Entrevista | Noemi V. Nogueira: “Estás no lado pequeno, a lutar contra um furacão. És formiga, mas nunca desistir é chave.”

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A poucos dias de celebrar o seu 12.º aniversário em 1 de agosto, a Arca da Noe, localizada em Vilar de Santos —um pequeno concelho de mil habitantes a menos de meia hora de Montalegre—, continua a afirmar-se como um dos espaços culturais e musicais mais dinâmicos da Galiza (3 vezes premiado como melhor sala de concertos).

Ao longo destes anos, o local tem sido palco de concertos, exposições, encontros, palestras, festivais, oficinas e inúmeras iniciativas que têm contribuído para enriquecer a vida cultural da comarca, sempre com uma forte ligação ao território e às suas gentes. À frente do projeto está a Noemi Vázquez Nogueira, gestora de um espaço que nasceu com a vontade de criar comunidade através da cultura e da música e que nos recebe à porta deste lugar mágico.

12 anos depois… quais as recordações?

Há 12 anos estava doida… (ri), cheia de trabalho. De facto, não podia levantar-me, doíam-me as pernas de tanto trabalhar. O dia que abrimos foi um bocado caótico, mas maravilhoso, com certeza. Lembro-me bem, vieram a Rochi, o Carlos Rafael, a Concha Roussia, os da Ronda da Auriense… começamos mesmo no dia que se celebravam as festas de Vilar de Santos.

Donde surge a decisão de criar o projeto da “Arca”?

Eu vinha de diferentes projetos culturais, desde os 15 ou 16 anos, inserida no teatro, no reintegracionismo, ou o MDL, o Movimento pela Defesa da Língua. Também trabalhara em projetos do género, como “A Esmorga”, em Ourense, ou “A Corte dos Bois”, em Sandiães. Porém, eu queria voltar à minha aldeia, e criar algo próprio.

Porque Vilar de Santos, então? Apenas pelas saudades?

Ao pé dum desenho da Noe do artista Leandro

Não, também pela rede. Liguei para um amigo do reintegracionismo, o André e perguntei-lhe se sabia de alguma casa ou espaço para poder começar a aventura. Ele foi quem pôs em contacto com o concelho e o presidente da Câmara fez a ligação com o proprietário do local que abrigaria a Arca. A partir daí correu tudo fluido. Era fevereiro de 2014… havia só um mês que tinha saído da Corte dos Bois. E em agosto, a Arca estava aberta já.

Agora é muito fácil falar, tem tido muito sucesso, mas não seria melhor um projeto tão bom ter-se estabelecido numa cidade como Ourense ou Compostela?

Não sei, nunca se sabe. Sucesso? Eu porque estou meio doida e resisto, mas uma “pessoa normal” isto não aguenta, esse ritmo de programação… (concertos quase continuamente entre quintas/sextas a domingos)

Chegar até aqui, mais de mil concertos depois… A rede multiplicou-se. Não faz falta muito mais.

Sim, e agora parece que já não és tu quem escolhe, são os outros que te escolhem a ti. Isto está bem, mas se calhar queres ligar para alguém vier em dezembro, e descobres na agenda que não tens vaga disponível até março. É incrível, tens que deixar algum espaço livre para agendares o que quiseres, alguma vez pelo menos.

A quantos meses vai a marcação dos eventos?

Já há concertos agendados para agosto e setembro do 2027.

E como foi transformar a ideia inicial num ponto de encontro, uma referência deste nível?

A Arca poderia estar localizada em qualquer lugar que tivesse esta filosofia, sempre a acreditar no convívio e no respeito, sentindo a emoção da música e da criatividade partilhada. Por outro lado, há pessoas que estiveram, que passaram e que sem elas nada disto teria acontecido. Quero lembrar aqui a minha vizinha, a Rosa, que faleceu há algumas semanas. Enfim, deram-se as condições graças à comunidade, mesmo com ideologias muito diferentes. Somos todos a favor do convívio, isso é o primeiro.

Como definir A Arca para alguém que nunca a visitou?

Um lugar de convívio, onde relacionar-se. Aqui vais estar como em casa, vais conhecer pessoas e vais adorar a atmosfera.

O que diferencia a Arca doutros locais de matriz cultural? Quais as nuances?

A espontaneidade e a naturalidade, talvez. Somos como o mostramos.

Às vezes nestes projetos tão especiais uma pessoa acaba por se tornar fechada, não se abrir… como se fosse um local só para os sócios e isso baste…

Sim, sim, isso mesmo. Mas acho que a Arca não ficou por aí, atravessou barreiras e chegou a pessoas de todo o tipo.

Do ponto de vista musical, como definir o projeto?

Variedade, acima de tudo. Apenas temos uma “linha vermelha”: a música comercial. Mas além de música tradicional, compositores e lusofonia, aqui ouvimos jazz, rock, reggae… de tudo.

E a música continua a ser a alma, ou há mais vertentes a comentar?

Foi, é e será, mas desde o início já organizamos apresentações de livros, projetamos documentários, exibições, ateliês de percussão, dança tradicional… até temos um grupo de músicas residentes, “As Xingras da Arca”. Foram meninas que começaram com 3 anos, e agora já a caminho da universidade algumas delas. São fantásticas.

Além do trabalho na Arca, a Noemi é professora no secundário. Como escolhem os artistas? E como elaboram o calendário dos eventos?

Devo ter TDH. Trabalho de mais e organizo no início de cada semana, com a promoção. Depois está o cartaz mensal. E no meio, os artistas ligam-te e buscas de arranjar datas e formas. Há datas fixas: o mercado, o aniversário… Como sempre acontece, existe muito trabalho antes do concerto começar.

Chegar ou manter-se, eis a questão.

Manter-se é muito mais difícil. Às vezes perguntas-te “o quê faço eu aqui?”, mas depois gostas dos concertos e vês a malta dançar e desfrutar…. E sentes que já mereceu a pena.

O que se procura nesse diálogo entre culturas musicais? Sobretudo no que diz respeito à lusofonia, sempre tão presente.

Formamos parte da mesma raiz musical e temos a mesma língua. Isso tenho-o muito claro.

És referência no norte de Portugal?

Não, acho que ainda não, apesar dos inúmeros grupos que por aqui já passaram. Temos muitos contactos de produtores, organizadores e grupos portugueses que sempre repetem, mas nem só, também brasileiros e africanos.

Alguns desses artistas acabam por tocar em Barcelona, na Corunha, no Porto… e em Vilar de Santos. O que acha deste “choque”?

É maravilhoso… mas o importante é o que o público dizer. Há grupos espetaculares, e menos conhecidos, com uma plateia de 20 ou 30 pessoas; enquanto outros, mais conhecidos nessa altura, enchem a Arca. As modas também afetam a espaços “alternativos” como o nosso.

Há algum artista ou momento que tenha mudado a história da Arca?

Muitos. Músicos que sempre me vêm à cabeça podem ser a Uxia Senlle ou o Narf. A Uxia sempre a buscar rede, a apostar na lusofonia. Alguns dos grupos vieram recomendados por ela. Também a Ugia Pedreira, que apenas duas semanas após a abertura, já me realizou uma entrevista para o Galícia Confidencial. Há mais: o Xabier Diaz ou a Guadi Galego, que realizaram um concerto para arrecadar fundos para o livro-cd do 10º aniversário, quando ela nem sequer estava entre as músicas que apareciam no livro-cd. Enfim, também me lembro do João Afonso, um dos nossos. Ou a Celina da Piedade, o Nanan…

Algum nome de quem tenham estado atrás e ainda não conseguiram?…

A SES (compositora galega), falamos nos últimos meses… vamos ver se por fim vamos poder tê-la conosco.

E algum/a músico/a português/a com que gostariam de contar?

O Xico César seria fantástico.

Das novas fadistas?… Seria possível ter alguma?

É mesmo muito difícil. Gostava de ter a Ana Bacalhau.

Como é que se foi transformando a relação com o público nestes anos todos?

Eu sempre estou a insistir no silêncio, quando toca o artista. As pessoas dizem que sou exagerada de mais, mas quero respeito. Acho que conseguimos acertar, pois agora alguns vêm e mandar calar os outros (ri). Quanto à atmosfera… está claro que no início, as pessoas querem sempre ver novidade: os concertos, a comida… tudo é novo, tudo é bom. Depois dos anos, a novidade já passou, e toca buscar novas fórmulas. Estamos nisso.

Qual o papel da Arca no que diz respeito a sua relação com a comarca da Límia. Qual a conexão?

O objetivo é sempre promover a comarca e a língua. Além disso, os prémios Martim Codax ajudaram a visibilizar-nos também no âmbito local, não apenas no âmbito global.

Essa experiência dos três prémios Martim Codax à melhor sala de concertos galega sempre é referida como muito marcante.

Na segunda nomeação dos Prémios Martim Códax

A primeira vez foi incrível, muito divertida, com um autocarro cheio de amigos a acompanhar-nos. Foram 5 nomeações e 3 prémios.

Sentem a falta do apoio institucional? Deputação provincial, governo galego…

Está tudo muito mal organizado. Sentes a falta, sim. Os concelhos nunca têm dinheiro. À Deputação nunca lá fui. Apesar disso, deram-nos um prémio como melhor projeto cultural. Quanto ao governo, parece que está a gerir a “rede de música ao vivo”, mas não se sabe se está a funcionar bem. As instituições deveriam estar atentas a estas iniciativas.

Os artistas recebem obrigatoriamente… ou não?

Nós pagamos mínimos, eles têm que receber uma quantidade mínima, é lógico. Às vezes temos bilheteira, e há que pagar por aceder ao concerto, isto decerto seria mais fácil para nós, mas… tentamos promover os grupos menos conhecidos. Há que criar uma plateia específica para que isto funcione.

Quais foram os momentos mais difíceis?

Quando veio a Covid, levamo-lo bem. Conseguimos organizar online e depois, abriu-se pouco a pouco e tínhamos a refeição-concerto por 20 euros, e corria perfeito. Depois deixou de correr bem este modelo, mas podemos dizer que salvamos esse momento crítico da Covid melhor do esperado.

E as melhores conquistas, alegrias…?

O caminho, aprendes com ele. Tens que organizar, e inovar constantemente. Buscar grupos de todo o tipo. O panorama musical galego mudou, mas não há publicidade nem promoção. E a nossa sociedade não valoriza o “alternativo”. Também não ajuda a cultura “de massas”, a apostar nos macrofestivais. 200 ou 300€ os preços dos bilhetes, sem grupos galegos. Uma pena. Tens que ser consciente: estás no lado pequeno, a lutar contra um furacão. És formiga, mas nunca desistir é chave.

Houve algum momento em que quisesse parar?

Muitas vezes, aconteceu-me várias vezes. Porém, sempre apareceu alguma coisa a seguir que me fez continuar.

Um concerto que simbolize a Arca.

Os da Ugia Pedreira. As Tanxugueiras, quando ainda não eram famosas, o Rodrigo Cuevas. Tantos…

E chegou o livro do décimo aniversário. E os aniversários, com o apoio das pessoas que estão atrás do projeto.

Sem eles, nada seria possível, como já te disse. A família e os amigos sempre a colaborar. O altruísmo é importantíssimo. A Irene Veiga e o Xico Paradelo ajudaram-me imenso desde há 20 anos. Os projetos comunitários requerem de pessoas desinteressadas e generosas. A rede “invisível”. Quanto ao livro, estou muito orgulhosa dele. Foi na Covid, tinha medo de ter que fechar e falamos da “marca” que queríamos para perdurar. E surgiram figuras como o Sérgio Tannus, ou a Inês da “Banda da Loba”, a Patri das “Habelas Hainas”, a Irene e o Xico… A Irene escreveu um conto fantástica a figurar esse percurso da Arca pela Lagoa da Antela e a ela somaram-se 19 colaborações com 50 músicos “especiais” que passaram pela Arca. Foi memorável.

Como explicar esse boom de músicos galegos a cantar na nossa língua?

As coisas não saem do nada. Por trás de ti, houve outras propostas. É maravilhoso ver projetos novos, as influências e a mestiçagem. A qualidade, a variedade… a questão é aproveitar isto e conseguir viver da música. O panorama não deveria ser tão veloz.

Reclamamos a calma, então, não essa imediatez…

Sim, isso, os projetos precisam tempo para se estabilizarem. Não pode ser que cada 6 meses venha uma moda diferente.

E qual o momento da Lusofonia na Galiza?

Ainda há muito por fazer. Vejo a proposta do PGL, a Academia Galega da Língua Portuguesa, a inclusão do português no secundário. Ou mesmo a vossa iniciativa do DNS… Muito trabalho interessante a salientar. Somos uma sociedade galega doente e carente de muitas coisas no que respeita à cultura e à língua, mas não desistimos. É incrível.

E o aniversário deste ano, quais as novidades?

Mais ou menos como o ano passado. 5 concertos, refeição e espaço da Fraga. Muito convívio e muita festa.

Quanto ao futuro…. quais as ideias?

Continuar… se calhar alguma vez organizar concertos itinerantes, em vários espaços colaborativos… Ideias hão muitas, depois toca implementar. Dentro de 12 anos só peço estar, e ser parte da comunidade, ver as pessoas continuar a desfrutar.

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