Distrair a alma

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Não sabemos, por mais que nos empinemos ou despenemos, quando será o momento, no decurso das nossas vidas, em que a maturidade, digamos assim, irá alcançar-nos.

Por vezes é nunca. E eu diria que, se chegar, chegará tarde. Com o passar dos anos. Bastantes, navegados, naufragados. E sempre depois de ter acumulado tanto de experiências, cicatrizes e de bons, regulares e maus momentos, como de livros, projetos gorados e objetos extraviados.

Alguma perda no corpo, na alma ou no coração, um olho por uns corvos sábios, alguma quebra de ossos, feridas nas pernas e mingua de dentes como Tirant, um extravio por uma selva escura, uma viagem pelos roteiros de Orfeu da qual voltemos mudados. Aaai, tanto custa o saber ou algo de iluminação. N’est si sage qui ne foloit como diz o roman de Renart.

Mas que problema de desenho é este, que os adultos humanos – e nem os mais – não somos completamente funcionais até quase quando já nos fica, com sorte, apenas um máximo de vinte anos, antes de começar a nos apagar?

A vida é breve demais. E o tempo foge. Estamos mais do que avisados. Aqueles prados eram jardins, e aqueles montes cidades. Ruínas, torres, portos, urbes, ruínas. Mas os mais ricos e poderosos do mundo, depois de três décadas a usufruírem como loucos da tecnologia capital, continuam com o seu alçar a voz estridente e empoleirado, obsidiados em nos fazerem acreditar que sabem melhor do que ninguém o que há que fazer.

E não chegam mais longe do que os faraós e os grandes mongóis com os seus túmulos repletos perdidos, do que os patrícios romanos decadentes nas suas crises globais, do que os venezianos e bizantinos temerosos, conspiradores e reticentes à espera do final, ou do que os ingleses fechados de cartola, charuto, brandy, relógio e jornal nos seus clubes entre livros e mapas.

Nem em melancolia vão além dos sábios persas, os senhores da China, os ocitanos e galegos das cantigas, os aristocratas espanhóis do século de ouro, os fidalgos portugueses das navegações, os decadentistas da França. Nem se achegam, como colecionadores, dos J.P. Morgan, Carnegie, Rockefeller ou Getty.

De nada serve o discurso do sucesso, do esforço individual celebrado; de nada as grandes abóbadas de tesouros, as mansões, o poder para destruir o mundo a capricho, porque afinal, ricos ou pobres, não imos poder levar nada no dia da derradeira viagem. O que acumulam os poderosos, se tal, há de se converter em museus, há de se repartir, esparegir. Passará o vento e levantará pó.

Daquela, o que importa é o que deixemos aos demais, a obra participada, os projetos compartilhados, não o que acumulemos. Revejo, por confirmar, numa tarde perdida aquele filme do Capra: “You Can’t Take It with You” (1938) uma screwball romântica Hays-code com a Jean Arthur, Lionel Barrymore, James Stewart, Spring Dell Byington e Edward Arnold fazendo de capitalista despiedado que quer botar a gente de um bairro inteiro para especular com a construção e a vivenda.

O que podemos oferecer os que não ajustamos sucesso, promoção e produção a direito? Apenas uma impressão leve do que observamos, um querer cavalgar melancólicos o vento, uma sensação transmitida em prosa ou verso do que sentimos, uma crítica humorística da loucura deste tempo insano, uma finta engraçada, ligeira e filosófica, que nos faça desfrutar, uma tranquilidade a transmitir.

Nem sendo Li-Bai. Mas, abrir a biblioteca, contar na caravana, colocar posto na feira retirando do porão do navio os tesouros repletos e maravilhas acumuladas. A narrativa do muito e longe que temos caminhado, explorado, navegado. A vista do que temos enxergado nas paisagens. O que temos medido e observado. A anedota das interações com as gentes. Umas pedrinhas cá, uns belos objetos lá, um móvel lindo, uma obra da arte popular, algum livro refletido. O prazer dos sabores e cheiros que invadiram a boca e o nariz num instante que se repete na memória.

É talvez o chá verde na sacada da casa, serão – seique – as procuras de uma citação sobre ruínas e vinho, sobre a viagem e a passagem do tempo, em livros diversos, em que procuro e petisco, sentindo de novo ideias adormecidas. É mais difícil escrever sobre a beleza do mundo do que sobre as suas tristuras.

Afinal, é o caminho, a nota breve: na margem, na guarda dum livro, uma risca num papel qualquer, ou num caderno que esquecerei por anos. É o abandono sensorial, mundano do Outono. Inventos, enfim, que, diria Álvaro Cunqueiro, apenas servem:

“para distrair a alma das suas contas,
tanto de amor e bágoas, dez por cento
de perdidos amores, e oitenta de soedade”.

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