Em Janeiro de 1919 a mítica frase de Rosa Luxemburgo “socialismo ou barbárie”, transubstanciada no seu próprio sangue, corroeu com força redobrada os grilhões da crosta bruta daquela vil sépsis, sempre em constante e acelerada expansão, chamada capitalismo.
Se os quatro pilares que sustentam este projecto jornalístico De Norte a Sul são o humanismo, os direitos humanos, a paz e a soberania dos povos nada melhor do que espreitar a única grande festa em Portugal que se rege por esses mesmos valores, a Festa do Avante. E não fiquem chocados com isto. Para qualquer indivíduo com alguma consciência nenhum destes quatro pilares seria digno de debate mas apenas bom senso. O facto de para a legacy media ocidental (porque é com essa que temos de lidar), com pontuais honrosas excepções que confirmam a regra, a defesa intransigível destes quatro valores ser a maior das heresias (se nesta altura do campeonato ainda acreditam na patranha da luta pelos direitos humanos pouco haverá a fazer) diz mais sobre o estado a que chegámos do que sobre supostos radicalismos.
Aliás, não deixa de ter a sua piada que (isto da origem das palavras é uma maçada) a palavra radical originalmente significa algo que possui raízes, ou seja, radical seria uma espécie de (eterno) retorno a algo original. Um passo atrás para dar dois à frente no léxico de Lénine. O que faz muito sentido se nos lembrarmos do círculo (perfeito) presente em todas as civilizações, desde a serpente ouroboros até à portuguesíssima pescadinha de rabo na boca. Esse sentido foi reforçado de certa maneira em pleno avanço do capitalismo industrial e pela mão do político progressista (digamos assim) britânico Charles James Fox, referindo-se à necessidade urgente de mudanças de raiz no plano político. Se a palavra radical é hoje sinónimo de extremista é um sinal muito forte de como a sociedade se alterou de forma profunda nos últimos 200 anos. Que os liberais e os reaccionários (são gémeos siameses, não se deixem enganar pela casca) sejam os seus defensores mais ferozes é uma ironia que seria deliciosa se não fosse tão trágica. O fim da história foi decretado há quase 35 anos (não peçam ajuda ao Fukuyama para jogar no totobola) e as mudanças “estruturais” que os “moderados” tiram da cartola são os diazepams que apenas disfarçam os sintomas de uma infecção incurável sem ir à raiz dos problemas.
E é precisamente aí que entra a Festa do Avante (este ano a celebrar meio século) que funciona como a materialização da ideia marxista de que não basta interpretar o mundo, é preciso mudá-lo. Não será pois de estranhar que – certo como um relógio – todos os anos apareça uma questão nova para desviar atenções daquilo que importa. É o Covid (quantos mortos resultaram daquela festa amaldiçoada?), é o apoio à Rússia (a capa execrável do Jornal I), são os impostos (se os outros partidos estão nas mesmas condições tributárias o que estão à espera para fazer o mesmo? Não gostam de empreender?), é o terrorismo e a Palestina (o povo da Palestina ocupada resiste como bem entender porque é o que lhe resta).
Falhando no primeiro objectivo – a opinião unânime é que esta foi uma das edições com mais público nos últimos anos – agora avança-se para o plano B. A teoria é que a Festa do Avante é um festival de música como os outros e ninguém quer saber de política para nada – a maior parte das pessoas que vão até nem são comunistas (a pequena reportagem da Euronews tenta passar essa ideia de forma muito pouco subtil). E certamente muitos dos presentes não são membros do Partido Comunista Português mas o problema é que se despirmos a Festa do Avante da sua capa ideológica não sobra nada. A festa é organizada pelo PCP, o nome da festa vem do jornal oficial do partido que, lembre-se, foi a única fonte de informação livre em Portugal durante os anos do “regime totalitário com laivos dictatoriais” (um fascismo maquilhado não deixa de ser fascismo). Nestes tempos de não pensamento (uma vénia ao professor Rui Pereira pela expressão) é inconcebível para esta gente que a Festa do Avante só é assim precisamente porque é organizada pelo PCP.
Passar os dois dias e meio na festa, andar sempre a correr de um lado para o outro para assistir ao máximo de eventos possível e ver apenas um concerto completo é hilariante quando lemos que a Festa do Avante é só mais um festival de música. Tudo o resto… teatro, cinema, dezenas de debates, deporto, gastronomia, cultura local e internacional é varrido para debaixo do tapete. Tudo isto é política, concreta e palpável. Ao contrário do noticiário político impresso, televisionado e radiofonado que mais não é do que um desfilar de casos, casinhos, arrufos, mesquinhices e novelas. A luta política não é o diz que disse, não é o Sicrano e o Beltrano que fizeram não-sei-o-quê, é a luta concreta que mergulha a fundo na génese dos problemas. Mas isso é chato porque são problemas muito complexos. É preciso contextualizá-los e abordá-los de forma honesta e com sentido crítico. É muito mais fácil servir de estenógrafo do poder, o mesmo poder que se perpetua ao longo da sua alternância. Se a democracia nos permite mudar de partido mantendo a mesma política (com outra cor e uma linguagem com várias gradações de agressividade) quer dizer que mudar de política mantendo o mesmo partido é autocracia? A luta política não pode ser um concurso de popularidade. Ela só se consubstancia se for radical.
Um dos debates do fim de semana tinha como tema “A vida pode ser como a Festa do Avante”. Esta é uma lição importante a reter. Obviamente não é obrigatório ser comunista para ser boa pessoa (ser anti-comunista já é outra coisa), basta ser humanista. E não, a natureza humana não é a competição, é a cooperação. Não é a ganância que nos move, é o humanismo. O ganancismo é uma criação artificial, nem sequer existe como palavra.
Não sei se a vida pode ser como a Festa do Avante. Sei que o mundo – para a sua própria sobrevivência – tem que aspirar a esse desígnio. A bruxa má (também conhecida nos círculos extremistas moderados como Dama de Ferro) do Reino Unido que cunhou o termo T.I.N.A. (não há alternativa) tinha razão na expressão em si. Tal como a Rosa que deu o pontapé de saída a esta crónica.
Queremos um mundo mais inclusivo onde as pessoas são tratadas como seres humanos. Um mundo onde não existem sub-humanos, onde imigrantes, residentes estrangeiros não habituais e nómadas digitais têm os mesmos direitos. Onde não há povos escolhidos pelo Senhor (seja ele qual for). Onde os outros somos nós. Um mundo onde ninguém olha para a cor da pele nem quer saber quem partilha a nossa alcova, onde decidimos o que fazer com o nosso próprio corpo, onde nos podemos exprimir livremente com todas as ferramentas ao nosso dispor, onde temos a liberdade de crer naquilo que quisermos e de não crer em nada, onde podemos duvidar de tudo porque a cabeça não serve só para separar as orelhas. Um mundo que tem um lugar para nós, independentemente da idade, género e das limitações físicas. Um mundo onde não temos vergonha de fazer perguntas “ignorantes” porque só os ignorantes não têm a curiosidade suficiente para perguntar. Um mundo onde sabemos que alguém nos vai dar a mão quando caímos.
Esse mundo existe na Festa do Avante, é a mítica Grândola da cantiga. E existe porque há um acordo tácito que condiciona o próprio comportamento das pessoas – ninguém é revistado à entrada como um criminoso, não há presença visível de segurança e não existe lixo no chão. Isto só é possível porque existe uma sensação de pertença muito grande. As pessoas sentem a festa como delas, a sua casa, mesmo não tendo participado na sua construção. Que bom seria se pudéssemos sentir o mundo como nosso. O capitalismo transforma a agência em impotência. Anula-nos como indivíduos e depois vende-nos a solução química no comprimido da felicidade (em forma de sertralina) recomendado pelos melhores €$tudo$ ci€ntífico$ e a solução psicológica no hipermercado da espiritualidade através da banha da cobra da auto-ajuda, da prática milenar (deixa-me rir, diz Jorge Palma) do (Mc)mindfulness, do zen para fortalecer o espírito de equipaou do (pseudo) yoga do riso.
Ao ódio e ao ressentimento que Paulo Raimudo apontou no comício, podemos acrescentar o medo para cozinhar esta caldeirada de troika que nos destrói a cada dia. Há pouco mais de 10 anos, a lendária deputada comunista grega Liana Kanelli disse numa entrevista que estava “condenada a ser comunista” porque nós vivemos em sociedade. A luta política desde o início sempre assentou na mesma premissa. Só queremos viver uma vida real, ser os mestres do nosso próprio destino (ser uberista não conta). A Festa do Avante abre esse horizonte para todos os radicais das mais variadas orientações, unidos nesta luta final.
Créditos da imagem: festadoavante.pcp.pt/fotografias





