Comemorar os 900 anos de Portugal é comemorar o multiculturalismo. Eu sei que a frase provocará azia nos patriotas que imaginam a nacionalidade como uma receita guardada em segredo desde D. Afonso Henriques: um rei, uma espada, um bacalhau e, ao fundo, alguém a cantar o hino com a mão no peito. De preferência sem estrangeiros à vista, excepto se estiverem a servir à mesa.
Aliás, a azia começou antes de eu escrever a frase. Bastou o Presidente da República nomear Ana Bárbara Pedrosa para as comemorações e logo se ergueram os inspectores da portugalidade, munidos de lupa, bandeira e uma vaga recordação das aulas de História. Aparentemente, uma mulher, escritora e de esquerda não reúne condições para pensar Portugal. Para certos patriotas, celebrar nove séculos de História exige diversidade. Desde que todos sejam homens, conservadores e pensem rigorosamente o mesmo.
O problema é que Portugal nunca foi uma coisa só.
Antes de sermos portugueses, já por este território tinham passado, ficado, combatido, amado e deixado descendência romanos, suevos, visigodos, judeus, cristãos, muçulmanos, árabes e berberes. Quando Portugal começou a desenhar-se como reino, a mistura já ia adiantada. Não havia portugueses puros à espera de serem oficialmente inaugurados por D. Afonso Henriques.
A nacionalidade não nasceu pura. Nasceu misturada, o que é sempre embaraçoso para quem trata uma árvore genealógica como se fosse um certificado sanitário.
Até a língua portuguesa, tantas vezes empunhada como prova de autenticidade nacional, é uma monumental misturada. Tem raízes latinas, palavras árabes e influências africanas, brasileiras e asiáticas.
Dizemos azeite, alfândega, alface e algarismo sem que ninguém proponha a sua deportação. Comemos chamuças, bebemos café e temperamos a comida com especiarias trazidas de longe, mantendo, apesar disso, a valentia de desconfiar do restaurante do lado porque o dono nasceu no Bangladesh. É uma coerência muito nossa. A canela pode entrar. O homem que a vende é que levanta dúvidas.
Durante séculos, Portugal saiu pelo mundo. Quase nunca da forma bucólica que aprendemos nos manuais escolares, com marinheiros corajosos a distribuírem civilização, fé e bons modos por populações que, aparentemente, passavam os dias sentadas à espera de ser descobertas.
Houve viagens, encontros e trocas. Houve também conquista, escravatura, violência, pilhagem e exploração. O multiculturalismo português não nasceu apenas do abraço entre povos. Nasceu igualmente da dominação, do conflito e da resistência. Reconhecê-lo não é ter vergonha da História. É, precisamente, conhecê-la. Vergonha é precisar de lhe apagar metade para conseguir senti-la como motivo de orgulho.
Celebrar a diversidade portuguesa não significa, portanto, transformar o império numa excursão marítima com caravelas de esferovite e crianças vestidas de navegador. Significa contar a história toda, incluindo a parte que incomoda os discursos oficiais e costuma ficar fora da fotografia junto ao Padrão dos Descobrimentos.
Também expulsámos judeus e muçulmanos, perseguimos diferenças, impusemos uma religião à bruta, escravizámos seres humanos e passámos séculos a explicar que uns eram naturalmente mais humanos do que outros. A diversidade nunca nos impediu de praticar a intolerância. Pelo contrário: durante muito tempo, dedicámos um esforço considerável a eliminar precisamente aquilo que agora apresentamos aos turistas como património multicultural.
Talvez por isso seja tão comovente ouvir falar de uma suposta pureza portuguesa. Não se sabe exactamente quando terá existido. Talvez durante uma quarta-feira à tarde, no século XII, entre a partida de um povo e a chegada do seguinte. Ou apenas na cabeça de quem acredita que os portugueses descendem directamente de Viriato, com uma breve escala em Ourique e uma residência secundária nos Jerónimos.
Portugal fez-se também com aqueles que partiram. Durante décadas, milhões de portugueses emigraram, muitos clandestinamente, de mala de cartão na mão e medo da polícia na fronteira. Foram recebidos com a mesma desconfiança que hoje alguns reservam a quem chega cá. Diziam que roubavam empregos, baixavam salários, não falavam a língua, viviam amontoados e se fechavam nas suas comunidades.
Felizmente, nada disso nos deixou qualquer ensinamento. A memória nacional é muito selectiva: recorda com extraordinária nitidez uma batalha do século XII, mas esquece o avô que atravessou a fronteira a salto.
E Portugal continua a fazer-se com quem chega. Com brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses, indianos, nepaleses, bengalis, chineses, ucranianos e tantos outros. Pessoas que trabalham, estudam, cuidam dos nossos idosos, tratam dos nossos doentes, fazem investigação, criam empresas, música, literatura e filhos.
São indispensáveis à economia, dizem-nos. Já à identidade nacional convém não abusar. Podem construir casas, servir refeições, entregar encomendas, limpar hotéis e pagar contribuições. Ser portugueses é que talvez seja pedir demasiado. Convém esperar algumas gerações e, mesmo depois disso, perguntar-lhes de onde são “verdadeiramente”.
Há portugueses que conseguem aceitar que alguém nasça na Amadora, cresça na Amadora e viva na Amadora, mas continuam convencidos de que, tendo pele negra, deve existir uma origem mais verdadeira escondida algures. A geografia termina onde começa a melanina.
Comemorar nove séculos de Portugal devia servir para contar esta história inteira. Não apenas a dos reis, das batalhas e das fronteiras, mas a das pessoas que, vindas de muitos lugares, construíram o país. As que chegaram livremente e as que foram trazidas à força. As que foram acolhidas e as que foram perseguidas. As que ficaram, as que partiram e as que regressaram diferentes.
O multiculturalismo não é uma moda importada por sociólogos desocupados para irritar comentadores televisivos. É a biografia de Portugal. O resto é uma versão higienizada da História, própria para discursos oficiais, caixas de cereais e congressos de extrema-direita.
Podemos celebrar os 900 anos fechados numa fantasia de pureza, fingindo que a identidade nacional foi conservada em formol desde o século XII. Ou podemos celebrar aquilo que realmente somos: uma construção antiga, contraditória, feita de encontros, partidas, violências, afectos, palavras e memórias vindas de muitos lados.
Portugal tem 900 anos. E, apesar da frase de Salazar, nunca esteve “orgulhosamente só”. A bem dizer, nunca esteve sequer só. Orgulhoso é que, por vezes, esteve em excesso.
Fotografia: Sérgio Aires



