«E tu, ainda estás por cá?»
Há perguntas que trazem uma classificação dentro. O «ainda» faz quase todo o trabalho: sugere que a pessoa se demorou, que haverá de perceber, mais cedo ou mais tarde, que está na altura de ir. Pode ter emprego, projetos, uma vida de que gosta. Mas está por cá. Ainda.
A quem partiu perguntamos como corre a vida. A quem ficou pedimos, muitas vezes sem dar por isso, uma explicação.
Conheço bem o orgulho com que se fala dos filhos da terra que fizeram carreira longe. É um orgulho justo. O que me inquieta é a dificuldade em reconhecer a mesma ambição a quem mora a poucos quilómetros da casa onde nasceu. Como se o talento precisasse de uma morada distante para ser levado a sério.
Talvez tenhamos aprendido isto com quem teve de partir. Durante gerações, sair foi a possibilidade de ganhar um salário, estudar, escapar a uma vida demasiado estreita. Muitas famílias sabem quanto custou essa possibilidade. Houve gente que atravessou fronteiras para que os filhos pudessem escolher.
Seria uma estranha herança continuarmos a achar que a escolha certa é sempre ir embora.
Há jovens que querem sair. Querem conhecer outras cidades, trabalhar noutros países, experimentar uma vida onde ninguém os conheça desde pequenos. Têm esse direito, sem terem de justificar a partida com uma promessa de regresso. A terra onde nascemos não nos passa uma dívida para pagar em presença.
Mas também há quem queira ficar. E merece ser ouvido com igual seriedade.
Às vezes, falamos destas pessoas como se tivessem escolhido uma vida menor. A proximidade da família torna-se falta de independência; o gosto pelo lugar parece falta de mundo; a vontade de trabalhar ali é recebida com a prudência reservada às ideias pouco promissoras. Depois fazemos encontros para discutir como fixar jovens.
Talvez fosse útil começar por deixar de os diminuir quando ficam.
Também precisamos de ser honestos sobre aquilo que lhes oferecemos. Uma paisagem bonita não resolve o fim do mês. Uma casa de família pode não estar habitável, pode ter vários herdeiros, pode ficar longe do emprego. Ter os avós perto ajuda muito, mas não substitui uma creche. E trabalhar no sítio onde se quer viver perde parte do encanto quando se ganha tão pouco que é impossível sair da casa dos pais.
A conversa sobre o interior precisa de chegar a estas contas. Ao salário que se paga, à renda que se pede, ao horário dos transportes, às condições de um contrato. É aí que uma intenção passa a ser uma escolha possível.
Há ainda uma condição de que falamos menos: a liberdade.
Nos lugares pequenos, conhecerem-nos pode ser um conforto enorme. Há quem perceba que estamos mal antes de abrirmos a boca. Há quem apareça quando é preciso. Sei o valor disso.
Sei também o peso de uma vida demasiado comentada. O emprego que se conseguiu, a pessoa com quem se vive, o casamento que acabou, a roupa, o carro, a hora de chegar a casa. Há quem saia para conseguir existir sem dar tantas explicações. Esta partida também merece entrar na conversa sobre o despovoamento.
Quem quer atrair jovens tem de aceitar que eles tragam maneiras diferentes de viver. Que discordem. Que abram negócios que ninguém imaginou. Que ocupem lugares de decisão. Que façam mudanças sem terem de pedir licença a todas as pessoas que os viram crescer.
Ficar exige espaço para crescer. Caso contrário, pedimos-lhes que permaneçam jovens numa terra onde os adultos continuam a ser os mesmos.
Não sei se quem parte é mais corajoso do que quem fica. Depende da vida, das circunstâncias, do que cada um enfrenta. Parece-me pouco útil distribuir mérito pela distância percorrida.
Gostava, isso sim, que aprendêssemos a perguntar a quem ficou pelo trabalho que está a fazer, pelo que quer construir, pelo que lhe falta para avançar. Com a curiosidade que reservamos a quem chega de longe.
E que, um dia, uma pessoa pudesse responder «sim, estou por cá» sem sentir necessidade de acrescentar uma desculpa.
Fotografia: CM de Montalegre (adaptada)




