“Creio em liderar pelo exemplo”, mas não sou profeta de discursos. Sou mais pela via dos factos”. Paula Dominguez Encinas (Redondela, 1998), “Pauleta”. Recuperou-se de duas lesões graves e adquiriu a nacionalidade portuguesa. Convocada pela seleção, jogou a representar Portugal. Ela não acredita ser uma lenda do SL Benfica, nem uma das melhores jogadoras de futebol dos últimos anos —dentro e fora da península ibérica—. Recuperamos a conversa que tivemos com ela no verão de 2025, a meio da sua recuperação.
Entrevista |
O que faz uma galega por Lisboa?
Jogar futebol. A minha aventura já começou há uns anos, em 2018. Tem sido uma experiência que foi mudando do difícil para o mais fácil. Às vezes tens Portugal ao lado, mas não fazes por conhecer a cultura. No entanto, qualquer um que viva no país repara nas semelhanças e na irmandade…
Muitos galegos foram para Lisboa no fim do sec. XIX e inícios do XX. Muitos de origem humilde, acabaram por melhorar as suas vidas, levar negócios… a Pauleta é consciente desse processo vital, com as diferenças do mundo de hoje?
Quando vim para o Braga não pensava que ia ficar tempo a fazer carreira, e nem muito menos tantos anos por cá, nem no Benfica. É a minha vida desde pequenina, gosto deste desporto e desta vida. Nunca tive a ajuda de ninguém que me pudesse meter dentro…então foi tudo com esforço de baixo para cima, jogando… vieram de Braga e convidaram-me a ir lá, desde o Olivo de Vigo. Foi tudo na sombra, com muito trabalho. Continuo a ser a mesma de sempre, apesar de estar num clube enorme, com muitíssimos adeptos atrás dele.
De onde é que vem a paixão, quais as primeiras lembranças e quando acha que poderá viver disto?
Tenho um irmão 15 meses maior do que eu. Eu ia ver os seus treinos, comecei por imitação. Depois, ele deixou-o, mas eu continuei e desde os 5 ou 6 anos, já não me detive. A minha família não era apaixonada pelo futebol, mas a partir daí, começou-se a ver o futebol na casa. Era tudo futebol cada fim-de-semana. Mas no meu caso foi tudo por acaso.
A viver por Samora nos primeiros anos da vida, mas a referência no futebol é o Olivo viguês…
Morei, sim, em Samora até aos 8 anos e depois fui para Redondela (Vigo). Com 14 anos, quando já não podia jogar com rapazes, fui para o Olivo —a referência do futebol em Vigo naquela altura—… e tive a grande sorte de competir 4 anos ali, tencionando sempre subir à primeira. Ganhamos a liga 3 vezes, mas não conseguimos chegar lá.
Em Braga, com 18 anos. E dali a pouco, o Benfica, equipa em criação, que saía da 2ª divisão. Qual chamada a marcou mais? A primeira, para atravessar o Minho ou a segunda, na qual acabou por ir viver para Lisboa?
Na primeira, era muito nova. Não tínhamos conseguido ascender com o Olivo. Nesses 4 anos eu tinha crescido muito, mas o facto de poder ir para Braga era com boas condições. A proposta era fantástica, tudo o que envolvia o projeto fazia com que eu quisesse isso para mim. Porém, na chamada do Benfica eu já estava em Portugal, um bocado habituada. Eles queriam começar desde abaixo, e eu já sabia desses desafios no Olivo. O Benfica podia ter comprado a vaga em 1ª divisão, mas não o fez. Acho que isso foi muito respeitável, e eu adorei, resultou decisivo. Uma história de amor à primeira vista.
Tiveram nesse caminho algum 28-0… queria crescer e ganhar títulos e foi mesmo assim: subida, 15 títulos 5 ligas, 2 taças, 5 taças da liga, 3 supertaças… e até uns quartos de final na Champions League europeia… isto foi também chegar ao “topo”?
Não, esperemos o Benfica crescer tanto que esses quartos possam acabar por ficar pequenos. Foi só mais um patamar na história do clube, mas não queremos ficar por ai.
Estão muito longe Barça, Lyon, Chelsea…?
A verdade é que sim. Nós temos 8 anos de vida, e equipas como o Barça tem muitos mais. Com 8 anos de vida, era a altura em que elas recebiam 8-0 do Wolfsburg, por exemplo. Há distância para percorrer, temos de trabalhar e continuar a competir. Os clubes grandes envolvem muito, mas nós estamos aí para continuar a parecer-nos a eles.
Na Liga Portuguesa, também há muita distância entre os grandes, como vocês, e o resto…
Sim, mesmo no ano passado foi criado o FC Porto F, a competir de início na 3ª divisão. Atualmente na 2ª divisão, mas vão acabar por subir. Aí estarão os grandes clubes na primeira (Sporting, Braga, FC Porto e Benfica). Logo depois há equipas semiprofissionais (Torreense, Racing Power) a realizarem um bom desempenho, mas não têm uma estrutura de clube profissional atrás. Essa é uma diferença muito importante, os clubes pequenos têm um orçamento reduzido. A federação está a dar mais dinheiro para jogadoras, corpos técnicos e a liga em geral, de modo as distâncias se reduzirem e o espetáculo se tornar maior.
Qual o orçamento do Benfica F?
Mmm… vou arriscar. Por volta de 1 milhão, milhão e meio. Está a crescer. Mas repara, o Barça F tinha 12 milhões há pouco. Que diferença! São valores tão diferentes…
Luis Andrade, ex-treinador seu em 2020, dizia que tem figura de capitã, de líder, dentro e fora da relva. Como se sentes a Pauleta nesse papel? Qual o olhar das companheiras a respeito disso?
Isso sai. Gosto de animar, de puxar da equipa. Eu creio em liderar pelo exemplo. Eu estou 100% pela equipa, e se tiver de sacrificar qualquer coisa de mim pelo conjunto, sacrificaria sem nenhuma dúvida. Já o fiz muitas vezes. A minha personalidade, assumindo o bem maior, da equipa, do clube, se calhar faz com que as pessoas olhem para mim como líder. A minha mentalidade vai focada no compromisso totalmente, mas não sou profeta de discursos. Sou mais pela via dos factos, pelo que fiz estes anos todos no Benfica.
Mas no balneário toca dar essas palavrinhas de apoio, pois não?
Quando há que exigir, eu não me escondo. Sé há alguma coisa que eu considerar que não se está a fazer bem, em termos desportivos ou disciplinares, vou dizê-lo. Sempre com todo o respeito, sem magoar ninguém, mas digo aquilo que tem de ser dito.
Muitos não fazemos ideia… como é o dia a dia de uma futebolista profissional?
Começamos com a presença às 8.45 no clube. Recolhemos as roupas e vamos tomar pequeno-almoço todas juntas. Quem tiver fisioterapia, vai. Quem não tiver, realiza sessões de mobilidade. Depois temos reunião e vídeo com o corpo técnico. Ginásio e para o campo, quase 2 horas. Treino e métodos de recuperação: massagem, banho de gelo, bicicleta. Depois, refeição e dependendo do dia, vais para casa ou tens duplo treino. E podes ainda continuar a tratar as doenças de uma maneira pormenorizada com a fisioterapia.
No seu caso, já vão duas lesões graves nos últimos dois anos e meio… e esta época “em branco”.
Sim, lesionei-me em abril de 2023, rompi o cruzado. Joguei novamente só em fevereiro de 2024 e quebrei-o de novo em outubro. Este ano comecei a jogar… 8 ou 9 jogos, até a nova lesão, infelizmente.
E nas portas, a renovação até 2027. Uma aposta do clube a dar confiança…
Sim, é uma boa notícia, a meio de umas lesões tão complicadas, isto gera conforto e segurança. Felizmente estou bem, agora conclui os 9 meses… e vou começar já a apoiar a perna e ter contacto. Cada vez com menos limitações, já me estou a sentir melhor, o joelho está muito mais forte. Melhor assim.
Vamos falar da evolução do futebol feminino. Uma das referentes galegas foi a Vero Boquete. Como lembra aqueles inícios a jogar com rapazes homens até os 15 anos?
Lembro-me bem. Não havia categorias inferiores naqueles equipas. Nem em Vigo nem noutras cidades. No Olivo já joguei com seniores. As referentes do Olivo estavam ali, mas decerto que a Vero Boquete é a melhor jogadora galega da história. Eu conheci-a quando jogava nas categorias inferiores da seleção galega. Visitava-nos. Mas não havia redes e era tudo muito mais difícil para conhecer situações de sucesso feminino.
Longe aqueles comentários de bar… “o futebol feminino não gera dinheiro”, “não tem nada a ver”, “nunca vai estar no nível do masculino” … Agora, finais de Champions com 50 mil adeptos e um grande progresso das ligas nacionais: quais as chaves desse crescimento e desse empoderamento, em um mundo tão masculino?
Muito passa pela mentalidade, por mudá-la. Não quero dizer que as gerações anteriores se conformaram com o que tinham, mas a vida foi evoluindo e as gerações de agora estão a ver que há batalha, há espaço para o desporto feminino. O futebol é um reflexo da sociedade, e quando esta começou a abrir a mão e a deixar atrás esse machismo incrustado e essa hegemonia masculina, viu-se pouco a pouco a luz. Mas houve que picar muita pedra, e o trabalho de todas fez com que as coisas melhoraram. Muito tempo dedicado e muitos esforços.
Tem a sensação de grandes clubes se terem unido à vaga feminista, no sentido de jogar a favor da corrente do momento?
Isto existe no bom senso e também no mau. A maior parte dos clubes que o fizeram viram a oportunidade de criar um projeto, uma obriga moral. O Benfica tem modalidades femininas em todas as suas equipas. Eu acho firmemente que há pessoas no clube que acreditam na existência das mesmas chances para homens e mulheres, para além de “modas”. É uma questão de oferecer a possibilidade, de poder crescer e evoluir… e ver até onde é que se pode chegar. Apostar, dar condições de todo o tipo… e ver. A mulher acaba por dar a resposta requisitada, olha o Barça. As mentes mudam, felizmente. Se acreditares, e tiveres capacidade, podes.
Há umas palavras da Pauleta no jornal Record em 2020… a dizer que os rapazes, a partir dos juniores, julgam que não é preciso evoluir. Porém, as mulheres sabem da importância de continuar a estudar, a formar-se enquanto se joga, porque o que vão ganhar durante a sua carreira não vai dar mais do que para 2 anos… Continua a pensar assim?
Continuo sim, nós não vamos ganhar milhões. A realidade é que há jogadoras que recebem mais, mesmo com direitos de imagem e marcas, mas no geral, é muito difícil ter dinheiro para o dia depois do fim da nossa carreira. Aventuro-me que apenas 3% consegue gerar o suficiente. Quanto aos homens, eles sabem que se conseguirem chegar ao futebol profissional, têm futuro, não precisam dum plano B ou uma segunda via… Isto tem a parte positiva pela parte das mulheres, que vivem na realidade. Nós sabemos que podemos ter uma boa carreira, mas também que isto vai acabar e vamos precisar alguma coisa “extra”, apesar de continuarmos ligadas ao futebol.
É terrível, uma equipa recém chegada à primeira divisão masculina têm maior orçamento do que uma equipa feminina como o SL Benfica, embora sendo esta uma das maiores da Europa. Tanto caminho por fazer…
Quando recebi o primeiro salário no Braga, já reparei nisso: eu recebo bem, disse. E ganho por fazer uma atividade desportiva que adoro. Não gosto de me comparar com ninguém, e sei do negócio que há atrás do futebol masculino: a bolha é gigante. Mas acho que ao futebol feminino não lhe convém entrar isso, apesar de que possa parecer ótima ideia para a economia pessoal. Não vale a pena. Temos outra autenticidade, outro amor pelo jogo, e acho que isso está a ser perdido no futebol masculino. Quanto a mim, sou mais simples. Tenho os pés na terra, falamos de dois mundos incomparáveis.
Pois, ainda bem que agora já há também alguns homens que, cansados das dinâmicas do futebol milionário, querem visionar futebol feminino. Voltando aos estudos, como está a correr a carreira académica ?
Muito bem, sou orgulhosa licenciada em Química. Comecei em Vigo, continuei em Braga e acabei aqui em Lisboa.
Fala português no dia a dia. Como foi a adaptação sendo galega? O galego ajudou nessa nova vida? Quais as barreiras?
O galego ajuda, é evidente, galego e português são muito parecidos. Além disso, o cérebro dos bilingues faz com que estejas pronto para aprender novas línguas ou maneiras de falar. O galego ajuda, abre portas; e a tua cabeça, adapta-se…
Viveu o processo como um salto entre duas línguas diferentes ou simplesmente como aquilo de “vou aportuguesar o meu galego… e basta”?
No início, em Braga, foi com um galego adaptado. Em Lisboa foi tudo diferente, era uma situação não temporária para mim, e quis aprender o padrão. Eu falo à galega e à portuguesa no meu dia a dia. Passar pela faculdade ajudou-me nisto, e a escrever em português…
As pessoas continuam a considerar o seu sotaque “do norte”?
Sim, há muitos que perguntam, e eu digo-lhes que sou do norte, norte; aquilo que está acima do norte. Aprendi muito com a Sílvia Ribeiro, bracarense, com a qual levo muitos anos a jogar. Bebi muito da sua influência nortenha, desse sotaque.
É cansativa explicar sempre a questão galega em Portugal? Como é que está a levar esse assunto?
Eu sempre disse que era galega, sinto-o assim, e se tenho que explicá-lo 5 vezes ao dia, sem problema. Agora já sou mais conhecida e não tenho que explicá-lo tantas vezes. Quando sais da Galiza para o centro de Espanha sinto que estou num local diferente, a tratar com pessoas diferentes. Gosto de sentir-me assim, e explico-o desta maneira. E conheço pessoas portuguesas que vão para a Galiza e percebem a diferença. Orgulho-me.
Há muitos que perguntam, e eu digo-lhes que sou do norte, norte; o que está acima do norte (…) sempre disse que era galega, sinto-o assim, e se tenho que explicá-lo 5 vezes ao dia, sem problema
E a nível interno do balneário… como é a mistura entre portuguesas, brasileiras, uma alemã, alguém das Canárias…?
Português e inglês, o resto é safar-se. Eu fiz de ponte com a canária e uma andaluza no início, mas depois elas acabaram por se adaptar. É claro que com uma nigeriana, as norueguesas, a alemã ou canadense precisas do inglês, mas algumas delas já estão a aprender português. Isto é um ato de humildade e respeito.
Teve tempo de conhecer o país?
Não temos semanas livres, às vezes temos dias de folga e visitas locais. Conheço muitas áreas do país, sobre um 80%… mas há coisas na listagem ainda por ver. Gosto de pegar no carro e ir fazer turismo.
Quais as suas recomendações em Lisboa, numa capital tão cheia de turistas?
Sim, a massificação acaba por apagar certos aspectos da identidade lisboeta… eu gosto muito do Monsanto, o parque da montanha, gosto de ir lá passear. Também a Serra de Sintra, as praias… Ericeira.. Ao centro não vou muito, apenas quando chegam as visitas.
E o futuro? Falava-se do seu processo de nacionalização… vestirá a t-shirt da seleção portuguesa? Acabará por ficar em Lisboa?
O da seleção ainda não sei. O primeiro é recuperar a confiança, voltar a jogar. Quanto ao facto de ficar em Portugal, sinto que isto é minha casa também, estou perto da Galiza e acho que estou muito bem adaptada aqui. O Benfica dá-me as condições.
Se calhar ainda acaba na estrutura do clube, de mãos dadas com o presidente, será?… Qual o desejo da Pauleta no futuro?
Voltar ao campo, continuar a fazer aquilo que eu mais gosto, e continuar a falar da cultura galega em Portugal…
Esta entrevista foi realizada no verão de 2025 no programa Galiportus da rádio municipal de Alhariz e transcrita para o De Norte a Sul pelo autor e condutor do programa

