É escusado andarmo-nos a iludir: a nossa vida está já acampada defronte da barbárie.
Vemos, à nossa frente, uns melhor do que outros, uns porque vêem como num dia limpo pela chuva, outros porque ainda se recusam ver através das nuvens negras, a cancela aberta, o portão de aço que nos volta a atrair com a máxima: “arbeit macht frei”, o trabalho liberta.
Os nazis foram mestres na arte cruel de receber quem, pela morte da bala, da câmara de gás, dos fornos de incineração e da vala comum, “libertavam”. Na verdade, conseguiram também a proeza de, num truque de linguagem, enunciar, nos seus portões de aço, e por em prática com cem anos de antecipação, a fórmula do Capitalismo avançado e a sua Solução Final: a concentração da vida, do trabalho e da morte num só local.
Numa só plataforma.
Ao tempo do campo de concentração nazi, o modelo era a fábrica, sendo o campo de trabalho forçado, que concentrava a vida, o trabalho e a morte, a sua versão mais radical.
Cem anos depois, o ensaio final do Capitalismo é este, e, tal como o ensaio nazi, é um ensaio fundamentalmente totalitário, embora possa ainda apresentar-se sob palavreados de uma suposta ordem democrática: nas últimas décadas, o Capitalismo não tratou de outra coisa senão plataformizar-nos: concentrou a nossa vida em todo o tipo de plataformas, extraindo-nos em dados, e transformando-os em informação. Esta fase individual do Capitalismo extractivista, minou em nós o que pôde minar, fragmentando-nos a vida e compartimentando o nosso quotidiano, arrumando tudo o que somos em gavetas virtuais, transformando em dados os mais ínfimos e íntimos aspectos da nossa vida pessoal e profissional.
E assim, eis que, no final deste processo extractivista, tudo está concentrado: a nossa vida, o nosso trabalho, a nossa morte. Todos os momentos interconectados pela rede digital. A internet das coisas, onde as coisas somos nós.
Depois de, graciosa e voluntariamente, termos entregue tudo isso, depois de termos deixado transformar em capital, até, o tempo em que dormimos, o tempo de ócio e de férias, o tempo que passamos com os amigos, o tempo em que desfrutamos de um pôr do sol, depois de nos termos tornado integralmente capital, moeda-viva como nos chamou o filósofo francês Pierre Klossowski, logo, mercadoria integralmente transaccionável, eis que chega a Solução Final: a que, no limite, dispensa qualquer forma de redistribuição. E é aqui que reside a chave do que está a acordar os povos na sua mais profunda humanidade, levando-nos em massa para a “civitas”, para as ruas, para as praças, onde a humanidade se sente, se cheira, se toca. Onde a humanidade também pode surgir como desumana, porque a tirania também é coisa humana.
O passado pós-industrial, em particular, a primeira fase da digitalização, totalizou e tratou de capitalizar toda a informação existente sobre nós. Nesse passado recente que ainda tem ecos no presente, os gestos de colaboração, os gestos do colaborador que o capitalismo tanto aprecia, foram ainda fracamente retribuídos: a gigantesca quantidade de dados que fomos depositando nas plataformas ainda era remunerada de volta, pelo Capitalismo, através de pequenos dispositivos de redistribuição, como o salário ou como a ridícula atribuição de pequenos rendimentos. Faz sentido que assim seja: preserva-se, por um lado, e reforça-se, a lógica da acumulação capitalista, permitindo-se, por outro, que as múltiplas plataformas extractivas se mantenham em funcionamento à força de trabalho e através das relações transaccionais entre elas.
Mas, e se, de repente, já tudo o que o Capitalismo precisava de extrair, nos tivesse sido extraído? Que capital resta para o Capitalismo extractivista dos dados e da informação, em cada um de nós?
O problema do último campo de concentração é esse. No último e derradeiro campo de concentração do Capitalismo, já não há trabalho para fazer. Basta colocar todas as plataformas em comunicação e em transacção de dados e informações, através de uma rede que apenas necessita de enormes quantidades de energia para funcionar – e é por isso que, nesta fase raivosa, o Capitalismo necessita da guerra para ir saquear a energia onde ela se encontra. A remuneração do trabalho deixa de ser necessária, todas as funções anteriormente desempenhadas pelos trabalhadores plataformizados se tornam substituíveis e descartáveis.
Temos vindo a chamar a isto, IA.
Inteligência artificial.
Os milhões de seres humanos que vêm tomando as ruas da Europa não se vêem só sem casa. Vêem-se despojados da vida, percebem já como toda a sua vida lhes foi extraída, em dados, e transformada em informações. E percebem ainda que é nesses dados e nessas informações que passa a estar concentrado todo o capital, toda a mais-valia. Percebem que, como modelo económico, a IA é o último e mais radical campo de concentração de capital que alguma vez existiu à face da Terra. Percebem que, neste modelo hiperconcentracionário, cada um e cada uma de nós, já pouco vale. Quem ainda tem valor, vale apenas por aquilo que ainda conserva, de algum modo, como seu: o salário ou a pensão que recebe, sabe-se lá até quando, a poupança que ainda tem aplicada algures. Tudo isso nos irá ser extraído, até que nem o tutano nos reste.
Mas, os jovens não têm nada disto, nem sequer o capital para se transformarem na renda de um tecto digno, onde possam abrigar uma esperança mínima de futuro. E já o estão a perceber.
Por isso, primeiro eles, e os que de nós já o tenham percebido, não temos alternativa: ou voltamos à rua a reclamar a humanidade que nos resta, ou até essa nos será extraída.




