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Dez anos após a sua publicação original, Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, regressou no passado mês de maio às livrarias numa nova versão em novela gráfica. Ilustrada por Júlia Barata, a adaptação reabre o debate sobre o racismo e colonialismo português em Moçambique.
Editado pela Caminho, o livro foca-se na infância e pré-adolescência da autora na antiga Lourenço Marques, durante o período que antecedeu a independência de 1975. Através deste relato, cruza-se a crueza da memória colonial com a complexa relação pessoal entre a escritora e o seu pai. A figura paterna personifica o colono trabalhador, mas surge simultaneamente retratada como o reflexo de um sistema racista, patriarcal e autoritário.
A nova adaptação em banda desenhada de Caderno de Memórias Coloniais expande o impacto da obra original ao atrair as gerações mais jovens para o debate sobre o fim do colonialismo. Ao cruzar os símbolos do antigo regime com as exigências de uma nova era, o formato visual aproxima os novos leitores de um período histórico em transformação.
Contudo, o alcance da narrativa vai além das tensões sociais, raciais e de género, consolidando-se como um relato profundo sobre a complexa e inquebrável relação de amor entre pai e filha. A discussão identitária colide com as estruturas do patriarcado. A narrativa acompanha a jornada íntima de uma rapariga branca na descoberta da sua sexualidade. O corpo assume o protagonismo da história, que explora abertamente temas como a menstruação, a intimidade e o desejo.
Lançado em 2009, o relato reabriu feridas e gerou contestação entre setores saudosistas de retornados. A polémica dividiu até mesmo grupos que sofreram as assimetrias do sistema, como chefes mestiços da administração colonial, indianos e goeses. Na época, estes grupos ocupavam uma posição intermédia na pirâmide social, beneficiando de um estatuto mais embranquecido e de maiores privilégios face à população nativa.
A adaptação gráfica de Caderno de Memórias Coloniais, confere uma nova dimensão física e psicológica ao trauma do desenraizamento colonial. A obra tenta retratar a dor e o não pertencimento da protagonista – enviada sozinha para Portugal como “retornada” – e reabre feridas num momento em que a sociedade portuguesa ainda lida com os fantasmas do pós-colonialismo.
O impacto global de Caderno de Memórias Coloniais reflete-se no seu percurso comercial e académico, somando cinco edições e traduções para o inglês, francês, alemão e italiano. O livro tornou-se um objeto de estudo em universidades e centros de investigação à escala internacional, consolidando-se como uma referência no debate sobre o pós-colonialismo português.





