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A presença histórica de focas na costa atlântica ibérica foi o foco de um estudo publicado recentemente na Galemys, Iberian Journal of Mammalogy, a revista da Sociedade Ibérica para a Conservação e Estudo dos Mamíferos. Na investigação, os autores Juan Jiménez e Rafael Romero recorreram à talassonímia — o ramo da toponímia que estuda os nomes próprios de mares, costas e acidentes geográficos marinhos — da Galiza para compreender a distribuição passada e a seleção de habitat destas espécies.
Para a realização do trabalho, os talassónimos foram procurados em Cartas Náuticas, em mapas do Instituto Geográfico e em diversos visores cartográficos. A pesquisa incluiu exclusivamente os topónimos que continham a palavra lobo e outras com a mesma raiz etimológica. Foram excluídas todas as referências que pudessem remeter ao lobo terrestre contabilizando-se unicamente os nomes de praias, cabos, enseadas, ilhas ou grutas marinhas.
Embora existam referências à presença esporádica de focas no litoral galego anteriores a 1900, não consta que nenhuma delas tenha sido sequer vista por naturalistas. Por esse motivo, os autores que as mencionam limitam-se a indicar a sua presença e a atribuir-lhes os nomes dados pelos pescadores: frade ou lobo marinho, bezerro marinho ou do mar, capelo ou peixe capelo…
Em contraste alguns exemplares de focas foram examinados por cientistas em Portugal continental entre os séculos XIX e XX, tendo sido inclusive conservados em museus.
Em Setúbal, em 1797, um macho de foca-comum foi recolhido e conservado no Museu do Paço da Ajuda, em Lisboa. Em Viana do Castelo, em 1814, foi caçada uma fêmea adulta que continha um feto no seu interior. O animal foi identificado como foca-comum e a sua pele foi oferecida ao Museu da Universidade de Coimbra. Em 1817, também em Setúbal, um faroleiro caçou uma fêmea que o naturalista Brotero identificou-a como foca-comum e o exemplar foi guardado no mesmo museu lisboeta, acabando por ser reclassificado como foca-cinzenta pelo naturalista António Armando Themido em 1947.
Relativamente ao Museu da Universidade de Coimbra, segundo relata Themido, a instituição chegou a receber até quatro exemplares de focas de origem portuguesa durante o século XIX. Todos os quatro foram identificados como foca-comum, embora nenhum se conservasse ao chegar o século XX. O primeiro procedia de Mira, tendo sido capturado vivo em 1839. Num inventário de 1849 consta outro exemplar da mesma espécie, mas ambos deverão ter-se perdido antes de 1860. No mesmo museu guardou-se ainda a pele de outra foca-comum capturada em Peniche em 1863. O último exemplar procedia de Buarcos e foi igualmente identificado como foca-comum.
Mais de 40 topónimos marinhos ligados às focas
Ao todo, de acordo com os dados do estudo citado foram localizados 43 talassónimos “lobo/lobeira” na Galiza, com a maior concentração (65,1%) nas Rias Baixas. A maioria dos topónimos (67,4%) refere-se a rochas no mar, por vezes submersas pela maré. Cerca de 80% destas rochas tinham uma superfície menor que 200 m², sendo consideravelmente inferiores aos ilhéus. As seis praias identificadas são de pequeno ou médio porte. A única gruta marinha localizada (Cova do Lobo, na ilha de Ons) apresenta no seu fundo uma praia com 20 metros de comprimento e 2 a 3 metros de largura, que emerge unicamente na maré baixa.
Esta presença dos talassónimos revela informações cruciais. Nestas costas galegas, os topónimos estão associados maioritariamente a conjuntos de rochas ou “cons”1 isolados. Este cenário contrasta com o Mediterrâneo, a Macaronésia e o Norte de África, onde predominam praias, grutas e ilhéus. Embora a Galiza tenha menos grutas do que o Mediterrâneo — cuja geologia calcária favorece a sua formação —, a costa galega possui frequentemente “furnas”, que são fendas ou cavidades geradas pela erosão das ondas.
- Com: pena grande e geralmente apontada na água que fica ao descoberto na baixa-mar. ↩︎





