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A reintrodução de ovelhas, cabras e vacas de raças autóctones para consumir vegetação inflamável está a ganhar espaço no debate público. A ecopastorícia surge assim como promessa de futuro, mas a linguagem idílica e os projetos-piloto escondem omissões e fragilidades estruturais.
Acima de tudo, é consensual que estas práticas somente serão sustentáveis quando forem devidamente remuneradas. Contudo, a utilização do gado para reduzir biomassa não constitui, por si só, uma política florestal estrutural. A eficácia do pastoreio depende da escala, a continuidade, o posicionamento dos animais no terreno, o ordenamento da propriedade e a criação de mosaicos de uso do solo.
O regresso do gado como barreira
A estratégia assenta nas raças autóctones adaptadas a climas e relevos rigorosos. Ao consumirem e pisarem a vegetação rasteira e alta, estes animais quebram a continuidade do combustível florestal.
Neste debate, a vaca cachena destaca-se como protagonista. Com origem no território raiano do Gerês, esta raça alia pequeno porte e agilidade a uma dieta que desbasta desde giestas, silvas e tojo até espécies invasoras como a acácia. A vaca maronesa também é reconhecida pela capacidade de manutenção de faixas florestais extensas. Por sua vez, a cabra galega também tem demonstrado eficácia no controlo da vegetação arbustiva. Já os cavalos mantidos em regime semisselvagem realizam um controlo contínuo da vegetação.
A rede Movegandex e vedações virtuais
Na Galiza, a Movegandex – Montes Vizinhais com Gado Extensivo – promove a pecuária extensiva como corta-fogos natural ganhando peso institucional. Como lembram os seus representantes, as comunidades de montes gerem quase trinta e três por cento do território galego, sublinhando que o gado é determinante contra o fogo.
A gestão tradicional da pecuária extensiva tem sido impulsionada pela integração de sistemas de pastoreio inteligente. Através de coleiras com GPS, os gestores de terrenos e comunidades de montes conseguem definir vedações digitais a partir de aplicações móveis, sem necessidade de erguer redes físicas no monte.
Nos montes comunitários de Rianjo, mais de 80 cabras ajudam, desde o ano passado, a controlar os rebentos de espécies indesejadas favorecendo a biodiversidade e reduzindo o risco de incêndios. Esta ação de pecuária regenerativa, promovida pela Plataforma pela Defesa do Monte no âmbito do Laboratório Ecossocial do Barbança, é gerida de forma rotativa entre as comunidades de montes
Quadro regulamentar, experiências e parcerias
O Programa das Cabras Sapadoras, lançado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas após os incêndios de 2017, atribui incentivos financeiros a pastores para direcionarem rebanhos de caprinos e ovinos para faixas de proteção estratégicas e reconhecem o pastor como agente de gestão da paisagem.
A Redução da Carga Combustível – promovida pelo Fundo Ambiental e processada pelo Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas – atribui incentivos por cabeça de gado em zonas de elevado risco para manter as faixas florestais abertas.
Por sua vez, promovido pela Redes Energéticas Nacionais, pela associação AguiarFloresta e pelo Instituto Politécnico de Bragança, cerca de quarenta vacas maronesas são responsáveis pela gestão da vegetação numa área de 6,5 hectares na subestação de Vila Pouca de Aguiar.
A resposta da sociedade civil e as redes comunitárias
A sociedade civil e os movimentos locais organizam as suas próprias redes de defesa territorial. Em Moinhos de Paranhos, em Seia, a comunidade reintroduziu o pastoreio em redor do aglomerado urbano após os fogos na Serra da Estrela, enquanto em Paredes de Coura a Paisagem Protegida do Corno do Bico utiliza caprinos para o controlo biológico de giestas.
A Associação Portuguesa de Ecopastorícia atua como uma plataforma de capacitação que demonstra técnica e financeiramente às autarquias como a contratação de pastores locais é mais económica e sustentável do que o uso exclusivo de maquinaria pesada.
A Montis, em Vouzela, aplica o pastoreio extensivo com cabras e cavalos, ao passo que na Serra da Gardunha e na Lousã a Quercus dinamiza a ecopastorícia de proximidade. Por fim, surgem os projetos de inclusão social como o Fundão e o Sabugal, que integram desempregados e migrantes no maneio de Rebanhos Solidários para limpeza periurbana. Paralelamente, na Serra de Aire e Candeeiros e na Estrela, desenvolvem-se campanhas do tipo «Adota uma Cabra». Estas iniciativas permitem aos cidadãos financiar a manutenção de rebanhos em troca do controlo de mato nas suas propriedades.
Entre a metáfora comercial e o greenwashing
A utilização de expressões como cabras-sapadoras, burros-bombeiros, vacas corta-fogos ou ovelhas-jardineiras têm vindo a gerar uma crescente contestação social, pondo em causa a forma como o debate florestal está a ser comunicado.
Em resposta a esta tendência, começam a surgir críticas dirigidas à academia, meios de comunicação, governos e corporações por carregarem uma evidente humanização e instrumentalização. Os críticos acusam estas entidades de utilizarem tais práticas e linguagem como uma cortina de fumo para mascarar a ausência de políticas estruturais e transformadoras. Paralelamente, as fotografias de rebanhos constroem uma imagem confortavelmente pitoresca para o público urbano e uma representação romantizada que acaba por ocultar os problemas de fundo.
Da mesma forma, projetos promovidos por grandes empresas são criticados por serem instrumentalizados como campanhas de marketing ambiental, permitindo evitar o debate sobre a necessidade de reformas fundiárias profundas, a reorganização da floresta monocultural e o combate ao abandono do território.
Fotografias: Rede Elétrica Nacional, JJHermida Wikimedia Commons, Barbanza Ecosocial







