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A declaração oficial da Ilha de São Simão como Lugar de Memória Democrática pelo governo da Espanha coroa mais de vinte anos de perseverança de académicos, associações memorialistas, movimentos sociais e organizações políticas. A medida estabelece um plano integral de proteção para garantir que o seu legado permaneça acessível às futuras gerações
Entre as principais diretrizes destacam-se a garantia de perdurabilidade e a sinalização do espaço para evitar a remoção de vestígios ligados à luta pela democracia. O acordo prevê também a criação de recursos audiovisuais e painéis interpretativos, bem como a integração do local em circuitos internacionais dedicados à recuperação da memória histórica.
Durante o governo galego bipartido, entre 2005 e 2009, a ilha recebeu um forte impulso através do projeto «Ilha da Memória», que promoveu homenagens para dignificar os prisioneiros republicanos. Com a mudança de rumo política a partir de 2009, o foco inicial foi relegado, o que levou os movimentos sociais a intensificarem as exigências de proteção.
Em 2017, a Iniciativa Galega pela Memória recolheu assinaturas para reconhecer o passado repressivo do enclave. Em junho de 2024, o Bloco Nacionalista Galego registou uma iniciativa nas Cortes do Estado. No final desse ano, a mesma plataforma cívica confirmou o início dos trâmites para a declaração, um pedido também endossado pelo Concelho de Redondela. Já em janeiro de 2025, o BNG instou o governo galego a apoiar esta catalogação.
Uma ilha carregada de história, de espaço poético a centro de extermínio
Situada no coração da Ria de Vigo, a Ilha de São Simão ergue-se como um dos santuários emblemáticos da lírica medieval galego-portuguesa, eternizada pela vozes dos trovadores do século XIII. Foi na sua antiga ermida que o jogral Meendinho situou a célebre cantiga de amigo «Sedia-m’eu na ermida de San Simion», na qual a figura feminina espera pelo seu amado enquanto é cercada pelas ondas do mar, .
Após a rebelião franquista a ilha de São Simão abrigou um dos recintos penitenciários mais cruentos da Guerra Civil e da ditadura franquista. Antigo lazareto, o espaço transformou-se numa colónia penitenciária e campo de concentração a funcionar entre outubro de 1936 e março de 1943. Durante esse período, o penal acolheu mais de 5600 presos ao longo de três fases distintas.
A primeira, entre o outono de 1936 e o verão de 1937, foi marcada por excarcerações, julgamentos sumaríssimos, execuções e assassinatos extrajudiciais. A segunda etapa, estendendo-se até ao início de 1939, registou o pico de população prisional devido à afluência de reclusos asturianos e bascos, estes últimos confinados numa prisão flutuante. A terceira fase, decorrida entre 1939 e 1943, coincidiu com a chegada massiva de presos idosos, somando mais de 1500 condenados a longas penas em 1942. As péssimas condições de vida, a superlotação e a fome dizimaram uma comunidade reclusa maioritariamente com mais de sessenta anos, contabilizando-se mais de 517 mortes – ditas por causas naturais – para além das execuções sumárias.
Outros espaços de memória reconvertidos em símbolos de resistência e democracia

Com a obtenção do estatuto de Lugar de Memória Democrática, a ilha de São Simão junta-se a outros locais marcados pela violência repressiva das ditaduras ibéricas. Com o fim dos regimes, estes espaços foram reconvertidos em locais dedicados à preservação da memória da resistência, da liberdade e dos direitos humanos tanto na Galiza e em Portugal como em Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
É o caso do Cárcere de Lugo que se transformou, a partir de julho de 1936, num centro de repressão por onde passaram milhares de republicanos, sindicalistas e opositores, enfrentando superlotação, execuções e julgamentos sumários e mantendo-se como estabelecimento prisional até 1975. O imóvel foi reabilitado entre 2012 e 2017 graças à ação conjunta da Câmara Municipal e de movimentos sociais e memorialistas. Na atualidade, o Velho Cárcere funciona como centro cultural e de divulgação da memória histórica, acolhendo exposições permanentes dedicadas ao passado do edifício, aos direitos humanos e à resistência antifranquista.

A partir 1928 e até 1965, o lisboeta Cárcere do Aljube, foi transformado em prisão política da PIDE/PVDE. Servia para deter, interrogar e torturar opositores, sendo a primeira paragem dos presos antes de julgamentos, exílios ou campos de concentração. O Aljube foi encerrado como prisão em 1965, na sequência de fortes pressões públicas, fugas célebres e protestos contra as condições desumanas. O edifício foi reabilitado e inaugurado a 25 de abril de 2015 como museu Museu do Aljube – Resistência e Liberdade dedicado à memória da resistência, à liberdade e aos direitos humanos.

Pelo seu isolamento, o Forte de Peniche foi a principal prisão de segurança máxima do Estado Novo entre 1934 e 1974, albergando opositores de alto perfil e líderes da resistência. Com a Revolução de 1974, a fortaleza foi conquistada pela população e os últimos reclusos foram libertados. Após a reabilitação, reabriu a 25 de abril de 2024 como o Museu Nacional Resistência e Liberdade, dedicado a preservar a memória histórica e os valores democráticos.
Sob a alçada de Portugal, o Campo de Concentração do Tarrafal funcionou em dois períodos em Cabo Verde. O primeiro (1936–1954/1956), ficou conhecido como o “campo da morte lenta” devido às condições desumanas que vitimaram opositores políticos e nacionalistas africanos. O segundo (1961–1974), reaberto como Campo de Trabalho de Chão Bom, destinou-se a deter combatentes dos movimentos de libertação. O campo foi encerrado após a Revolução dos Cravos e hoje alberga o Museu da Resistência e é um importante sítio de memória histórica.

As antigas roças de São Tomé e Príncipe, que funcionaram como unidades agroindustriais de cativeiro e repressão social durante o período colonial, foram inscritas na Lista do Património Mundial da UNESCO. Este estatuto de Paisagem Cultural Viva reconhece formalmente o complexo sistema agroindustrial e o profundo sofrimento histórico associado ao trabalho forçado. Além disso, as roças Agostinho Neto, Rio do Ouro e a Monte Café funcionam como museus a céu aberto, integrando núcleos dedicados à memória do trabalho forçado.
Em 2012, no edifício da antiga esquadra-prisão colonial no centro histórico de Bissau, abriu as suas portas a Casa dos Direitos. É um espaço e um consórcio de organizações sociais dedicado à promoção, proteção e defesa dos direitos humanos.

Fotografias: Câmara de Redondela, Casa dos Museu do Aljube, Redes Sociais
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