João Mascarenhas leva 40 anos a elaborar Banda Desenhada, sobretudo a relacionada com as suas atividades científicas e técnicas. Engenheiro e investigador, adora divulgar e tornar simples a ciência mais difícil de perceber para o público em geral. Fala-nos de Lisboa1 com otimismo de uma arte vinculada ao papel e à criatividade, nos tempos do digital e da IA.
Como começa a Banda Desenhada (BD) a fazer parte importante da sua vida?
Realmente há sempre um momento para alinhar. No meu caso foi o meu pai que, quando eu era miúdo, me comprava clássicos: Tintim, Astérix… foi aí que eu comecei a gostar imenso. Entretanto, a minha profissão derivou para as investigações científicas, sou engenheiro. Em 1997, quando eu acabei o meu doutoramento, comecei com alguma obra. No início, com a minha personagem mais conhecida em Portugal, que é o “Menino triste”, que acaba por ser o meu alter ego. Durante muitos anos fiz apenas isso, mas tenho feito muitas outras coisas.
Enquanto cientista, também realizo BD para os projetos em que faço parte. E trago os projetos da ciència para a BD. Por exemplo, o próximo livro tem a ver com o ADN: um amigo meu, biólogo, vai extrair o ADN dos meus cabelos que vão acabar no álcool e na tinta dos meus autógrafos (ri). Portanto, já é desde o século passado que eu ando em projetos de BD.
Qual o momento em que soube que a BD iria formar parte de si para sempre? Foi com o Menino Triste?
Penso que sim. Eu utilizo-o como base das minhas memórias e, a partir daí, faço pequenas ficções e histórias. Neste sentido, os primeiros trabalhos têm a ver com as primeiras memórias em França, os primeiros livros que eu li. Outros falam da minha postura perante a arte e houve algum deles que conta a primeira visita a Londres, em 1976, onde eu quase toquei com uma banda “punk”. São essas pequenas histórias que vou colocando.
Momento muito complexo o atual. Com a digitalização, cada vez se lê menos. E as artes, menos consideradas, em geral. Como é que está a BD, também em Portugal?
Apesar das contrariedades do mundo, eu acho que a BD é cada vez mais considerada pelas pessoas como uma arte tão grande como as demais. Isso faz com que se comece a olhar para a BD com outra atitude.
Hoje mesmo tive um contacto de umas pessoas da rádio nacional em Portugal que vão participar num festival de literatura e convidaram-me para ir como representante da BD. Em certa forma, a BD está a ser colocada noutro patamar. Está-se a ver que já não são aqueles bonecos para crianças apenas, contam-se histórias tão boas como nos livros “normais”. No caso português, contrariamente ao que existe noutros países, onde há propriamente BD japonesa, franco-belga ou americana, não podemos dizer que exista BD portuguesa. Antes pelo contrário, falamos de BD feita por portugueses. Por quê? Não há esse cunho, mas isto também nos torna mais ricos a esse nível, porque podemos chegar a muitos públicos. Porém, a questão é, aqui e no mundo, como conseguimos mais leitores para a BD, sobretudo jovens, porque os mais velhos já estamos agarrados. Há uns dias estive em Vigo, no Camões. Lá havia muitos escolares a ouvir falar da BD, esse primeiro contacto é decisivo.
… e certamente educativo….
Mas, olha, cá em Portugal não se consegue viver só da BD. Se calhar, só podem os que trabalham para o mercado de fora, para os EUA. Agora, eu cada livro que faço até perco dinheiro (ri)… Mas é um prazer.
Do ponto de vista da lusofonia temos o Brasil, com mais de 215 milhões de falantes. Um mercado enorme, e um país com muita produção na arte, na música, também na BD. Como focar essa influência, do Brasil para Portugal, neste âmbito?
As primeiras revistas que eu comecei a ler vinham do Brasil. Eu nasci em Angola e ainda hoje tenho muita ligação com o festival de Luanda (Luanda cartoon), tenho batalhado para trazer autores africanos a Portugal e vice-versa. No que faz a questão do Brasil, eu estive há pouco tempo em Belo Horizonte, em um evento. Apesar do potencial dos números, o mercado da BD não é tão grande como possa parecer à partida. Há exceções, como o Maurício de Sousa (“A turma da Mónica”).. enfim, no Brasil temos a mesma língua, mas temos pequenas diferenças que tornam as coisas assim pouco simples.
Eles têm que “traduzir” para o português do Brasil. Por exemplo, estando eu em Belo Horizonte, chegou-se uma rapariga…
… para o caso temos de traduzir até esse termo… (rimos)
… sim, sim, uma rapariga (ou moça) falou-me e eu respondi-lhe…e ela disse-me “oh, sorry, you don’t understand me”. Eu fiquei impressionado, mas voltei a falar e aí ela já se apercebeu. O meu sotaque… e o facto de ela não estar habituada…
O Brasil, um mundo em si próprio. Muitas vezes não olha para fora. Acontece o mesmo entre a Galiza e Portugal, com tudo o que partilhamos, e com o difícil que é. Estamos sempre assim, a entrar e sair…
Há eventos, há esperança. No norte, na Maia, foi reativado há uns anos um pequeno festival. E assim por mais locais de todo o país: Coimbra, Lourinhã, Beja, Amadora. Cada vez mais a BD está a ser divulgada.
Por que é tão difícil, então, essa conexão, e produções galegas chegarem a Portugal e portuguesas à Galiza?
É verdade. Nós temos cá o Miguel Anxo Prado, ou o Xaquin que esteve no festival da Amadora… estamos muito abertos aos autores galegos. O contrário, eu penso que o problema seja nosso. Se calhar um autor português vai antes a Sevilha ou a Barcelona, do que a Santiago ou a Vigo. Não olhamos para cima, apesar da nossa muito maior proximidade com a Galiza. Temos muito por construir: o importante são os contactos, estar no sítio certo e encontrarmos as pessoas corretas. De resto, existe muito trabalho que pode ser interessante. Por exemplo, o da Iria Aldegunde e o Manel Cráneo. Eu vi-o na Internet e quis ter mesmo aqueles livros. Portanto, é questão de alguém se interessar e ser o impulsionador. Mas, quanto ao nosso relacionamento, acho que a culpa vem mais do sul.
Como vê o futuro dos seus projetos?
Dos meus desenhos, já há muitos anos que não desenho o Menino triste. Está o livro do Adriano Correia de Oliveira, que saiu em 2022; em 2024 saiu o livro “A norte de sul nenhum”, que tem a ver com um refugiado árabe que vem viver para o sul de Portugal. Neste ano de 2025 sai um livro completamente diferente, de ficção científica, e tenho mais três que estou a preparar: um baseado na Primeira Grande Guerra, com duas crianças soldado, uma francesa e outra alemã.
Assim sendo, do ponto de vista pessoal tenho bastante trabalho, e bastantes ideias. Falta apenas o tempo (ri) E depois está a minha ligação à África. Após a ida ao festival de Luanda em 2010 nós criamos um fanzine que não é regular mas que, quando sair, conseguimos reunir autores do Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde… quero através dessa ligação continuar a promover a BD de língua portuguesa. Quem sabe se há autores galegos que possam participar neste nosso fanzine BDLP. Estamos abertos…
… às conexões…
Repara, aí está o livro do Adriano Correia de Oliveira, que já vai na terceira edição. Há uma ligação dele, e o seu “cantar da emigração” (música original da versão de Fuxan os Ventos), com a figura da Rosalia, uma poeta muito querida por vocês. Só pelo facto de o livro ser sobre esse cantor, faz com que muitas pessoas o tenham comprado. Daí o êxito e a hipótese de chegarmos a mais públicos.
O João é também um investigador científico na área dos materiais e da energia….
Neste momento estou a participar num projeto europeu sobre energia, e realizamos uma BD com o objetivo de divulgarmos a ciência para o grande público. Digamos assim, desmontamos a ciência e descomplicamo-la para as pessoas.
Porque é que devemos recomendar a BD para alguém que nunca teve contacto com ela?
Porque a BD é realmente uma arte grandíssima. As pessoas, ao se aproximarem da BD, ao lerem banda desenhada, vão ficar mais engrandecidas, de sorriso nos lábios. Intelectualidade e parte artística tudo junto.
- Entrevista realizada em 2025 no podcast Galiportus da rádio municipal de Alhariz com motivo de uns especiais sobre Banda Desenhada galaico-portuguesa. Dois programas realizados junto ao desenhador, professor e ativista Xico Paradelo. Além de João Mascarenhas, participaram Kiko da Silva, ilustrador galego e diretor da primeira academia galega de BD (“o garaxe hermético”) e Iria Aldegunde, ilustradora fornada nessa academia. ↩︎




