Pedro, encontrei uma.

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Pedro Sánchez quer, pela primeira vez, uma mulher latino-americana à frente da ONU.

Disse-o há umas semanas, na própria Assembleia Geral: em oitenta anos, nove homens ocuparam o cargo. Talvez esteja na altura de experimentar outra coisa. Concordo. E acrescento um nome: Dilma Rousseff.

Sim, essa Dilma. A que não vem com o conveniente currículo de quem passou a vida a circular pelos corredores certos, nas salas certas, com a gravata certa e a opinião certa sobre o multilateralismo.

Foi presa e torturada pela ditadura militar, chegou à Presidência do Brasil pelo voto, foi reeleita e sofreu um impeachment que constituiu um rude golpe na democracia brasileira, com as consequências que sabemos e as explicações que ainda estamos a fingir que aceitamos. Depois de tudo isso, não se dedicou à jardinagem. Hoje preside ao Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Foi reeleita por unanimidade para um segundo mandato, até 2030. Ou seja, não desapareceu da política internacional: mudou de geografia.

Saiu dos salões onde o Ocidente explica o mundo e foi trabalhar para a parte do mundo que, em princípio, devia limitar-se a ouvir. E talvez seja precisamente essa geografia que faça falta.

O Sul Global passou décadas a receber recomendações, empréstimos, relatórios, programas de ajustamento e, ocasionalmente, a preocupação profunda da comunidade internacional. Uma preocupação muito comovente, sobretudo quando vinha acompanhada de condições, juros e uma nota de rodapé sobre soberania.

Agora todos parecem ter descoberto o Sul Global. Há cimeiras, discursos, estratégias, parcerias e fotografias de família. O Sul Global tornou-se indispensável. Desde que, evidentemente, não tenha a deselegância de querer mandar alguma coisa. Porque uma coisa é dar voz ao Sul Global. Outra, bastante diferente, é deixá-lo escolher a música. Talvez esteja na altura de também mandar na reunião.

Dilma conhece o poder, a democracia e o que acontece quando ela deixa de existir. Conhece os BRICS, as economias emergentes e as relações, nem sempre carinhosas, frequentemente paternalistas, entre Norte e Sul. E tem uma característica particularmente inconveniente: não precisa que lhe expliquem o Sul Global. Vem de lá.

Além disso, não é criatura dos corredores da ONU. O que, nestes tempos, pode ser uma qualidade. Ou, pelo menos, uma desvantagem diferente das habituais.

A organização enfrenta guerras, bloqueios, falta de dinheiro e um Conselho de Segurança onde cinco países conservam o privilégio bastante democrático de decidir que a maioria não interessa.

É uma solução institucional admirável: todos os países são iguais, embora cinco sejam suficientemente iguais para poderem impedir os restantes de fazer seja o que for. Chamamos-lhe multilateralismo porque “oligarquia com tradução simultânea” ficava mal na Carta das Nações Unidas.

Talvez a ONU precise de alguém que saiba que o mundo é maior do que Nova Iorque. E que o planeta não termina na sala onde se reúnem os membros permanentes do Conselho de Segurança.

É aqui que Dilma se torna particularmente interessante. Não apenas por ser mulher. Não apenas por ser latino-americana. Nem sequer apenas por ter presidido a um país com mais de 200 milhões de habitantes. Mas porque está hoje num dos lugares onde se está a construir uma alternativa, ou, pelo menos, um contraponto, à arquitectura internacional dominada durante décadas pelo Ocidente.

Isso incomoda? Ainda bem. Uma Secretária-Geral destinada apenas a não incomodar ninguém talvez seja precisamente aquilo de que as Nações Unidas menos precisam.

Dilma teria adversários? Claro. Alguns com direito de veto, o que é sempre uma forma elegante de dizer “não” sem ter de explicar demasiado porquê. Outros talvez prefiram uma figura mais previsível, mais consensual, mais treinada na arte diplomática de produzir quatro páginas de comunicado sem que seja possível descobrir o que aconteceu. E outros ainda descobrirão subitamente que uma mulher latino-americana é uma ideia extraordinária, desde que não seja aquela mulher latino-americana.

É um clássico. Gostamos muito da diversidade até ela ter opiniões. Gostamos do Sul Global até ele ter interesses. Gostamos de mulheres no poder desde que o poder não seja demasiado. E gostamos particularmente de candidatos independentes, desde que dependam de nós.

Em oitenta anos, nunca uma mulher foi Secretária-Geral da ONU. E o Sul Global continua sub-representado nos lugares onde se distribui o poder, embora esteja extraordinariamente bem representado nos discursos sobre diversidade.

Pedro Sánchez pediu uma mulher latino-americana. Pois bem. Economista. Ex-presidente do Brasil. Sobrevivente de uma ditadura. Duas vezes eleita Presidente da República. Actual presidente de uma instituição multilateral dos BRICS. Uma mulher com experiência de Estado, conhecimento das economias emergentes e uma relação bastante mais realista com a palavra “crise” do que muitos dos especialistas que a pronunciam em conferências com tradução simultânea. E alguém que poderia obrigar a ONU a olhar um pouco menos para o Sul Global como problema a resolver e um pouco mais como parte do mundo que também tem alguma coisa a dizer sobre a forma de o governar.

Não sei se Dilma Rousseff quer ser Secretária-Geral das Nações Unidas. Aliás, nem sequer é candidata. O seu nome não consta da lista oficial do processo em curso. E há, evidentemente, uma pequena dificuldade nesta minha entusiasmada candidatura alheia: Dilma talvez não queira. E teria boas razões para isso.

Aos 78 anos, preside até 2030 a um banco multilateral onde dispõe de instrumentos concretos, dinheiro e capacidade de intervenção. Trocar Xangai por Nova Iorque seria trocar uma instituição onde pode fazer coisas por outra onde, demasiadas vezes, o Secretário-Geral pode sobretudo pedir aos outros que as façam. E depois há o pequeno pormenor de passar os dias a tentar convencer cinco potências, cada uma munida do seu veto, a concordarem sobre um mundo acerca do qual raramente concordam.

Depois de sobreviver a uma ditadura, à Presidência do Brasil e a um impeachment, talvez Dilma considere que já sofreu o suficiente. Mas talvez esteja na altura de lhe perguntarem. Ou será que a ideia de uma mulher latino-americana à frente da ONU era apenas isso mesmo: uma ideia? Uma daquelas ideias excelentes, progressistas, inclusivas e muito aplaudidas. Desde que não cheguem ao ponto inconveniente de ganhar corpo. E voz. E nome. E poder.

Porque é que ainda ninguém perguntou a Dilma?


Fotografia: Sérgio Aires

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