Há uma frase que se repete todos os dias nas redes sociais: “As redes sociais estão cada vez piores.” Curiosamente, quase nunca é dita fora delas.
É publicada no Facebook, no Instagram, no X ou no TikTok, acompanhada por uma fotografia, um vídeo ou um texto suficientemente apelativo para recolher umas dezenas, ou centenas, de gostos. Critica-se o algoritmo esperando, naturalmente, que o algoritmo tenha a gentileza de mostrar essa crítica ao maior número possível de pessoas. É um dos grandes paradoxos do nosso tempo.
As redes sociais passaram a desempenhar o papel que antigamente cabia ao café da esquina: um lugar onde toda a gente dizia mal do café, mas onde toda a gente voltava no dia seguinte. A diferença é que o café da esquina obrigava-nos, pelo menos, a olhar para alguém enquanto falávamos.
Há quem culpe os algoritmos. Outros culpam a polarização, os influenciadores, a publicidade, a desinformação, os comentários anónimos, os discursos de ódio. Tudo isso existe. Tudo isso merece crítica. Mas talvez a questão mais incómoda seja outra.
As redes sociais são, antes de mais, um espelho. Um espelho deformado, evidentemente, mas ainda assim um espelho. E gostamos de acreditar que aquilo que nos incomoda nele pertence sempre aos outros.
A superficialidade é dos outros. A agressividade é dos outros. A necessidade de aprovação é dos outros. A vaidade é dos outros. Os outros exibem-se. Os outros insultam. Os outros espalham notícias falsas. Os outros não sabem discutir. Nós, por uma extraordinária coincidência estatística, estamos sempre do lado certo da coisa. Mas este mecanismo não nasceu com as redes sociais.
Durante muitos anos de trabalho sobre pobreza ouvi inúmeras vezes pessoas em situação de pobreza explicarem-me, com absoluta convicção, que elas, sim, mereciam os apoios sociais que recebiam. Tinham razões. Tinham dificuldades. Tinham histórias que justificavam cada euro.
Os outros? Os outros eram preguiçosos. Mandriões. Oportunistas. Gente que não queria trabalhar e vivia à custa do Estado. A pobreza desconfiava da pobreza.
Talvez porque reconhecer no outro a mesma fragilidade obrigasse a admitir que aquilo que nos aconteceu não resulta apenas das nossas virtudes ou dos nossos defeitos. E porque, mesmo entre aqueles que estão em baixo, funciona esta extraordinária necessidade humana de encontrar alguém um bocadinho mais abaixo.
É exactamente o mesmo raciocínio que encontramos nas redes sociais. Eu utilizo-as bem; os outros é que as estragaram. Eu informo; os outros espalham desinformação. Eu debato; os outros insultam. Eu partilho; os outros exibem-se. Eu tenho convicções; os outros são fanáticos. Eu mereço o subsídio; o vizinho é um parasita.
Vivemos, de certa maneira, na era da inocência universal. Cada um de nós é protagonista da própria biografia e figurante na consciência dos outros. Quando alguma coisa corre mal, há sempre candidatos disponíveis para a culpa: o algoritmo, o Estado, os políticos, a comunicação social, os imigrantes, os pobres, os ricos, os jovens, os velhos, a geração Z, os boomers. Raramente o homem ou a mulher que vemos ao espelho.
Sartre escreveu que “o inferno são os outros”. Nós actualizámos a frase para uma versão talvez mais adequada ao século XXI: o inferno são os outros e, por uma feliz coincidência, eu sou sempre a excepção.
Há ainda outra ironia, talvez mais triste: nunca estivemos tão ligados e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos produzido tanta solidão.
Temos centenas ou milhares de “amigos”, seguidores e contactos. Sabemos onde alguém jantou ontem, onde passou férias, que música está a ouvir, o que pensa da guerra, do Governo, dos gatos, da inteligência artificial e da última polémica nacional. Recebemos fotografias de aniversários onde não estivemos e vemos vídeos de concertos aos quais ninguém parece ter assistido porque estava toda a gente ocupada a filmá-los.
Sabemos cada vez mais coisas sobre cada vez mais pessoas. Mas não significa necessariamente que conheçamos alguém.
E aqui as redes sociais são simultaneamente causa e consequência. Procuramo-las porque estamos sozinhos e ficamos nelas porque nos dão uma espécie de companhia portátil. Uma companhia que cabe no bolso, não exige marcação e está disponível às três da manhã. Mas é uma companhia peculiar.
Podemos passar horas rodeados de pessoas sem estar verdadeiramente com ninguém. Podemos receber cinquenta gostos numa fotografia e não ter a quem telefonar quando alguma coisa corre mal. Podemos conversar diariamente com dezenas de pessoas e passar uma semana sem nos sentarmos à mesa com uma delas. E esta atomização não é politicamente neutra.
Uma sociedade de pessoas cada vez mais sozinhas é também uma sociedade onde se tornam mais frágeis os lugares onde aprendíamos a conviver com quem não pensava exactamente como nós: associações, sindicatos, colectividades, partidos, cafés, bairros, movimentos, até as conversas demoradas à mesa.
Não eram lugares perfeitos. Longe disso. Mas obrigavam-nos a uma coisa hoje quase revolucionária: suportar os outros. O algoritmo não precisa disso.
Pelo contrário, aprendeu que a indignação prende mais tempo a nossa atenção do que a dúvida e que um inimigo é, muitas vezes, mais eficaz do que um argumento. Pouco a pouco, deixamos de encontrar pessoas e passamos a encontrar categorias. Esquerda e direita. Portugueses e imigrantes. Pobres que merecem e pobres que abusam. Homens e mulheres. Novos e velhos. Nós e eles. Sobretudo nós e eles. Isto também não é novo.
A História está cheia de momentos em que o medo, a insegurança económica, a solidão social e a desconfiança foram transformados em ressentimento político. E está igualmente cheia de gente disponível para explicar a populações assustadas que os seus problemas tinham uma causa muito simples: os outros.
Os outros tinham outra religião. Outra origem. Outra língua. Outra classe social. Outra ideologia. Eram estrangeiros, pobres, ricos, minorias, intelectuais, desempregados, sindicalistas, refugiados ou simplesmente vizinhos suficientemente diferentes para servirem de ameaça.
Mudam os nomes. O mecanismo envelheceu bastante bem. A novidade talvez seja a velocidade.
Antes eram necessários comícios, jornais, panfletos, cartazes, discursos e organizações inteiras para fabricar um inimigo. Hoje transportamos no bolso uma máquina que pode fazê-lo continuamente, personalizada para cada um de nós e extraordinariamente bem informada sobre aquilo que nos assusta, irrita ou indigna. E fazemos grande parte do trabalho gratuitamente.
Partilhamos. Comentamos. Insultamos. Bloqueamos. Escolhemos o nosso campo. Recebemos aplausos dos que já concordavam connosco e regressamos no dia seguinte um pouco mais convencidos de que do outro lado não existem pessoas: existe um problema.
É assim que uma sociedade se pode tornar simultaneamente hiperligada e profundamente fragmentada. E talvez seja também por isso que não abandonamos as redes sociais apesar de passarmos a vida a dizer mal delas.
Porque sair significaria perder aquilo que criticamos, mas também aquilo que, de alguma maneira, nos faz companhia. E talvez ainda outra coisa: aquele pequeno território onde podemos ter permanentemente razão.
Criticamos o Facebook no Facebook. Queixamo-nos do Instagram no Instagram. Anunciamos que estamos cansados das redes sociais e ficamos depois discretamente à espera para ver quantas pessoas gostaram da publicação onde anunciámos que estamos cansados das redes sociais. E amanhã voltamos. Tal como ao velho café da esquina.
Só que entretanto o café fechou, a associação tem meia dúzia de sócios, o sindicato deixou de fazer parte da nossa vida, já quase não conhecemos os vizinhos e cada um ficou em sua casa.
Estamos todos sentados, sozinhos, diante de um ecrã, rodeados de milhares de pessoas que pensam exactamente como nós, a explicar uns aos outros que o problema do mundo são os outros.
E, naturalmente, à espera de um gosto.
Fotografia: Sérgio Aires





