Cantavam no país da Canarinha, os pentacampeões brasileiros: A Copa do Mundo é nossa… e com o Brasil não há quem possa… Não se enganem. Num mundo cheio de injustiças e contradições, o Mundial é da FIFA, perfeita aliada de uns Estados Unidos “trumpizados” até níveis inacreditáveis.
Quando a bola começar a rolar neste mês de junho de 2026, a FIFA apresentará ao mundo o maior torneio de futebol da história. Pela primeira vez haverá 48 seleções, 104 jogos distribuídos por Estados Unidos, Canadá e México (que também contam e organizam, mas não fazem barulho), numa competição que durará mais tempo do que qualquer outra edição anterior. À primeira vista, trata-se de uma expansão democrática: mais países, mais povos representados, mais sonhos possíveis. Mais futebol, esse desporto que representa a “coisa mais importante” dentro das “coisas menos importantes”. Mas será mesmo assim?
A pergunta impõe-se porque, por trás da narrativa oficial da inclusão, emerge outra realidade. O mundial de 2026 parece simbolizar como nunca a transformação do futebol num produto global, desenhado para maximizar audiências, receitas televisivas e lucros comerciais. A FIFA espera bater todos os recordes de espetadores, num evento capaz de mobilizar milhares de milhões de pessoas durante pouco mais de um mês. O futebol continua a ser a linguagem universal do planeta. Mas quem beneficia verdadeiramente dessa universalidade?
No seu livro Futebol ao sol e à sombra Eduardo Galeano descreveu o futebol como um espaço de beleza, criatividade e pertença popular. Ao mesmo tempo, denunciou a sua crescente mercantilização. Décadas depois, as suas palavras parecem mais atuais do que nunca. O Mundial de 2026 surge como a expressão máxima de um futebol que se afasta progressivamente dos adeptos para se aproximar dos enormes interesses económicos à sua volta.
A expansão para 48 seleções é frequentemente apresentada como uma conquista da diversidade. Contudo, os críticos questionam se esta abertura responde realmente ao desejo de tornar o futebol mais acessível ou se representa apenas uma forma de aumentar o número de jogos, os contratos televisivos e as receitas publicitárias. Mais partidas significam mais horários de transmissão, mais patrocinadores, mais conteúdo para vender. A democratização pode ser apenas uma fachada para uma lógica de crescimento permanente.
Essa lógica não é nova. O treinador e pensador argentino Ángel Cappa escreveu, em También nos roban el fútbol, que o jogo foi progressivamente retirado das mãos dos seus verdadeiros proprietários: as pessoas do comum, do bairro popular. Aquelas que sonham e jogam nos campos de terra. Os filhos daqueles trabalhadores que tinham no futebol a sua única motivação para que o fim de semana chegasse. Da Escócia à África do Sul, do Japão à Colômbia, atravessando para a Liga da Costa galega ou os triunfos impossíveis de tantas equipas menores. Não há nada mais popular do que o futebol neste nosso mundo. Cappa denuncia a corrupção nos organismos dirigentes, a desigualdade crescente entre clubes e países, a exploração de jovens jogadores e as profundas fraturas sociais que o negócio do futebol alimenta. O Mundial de 2026 parece encaixar perfeitamente nesse diagnóstico.
Os preços dos bilhetes são um exemplo evidente. Em muitas partidas da fase de grupos, os valores ultrapassam facilmente várias centenas de dólares. Nos encontros decisivos, entre quartos-de-final, meias-finais e final, os preços podem atingir valores inacessíveis para a esmagadora maioria dos adeptos: entre 1000 e 10000 dólares por hora e meia de bola a correr. A introdução de sistemas de preços dinâmicos, semelhantes aos utilizados por companhias aéreas e plataformas digitais, contribui para uma elitização crescente do espetáculo. O adepto comum, aquele que construiu a alma do futebol ao longo de mais de um século, vê-se cada vez mais afastado das bancadas. E da TV.
Também a geografia do torneio levanta questões. Estados Unidos, Canadá e México formam uma candidatura gigantesca, com distâncias continentais entre cidades-sede. Para muitos adeptos, acompanhar a sua seleção implicará viagens longas, custos elevados e uma pegada ambiental difícil de ignorar. Enquanto isso, várias autoridades locais têm manifestado preocupação com os encargos públicos associados ao evento e com o reduzido retorno direto para infraestruturas e transportes. O sucesso financeiro da FIFA nem sempre se traduz em benefícios proporcionais para os territórios que acolhem a competição.
Há ainda uma dimensão política impossível de ignorar. O Mundial realiza-se num contexto internacional marcado por tensões diplomáticas, conflitos armados e debates sobre imigração e discriminação. Organizações de defesa dos direitos humanos e diversos observadores têm alertado para possíveis dificuldades de entrada de adeptos provenientes de determinados países e para o impacto de políticas migratórias restritivas. O futebol, que tantas vezes se apresenta como ponte entre povos, arrisca tornar-se refém de fronteiras, interesses estratégicos e agendas nacionais. E ainda mais: o árbitro somali Omar Artan, um dos melhores da África, não obteve o visado de entrada e não poderá apitar. O avançado iraquiano Aymen Hussain foi interrogado por 10 horas (!) na sua chegada ao aeroporto americano. E a seleção iraniana será impedida de fazer noite no país mais poderoso e com a melhor democracia do mundo: chegas, jogas e vais embora, tudo no mesmo dia.
A relação entre a FIFA e o poder político tem sido igualmente alvo de críticas. Um organismo que mantém suspendida a Rússia desde 2022 por causa da guerra da Ucrânia, mas que nada faz contra o “Tio Sam”, que neste intervalo “entre mundiais” já lançou bombas no Irão, a Síria, o Iémen, a Veneçuela e que colabora com o genocídio da Gaza. Ao longo da sua história, o organismo máximo do futebol procurou frequentemente apresentar-se como neutro. Contudo, as fronteiras entre desporto, diplomacia e poder tornaram-se cada vez mais ténues. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, tem cultivado uma proximidade evidente com líderes políticos de diferentes quadrantes, alimentando debates sobre a independência da instituição e sobre o papel do futebol na legitimação de determinados projetos de poder. O debate está longe de ser consensual, mas revela uma questão central: pode o futebol permanecer neutro num planeta cada vez mais polarizado?
Entretanto, a máquina financeira continua a crescer. As receitas associadas ao ciclo do Mundial atingem valores sem precedentes, enquanto apenas uma fração desse montante regressa diretamente a jogadores, seleções e clubes. 5800 milhões de espetadores são esperados para 104 jogos. 13 mil milhões de lucro entre 2023 e 2026, mas apenas 727 em prémios e 355 aos clubes, por “cederem” (obrigatoriamente) os seus jogadores. A disparidade entre os lucros gerados e a distribuição dos recursos alimenta críticas sobre o modelo económico que governa o futebol global. Afinal, quem produz o espetáculo? E quem recolhe os dividendos?
Paradoxalmente, nunca se jogou tanto futebol. Clubes, seleções, competições continentais e torneios internacionais disputam espaço num calendário saturado. O Mundial de 2026 acrescentará mais jogos, mais deslocações (e poluição) e maior desgaste físico aos atletas. O risco é evidente: transformar a abundância em saturação. Quando tudo é espetáculo, o espetáculo perde parte do seu encanto.
E, apesar de tudo, haverá magia. Ou não?
Porque o futebol continua a resistir aos seus próprios donos. Continua a produzir histórias improváveis, lágrimas autênticas e momentos de comunhão coletiva que nenhum departamento de marketing consegue fabricar. Haverá crianças a sonhar em bairros esquecidos, seleções estreantes a desafiar gigantes e estádios inteiros a cantar por noventa minutos como se o mundo parasse.
Portugal chegará ao torneio entre os candidatos mais fortes. A qualidade individual, a profundidade do plantel e a experiência acumulada colocam a seleção nacional entre os favoritos a uma campanha histórica. E haverá também espaço para a dimensão simbólica: Cristiano Ronaldo poderá disputar o seu sexto Mundial, igualando um registo raríssimo na história da competição (G. Ochoa). Do outro lado, o ídolo argentino Lionel Messi (outro nos 6 mundiais) continua a desafiar o tempo e a alimentar a possibilidade de mais um capítulo numa carreira irrepetível. Dois dos maiores futebolistas de sempre voltam a cruzar-se no palco máximo do jogo. Pela última vez.
Talvez seja essa a maior contradição do Mundial de 2026. Nunca o futebol pareceu tão capturado pelos interesses económicos, políticos e comerciais. Nunca os adeptos estiveram tão afastados dos centros de decisão. Nunca os preços foram tão elevados, os calendários tão sobrecarregados e os lucros tão gigantescos.
Mas, quando a bola começar a rolar, milhões de pessoas voltarão a acreditar. E você?
Não sabemos se o desporto “rei” continua a pertencer àqueles que o amam, mesmo quando tudo parece indicar o contrário. Apesar da propaganda MAGA de Trump, da violência policial, das perdas evidentes de direitos humanos, há esperança?
Enfim. Pouco tem a ver com a bola à que adorávamos quando eramos crianças. A tantos jogos, treinos, conversas, jantares e amigos relacionados com um desporto que foi elevado à categoria de mito. Nada a ver com a ilusão desinteressada daquele rapaz ao pé do café. Vou chamar por ele. Anda cá, meu! passa a bola! Não vale furar!!

