teresa Moure.

Acho que é importante termos o contexto de onde é que estamos, como é que trabalhamos e como é que também impactamos a vida dos outros e vivemos daquilo que está acontecendo. Tem que haver uma permeabilidade naquilo que se faz. A Quiasmo nasce de uma vontade conjunta, liderada pelo Tiago Alves Costa, de materializarmos esta forma de estar, que partilhamos, e continuar a criar vínculos culturais, desde os afetos.

Como condicionou esta perspetiva o seu trabalho?

Há coisas que já fazia de forma natural, mas às quais não sabia dar nome, como toda esta parte de participação cidadã. Duas ideias marcaram-me especialmente: perceber que a ciência não é neutra, e que pode estar enviesada — há estudos que mostram medicamentos retirados do mercado por efeitos secundários em mulheres, por exemplo —, e a necessidade de romper com a hegemonia de um único sistema de conhecimento, abrindo espaço para um benefício mútuo entre diferentes saberes. O pensamento crítico nasce de diferentes formas de fazer perguntas, e a capacidade de olhar para um mesmo.

Portanto, às vezes também sinto que dentro das próprias carreiras universitárias, o facto de existirem especializações muito concretas para responder a um mercado laboral, nos faz perder um bocadinho esta conexão mais holística desde o ponto de vista de impacto social, ou contextos económicos, geopolíticos do trabalho que nós fazemos. É precisa uma relação mais próxima das áreas tecnológicas e científicas com a filosofia, a história da ciência, a sociologia… que nos permita desenvolver o pensamento crítico.

É precisa uma relação mais próxima das áreas tecnológicas e científicas com a filosofia, a história da ciência, a sociologia… que nos permita desenvolver o pensamento crítico.

Em que projetos está envolvida atualmente?

Coordeno o projeto COALESCE, que tem como um dos objetivos realizar um exercício de conhecimento mútuo entre nove países da União Europeia sobre políticas públicas na comunicação de ciência. No futuro Centro de Competências, a ideia é construir o que chamo uma casa-mãe para quem trabalha nesta área, pensando em perfis multidisciplinares e na mobilidade intrínseca da carreira, para quem tem de reconstruir comunidades profissionais noutros países. Trabalhamos também em sobre como antecipar crises, como contrariar a desinformação, como desenvolver competências digitais — incluindo o uso de inteligência artificial para comunicar ciência — e como ativar políticas públicas nesta matéria. Sinto-me muito confortável neste espaço, ligado ao serviço público, em que o objetivo é sempre contribuir para uma democracia melhor.

Qual é a receita da ciência contra a desinformação e a pós-verdade?

Eu acho que criar comunidade permite a resiliência face à desinformação. Temos que estar perto das necessidades das pessoas, criar relações que durem e que de alguma forma se estabeleçam em base de confiança. Nas diferentes análises, a ciência sai sempre como geradora de confiança, os cientistas saem sempre como as pessoas que mais geram confiança. É verdade que existe uma crise com movimentos anti-ciência e tudo mais, não é? No entanto, a confiança continua alta. Só que tem que haver proximidade para o diálogo e as pessoas sentirem que são ouvidas. E eu acho que, por exemplo, o caso da ciência cidadã pode levar a isso.

Criar comunidade permite a resiliência face à desinformação. Temos que estar perto das necessidades das pessoas, criar relações que durem e que de alguma forma se estabeleçam em base de confiança.

E quais acha que são os principais desafios com a Inteligência Artificial?

O caso da inteligência artificial é um tema tão grande! Há muitas coisas; vamos evoluir e vai ajudar profissões, vai ajudar a própria forma, eu acho, como nós pensamos e como fazemos a ciência, mas ao mesmo tempo tem que haver, e eu acho que está presente, a consciência de manter a integridade e a ética do ponto de vista de como geramos o conhecimento, como tratamos os dados das pessoas e também há aquela consciência do ponto de vista dos recursos limitados que temos no planeta e a energia que é necessária para a geração dos dados que estamos a criar. No entanto, ainda que não é minha área específica, acho que a União Europeia está a trabalhar bem no sentido da regulação. Mas sabemos que a regulação sempre vai por trás dos acontecimentos, não só na inteligência artificial, acontece com qualquer tipo de tecnologia. Sobre isto, nós não sabemos ainda o que vai ser possível fazer, podemos imaginar, mas é também importante criar o diálogo e a relação para que a cidadania possa estar ativa nos processos de decisão. As decisões não devem ser só tomadas em salas de diretivas.

Como imagina o seu próprio trabalho, daqui a vinte anos?

Espero que o reconhecimento destes perfis diversos esteja então verdadeiramente institucionalizado, e que haja uma integração muito maior entre ciência e sociedade.

Já estamos a caminhar nesse sentido. O que não podemos é recuar no que já foi conquistado, por exemplo ao nível da perspetiva de género na ciência, que está sempre em risco quando mudam governos ou parlamentos, e isso é especialmente relevante agora, quando se está a preparar o próximo programa-quadro europeu de financiamento da investigação.

Já há dados, temos evidência, que mostram o valor acrescentado de manter a perspetiva de género e uma investigação mais participativa. Espero que, dentro de vinte anos, o que hoje é exceção seja simplesmente a normalidade.

Há dados que mostram o valor acrescentado de manter a perspetiva de género e uma investigação mais participativa.

Espero que, dentro de vinte anos seja simplesmente a normalidade.




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