Uxía arrancou aturujos cantando em Tóquio, travou amizades gravando um disco no Rio de Janeiro e comoveu o público a partir de um palco em Chicago. Quatro décadas de trabalho musical honesto e cuidado que demonstraram como o que se faz de mais genuíno é o que melhor nos pode conectar com as demais.
O seu percurso combina interpretação e composição, produção, direção artística e até divulgação na rádio pública. Com mais de uma dúzia de discos, a sua trajetória está muito ligada a tecer redes com outras artistas: foi mentora das Malvela, criadora do festival lusófono Cantos na Maré, envolveu-se no espectáculo Enredadas, e levou à música textos de Manuel María, Uxío Novoneyra, Rosalía ou Lorca, entre outras.
O seu trabalho mais recente, Indómitas, nasceu da amizade com a escritora Begonha Caamanho e transforma a sua obra em nove canções. Pouco depois, uma nova versão de O teu nome é bandeira juntou-a a Silvio Rodríguez, que canta pela primeira vez em galego. Falámos com ela.
O seu último trabalho, Indómitas, nasce da sua relação com Begonha Caamanho. Como foi transformar a obra de uma amiga em música?
Foi um processo que me levou a ter outra perspetiva, porque fazer um disco para uma amiga não é qualquer coisa. Primeiro queres estar à altura daquela mulher que deixou uma grande marca em ti, mas depois libertei-me um pouco dessa pressão e pensei: vou fazer um disco com as canções que sinto que ela poderia vir a gostar, que têm a ver com ela e, sobretudo, com os seus valores: a liberdade, o feminismo, sermos mulheres livres, indómitas, e, evidentemente, com a sua obra.
No princípio nem sabia que ia fazer um disco, era um ramalhinho de canções, três ou quatro, porque pensei que para ela seria importante para a celebração das Letras Galegas que houvesse música; ela era uma grande melómana. Aliás, cada vez que fazia um disco, aconselhava-me com ela, para os títulos, para perceber se havia coerência no conjunto… A sua ajuda era muito valiosa. Desta vez tive de fazer tudo sem ela, ainda que há canções que ela já conheceu, por exemplo, Fada Morgana, uma canção que partilho com Magín Blanco, e que cantei na apresentação do seu livro Morgana en Esmelle. Ainda que depois, para este disco, fui-lhe dando novas voltas. E o disco acabou por ser também um disco-livro, com textos de pessoas próximas de Begonha.
Foi tudo feito pensando nela. E talvez a melhor forma de celebrar uma pessoa seja precisamente continuar a fazer coisas, continuar a criar a partir daquilo que ela nos deixou.
Begonha também sonhava com uma colaboração sua com Silvio Rodríguez. Agora essa colaboração aconteceu, em O teu nome é bandeira. Como chegou até aí?
Begonha e Silvio conheciam-se e admirava-se mutuamente, e ela já me tinha falado que gostaria que fizéssemos uma colaboração. Não aconteceu naquele momento, pelas circunstâncias, mas ela tinha isso na cabeça. E quando comecei a pensar neste disco, pensei que talvez ele pudesse participar. Na altura de gravar ele não tinha tempo, mas ficou a possibilidade de fazer a canção quando pudesse.
Escolhi “O teu nome é bandeira” porque me parecia que podia encaixar muito bem no estilo de Silvio. E ofereci-lhe a possibilidade de a cantar na nossa língua. Ele aceitou sem pôr nenhum obstáculo, antes pelo contrário. Disse que gostava da canção e que gostava de a cantar em galego, e pôs muito sentimento e muita delicadeza, e ademais não é fácil quando se faz à distância. Esta canção não está no disco físico porque foi gravada posteriormente.
Acho que Begonha ficaria muito feliz por isto ter acontecido agora, neste momento de emergência para o povo cubano. É uma forma de dizer: Estamos aqui e estamos sempre com o povo cubano.
A Uxia tem falado muito de irmandade entre povos, ao longo da sua trajetória.
Sim, tenho viajado muito, e viajar também é uma arte: conhecer pessoas, fazer uma imersão cultural, perceber cada lugar. E descobri pessoas maravilhosas, com uma enorme vontade de se ligar a nós. Mesmo em lugares culturalmente muito afastados, há sempre alguém que encontra uma ligação.
Lembro-me de uma turnê, com Narf, em que estivemos no Chile, Uruguai, Argentina, Estados Unidos… E tocando um alalá no Texas, no final do concerto, achegou-se-nos um homem, com fato de cowboy, muito emocionado; veio dizer-nos que ele queria que no seu enterro tocassem o alalá das Marinhas.
Noutros lugares chegamos tocando o nosso e na nossa língua, que é o que melhor podemos fazer; para tocar um blues já o fazem melhor ali. Nós queríamos ser embaixadores da Galiza imaginária. Uma Galiza que é um espaço onde qualquer pessoa pode estar, não apenas quem nasceu aqui. Porque a Galiza que somos também foi construída através da emigração, na Argentina, em Cuba, em tantos lugares. A minha Galiza é um espaço cultural muito amplo.
Essa ideia de que a Galiza não termina nas suas fronteiras é também relevante olhando para Portugal e o resto da lusofonia. É uma relação que, no seu caso, parece particularmente natural.
É um caminho aberto. Ainda temos muito caminho para fazer, mas existe essa conexão cultural e linguística, e a própria história da língua faz com que tudo adquira outra dimensão.
É como se fôssemos uma grande família.
Quando começámos o festival Cantos na Maré, Carlos Santiago escreveu um texto que depois usámos durante muito tempo, um texto que falava de como a língua nasce aqui e depois se expande por todos esses territórios. A ideia era convidar artistas de outros lugares da lusofonia a voltar ao berço da língua. Essa imagem era muito bonita e lembro-me de muitas pessoas que vinham ao Cantos na Maré e diziam sentir precisamente isso. Sobretudo
pessoas do Brasil, mas também de Portugal e de outros lugares. Havia uma sensação de reencontro.
E sinto que ainda temos muito caminho para andar.
A relevância da língua e da literatura na sua música tem a ver com a sua formação como filóloga?
A literatura está muito presente porque está ligada à minha formação e porque tenho uma paixão pela poesia desde muito jovem. Li muito, escrevi muito e, para mim, o poema é uma coisa muito natural, muito orgânica. Abro um livro de poemas e, em alguns casos, já estou a ver a canção.
Gosto muito de o fazer. Fizemos isso no disco “De tu casa a la mía”, com Javier Ruibal, um diálogo entre a poesia de Rosalía de Castro e de Federico García Lorca, duas vozes que, salvando as distâncias evidentes, são poetas atemporais, universais e populares, com um discurso crítico e comprometido. E também trabalhei musicando poemas de Manuel María, e de Uxío Novoneyra. Tenho um amor muito profundo pela poesia de Novoneyra, não me canso de ler “Os Eidos” nem de o cantar. É importante revisitar os clássicos, mas também estar muito atenta às poetas que estão a escrever hoje.
A sua canção Será por flores, ganhou o prémio à melhor música nos prémios aRi[t]mar 2026. Como se consegue transformar um poema em música, como se o resultado fosse inevitável?
É algo que gosto muito de fazer, é importante que haja fluidez, a canção não pode parecer uma coisa em que o verso entrou à força. A melodia tem de acompanhar o texto e o texto tem de entrar naturalmente na música. Acho que isso é uma coisa que fui interiorizando com os anos. Trabalho muito com a guitarra desde sempre.
E o prémio deixou-me muito feliz, Será por flores é uma canção que procura expressar o que foram estes 40 anos, a música, o que vivi e o que vivo, e como as canções também me vão construindo.
Também há uma parte muito importante do seu trabalho que consiste em criar espaço para outras pessoas. Malvela, María Fumaça, Enredadas… Como é que essa dimensão de produção e de criação coletiva entrou na sua forma de entender a música?
Eu tenho alma de produtora. Às vezes vejo uma coisa e percebo que ali pode haver uma semente. É preciso desenvolvê-la. Foi assim com María Fumaça. Havia uma necessidade de normalizar a diversidade, de colocar essa diversidade num palco. Aprendemos muito com esse projeto. Éramos mais de trinta pessoas em palco, famílias, amigas, amigos, e aquilo chegou ao coração de muitas famílias.
Com Malvela aconteceu algo semelhante. É um projeto que já tem pernas para andar e eu continuo a estar ali, a alimentá-lo. Estamos agora a preparar um novo disco. E com Enredadas aconteceu a partir de um concerto: Martirio, Carmen París, A Pedreira e eu quisemos mostrar um folclore ibérico que tem uma potência alucinante, e acabámos por criar uma amizade e uma cumplicidade muito fortes. Somos quatro mulheres muito diferentes, mas que nos complementamos, nos apoiamos e nos divertimos juntas. E, temos em comum que somos mulheres que se vendem à indústria, somos muito independentes, temos um jeito de entender este trabalho com muita verdade, com muita honestidade.
Tem dado concertos num formato muito próximo, na sua própria casa na Ilha da Arouça. Acredita numa outra indústria musical possível?
Sim. Nos últimos anos tenho partilhado o jardim da minha casa, na Ilha da Arousa, fazendo concertos abertos ao público. Começou com uma coisa muito simples: abrir as portas da minha casa para as pessoas entrarem e cantar diante de um mural que outro artista, Leandro Lamas, tinha feito naquele espaço.
Depois foram aparecendo outras obras, outros artistas, e, sem o pretendermos, a casa foi-se transformando num espaço de arte e de música. É muito gratificante partilhar. Podia ficar ali com as minhas amizades, a jantar, a cantar e a fazer as nossas festas, mas abrir isso aos outros cria laços muito mais profundos com as pessoas que vêm e com o público, e as pessoas sentem que estão num espaço onde a música é respeitada, onde há escuta. Acho que a música é sagrada e faltam-nos muitos espaços onde ela seja realmente relevante.
Nos grandes festivais, às vezes, tudo passa pela experiência: sair com os amigos, estar com as pessoas, consumir. E a música acaba por sofrer com a falta de escuta. Eu estou muito atenta a tudo o que se faz e também estou notando que há necessidade de outro tipo de espaços, de outro tipo de ambientes e cada vez há mais, o meu é apenas um deles, mas há muita gente que abre as portas da sua casa, que faz concertos pequenos.
Defende uma espécie de “slow music”?
Sim. Há o conceito de slow food e acho que podíamos aplicar alguma coisa semelhante à música: dar-lhe tempo.
Já há festivais mais pequenos onde isso acontece. Cuida-se mais do espaço, do ambiente, do público, e existe outro respeito. Eu gosto muito de festivais pequenos. Ainda que depois também me vejas na Festa do Avante, uma festa com tanta tradição e tão maravilhosa, com um público tão entregue. Sendo um festival grande, consegue conservar o espírito de quando nasceu. Porém, não acontece assim com outros festivais, que são puro consumo. Também gosto quando as pessoas têm a possibilidade de conhecer os artistas. Se antes de
um concerto há, por exemplo, uma aula de canto alentejano com Celina da Piedade, quando ela depois faz o concerto toda a gente canta e participa. Isso é muito bonito.
Gostava que houvesse mais programação assim, ciclos em que as pessoas pudessem conhecer melhor uma determinada cultura.
Como vê a música tradicional galega hoje?
Vejo-a bem, foi-se ganhando em autoestima. Claro que há música tradicional de muitos lugares, mas aqui mantém-se viva. Em parte pela semente que fomos lançando; se olharmos para trás, há muitas pessoas que fizeram tantas coisas, Marful, Guadi Galego, Berrogüetto, Mercedes Peón… E as escolas de música tradicional.
As pessoas descobriram que a música tradicional é uma fonte permanente de inspiração e de diversão. Podes dançar, cantar uma foliada, participar. Isso é precioso. E devemos ter muito orgulho porque é uma coisa que construímos entre todas e todos.
Eu estou mais ligada à canção de autor e a junção entre criação própria e raízes é uma bomba. Porque aí podes voar, contar as tuas histórias, as tuas palavras, com a potência da nossa música, porque a tradição não pode ser apenas repetição. Tem de ser recriada. A tradição tem de estar em movimento. E isso também tem a ver com a minha própria maneira de entender a música. Quero que a minha vida musical seja uma constante de movimento e de experimentação.
O que é que alimenta hoje essa vontade de experimentar, depois de quarenta anos de carreira?
Preciso do alimento da vida, do que está a acontecer. Preciso de espaço para mim, para a reflexão, para a leitura. Procuro leituras novas, escuto música, sigo pessoas que estão a fazer coisas novas.
Procuro também ter uma relação direta com gente mais nova que está a criar: Gravei recentemente com Mondra e com Malvela uma revisão de uma peça antiga. Também contei com Antía Ameixeiras no meu último disco. Sou amiga de Pedro Pastor e conheço-o desde pequeno. E gosto de ver que há uma geração que não descuida os arranjos, as palavras, a forma como apresenta a música.
Isso sempre me preocupou muito: cuidar de quem te acompanha, das palavras que escolhes, mas também dos arranjos, da forma como apresentas a música, procurando a máxima excelência possível. Neste sentido tenho muita sorte com os músicos que me acompanham, são pessoas muito interessantes, que me ensinam muito. E isso também faz parte da minha maneira de continuar a aprender.
Essa vontade de experimentar também a levou a mexer na forma como se apresenta no palco?
Sim. Eu sou muito desafiadora, e acho que temos de ser valentes. E, se errares, erras, não acontece nada. No último espetáculo pedi uma direção cénica à Marina Oural e Ugia Pedreira, que me obrigasse a comunicar de outra maneira com o público, de uma forma mais ativa, com mais movimento, e custou-me, porque estamos habituados a fazer as coisas à nossa maneira. Mas também senti que era importante tirar-me um pouco desse lugar e tornar-me uma artista mais livre no movimento, para poder sentir mais.
E, depois de quarenta anos no palco, sente-se mais livre?
Muito mais, infinitamente mais. Estou mais segura de mim mesma, da minha voz. Com o passar do tempo as cordas vocais têm menos elasticidade, envelhecem, como nós, mas, ao mesmo tempo, ganham expressividade, ganham profundidade. E aquilo que contas nas canções também é importante. Tudo tem de ter um sentido, e sinto que hoje consigo contar as coisas de outra maneira.
As viagens e as residências artísticas também me deram muito. Fiz muitas ao longo da vida e isso alimenta-me. Fiz uma, por exemplo, em Évora, onde nos juntámos um grupo de mulheres para criar sobre a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma poeta portuguesa que me entusiasma. Há canções que passaram para o meu repertório a partir daí. Se tivesse ficado em casa, muitas dessas coisas não teriam acontecido. É preciso mover-se. O movimento é importante para criar.
Eu quero continuar a aprender, a escutar, a mover-me. Porque, no fundo, tudo o que fiz nasceu disso: de estar em contacto com outras pessoas, com outras músicas, com outras línguas, com outros lugares. E acho que é isso que ainda me interessa. Continuar a procurar.
Da Fotografia principal © Oscar Górriz






