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Os modelos de linguagem fundamentados em Inteligência Artificial estão a reconfigurar a criação e consumo de dados. A sua adoção massiva suscita inquietações críticas quanto à veracidade e fidedignidade dos conteúdos, com especial incidência no setor educativo.
O alerta parte do estudo desenvolvido pelos investigadores Nuno Moniz, da Universidade de Notre Dame, e Miguel Cardina, da Universidade de Coimbra. No artigo intitulado ‘Como a Inteligência Artificial pode alterar o nosso passado’, os especialistas sublinham que o uso destas ferramentas compromete a fidedignidade dos dados, afetando diretamente a forma como interpretamos tanto a atualidade como o passado.
O estudo analisou como a IA narra a história, com base em 3.500 diálogos e sete línguas diferentes sobre quatro conflitos globais. As conclusões indicam que os sistemas revelam problemas que vão desde a invenção de factos e erros de cronologia até ao viés imposto pela língua dominante, expondo a fragilidade destes modelos face a tentativas de manipulação.
A rapidez com que os alunos adotaram a IA para o acesso a dados históricos exige uma resposta urgente. Sem medidas que garantam a fidedignidade da informação, o impacto na compreensão histórica das novas gerações será irreversível, prejudicando a sua formação enquanto cidadãos ativos e preparados para os desafios da democracia.
A investigação analisou como o ChatGPT reconstrói quatro episódios históricos marcantes, nomeadamente as guerras do Vietname, na ex-Jugoslávia, nas guerras de libertação coloniais contra Portugal e a invasão israelita na Palestina.
O trabalho académico revela um padrão de problemas sistemáticos que inclui a invenção direta de factos e erros graves de cronologia. O estudo destaca ainda como o predomínio de certas línguas nos dados de treino distorce a realidade, levando o sistema a apresentar versões diferentes — e muitas vezes contraditórias — do mesmo acontecimento histórico consoante o idioma utilizado.
O rastreamento dá exemplos como o ChatGPT está a moldar uma história escrita com falhas graves de rigor, revelando que a IA inventou batalhas, citou documentários inexistentes e apresentou narrativas incongruentes como factos. Mas não só, a precisão cronológica é outro ponto crítico: a Operação Nó Górdio, em Moçambique, foi erradamente datada, enquanto a independência da Guiné-Bissau foi simplesmente omitida.
O estudo alerta ainda para um enviesamento linguístico profundo: o volume de dados em certas línguas dita a narrativa global. Exemplo disso é a guerra do Vietname: mesmo quando questionado em vietnamita, o ChatGPT privilegiou a perspetiva histórica dos Estados Unidos de América, demonstrando que a abundância de informação anglófona condiciona o relato histórico.
Em Portugal, como noutras sociedades europeias, a memória e a História, particularmente em relação ao período colonial e à transição democrática, continua a ser objeto de debate público e académico. Estes debates interpretativos pressupõem um acordo fundamental sobre factos históricos básicos, como datas, eventos, sequências cronológicas. Os sistemas de IA ameaçam esta base partilhada, ao introduzirem erros objetivos que não fazem parte de nenhuma interpretação historiográfica legítima. Proteger a integridade histórica é, portanto, essencial para que debates interpretativos possam ocorrer de forma informada e produtiva.
A natureza geracional desta ameaça exige urgência. Cada ano sem intervenção gera novos estudantes cuja compreensão histórica pode incorporar conteúdos fictícios. Embora o impacto real deste cenário não seja imediato, os autores da investigação concluem que é necessária uma ação pronta para evitar danos graves nos fundamentos da educação cívica
O relatório propõe ao Governo e à Assembleia da República três recomendações prioritárias em educação e ciência para combater a desinformação. Estas incluem o desenvolvimento de recursos de formação para educadores e a sua integração no ensino inicial, a criação de diretrizes sobre o uso de IA no ensino superior que ponderem benefícios e desafios pedagógicos, e o apoio à investigação para a compreensão crítica da informação mediada por sistemas de inteligência artificial.
O consórcio internacional que elaborou o estudo, integra ainda, para além dos professores Nuno Moniz e Miguel Cardina, Atalia Omer e Peter Cajka (Universidade de Notre Dame), Jasna Ćurković Nimac e Tomislav Anić (Universidade Católica da Croácia) e Silvana Mandolessi (KU Leuven, Bélgica).
Da imagem CC BY Nicola Giordano

