Se há coisa de que gosto verdadeiramente é de aprender. Descobrir coisas inusitadas que me são inteiramente desconhecidas num momento e já parte de mim no momento seguinte. Matéria prima para se aplicar a gosto como se sempre tivesse sido minha. Mais ainda se a puder aplicar como metáfora de outra coisa que, essa sim, já é minha desde que me lembro.
A ‘campanologia’, por exemplo, é um conceito que me entrou na vida muito recentemente, pela natural via da leitura, como tantas outras ideias, aliás. Trazia a promessa de algo sonoramente interessante e o primeiro encantamento ficou no enrolar da palavra cam-pa-no-lo-gi-a, que, descobri a seguir, se refere à magnífica arte de tocar sinos, e mereceu uma entrada no “Livro dos prazeres inúteis” – eu que gosto tanto de livros e de coisas inúteis, tenho-o sempre por perto. Li o pequeno verbete de John Mitchinson, sorri, gostei, sublinhei algumas linhas, pensei nessa possibilidade de as sequências de sons que fazem os sinos terem tanto para contar. Segui a leitura, aprendi outras coisas, nunca voltei a pensar no tema e passaram-se uns meses até que, inusitadamente, os sinos me voltaram a soar dentro da cabeça.
Estava eu na Sertã, num início de julho muito quente, a caminho de terminar a Maratona de Leitura, sentada num tufo de relva do Castelo, a assistir à apresentação de um espetáculo – ou recital ou manifesto – em que várias vozes emprestadas à poesia, mas não só, me fizeram recordar aquela tão distraída leitura e pensar Ah! Afinal isto é que é a campanologia!
A campanologia junta a matemática, a música, a engenharia e o prazer subversivo de fazer uma grande algazarra em público. Além do mais, as noites em que há ensaio costumam terminar no bar da povoação. Esta era a minha passagem preferida da definição que no livro se fazia de um conceito que eu, agora, via aplicado da forma mais perfeita, juntando a voz, o gesto, a música, a poesia, a escrita da ficção, o registo da realidade e o subversivo dever que tem a arte de fazer uma grande algazarra nas consciências do público, fazendo-as sacudir, também elas, como sinos.
O campanólogo responsável foi Pedro Lamares, poeta, diseur e ator, pela segunda vez chamado a desenvolver trabalho de construção ao redor da palavra poética com a comunidade de leitores da Maratona da Sertã. Idealizou o projeto, integrando-o no tema do Amor, escolhido para esta edição do festival, plantou uma semente como ponto de partida e foi montando a apresentação que agora se estreava, peça por peça, texto, gesto, voz. O trabalho contou com a participação de vários outros campanólogos, reunidos num grupo heterogéneo, oriundo de diferentes faixas etárias, atividades profissionais, realidades e contextos sociais, um grupo transformado em trupe ao longo de sete dias de ensaios e colaboração na oficina de palavras, abrigado no Salão Nobre do Clube da Sertã.
“A invenção do amor”, era esse o nome do espetáculo – ou recital ou manifesto –, tomando de empréstimo o título de um livro publicado em 1961, assinado pelo poeta cabo-verdiano Daniel Filipe (1925-1964), um combatente e um perseguido da ditadura do Estado Novo. Um livro que fala do carácter de urgência da escolha e da invenção desse amor, assumido como gesto revolucionário aqui e hoje, tal como nesse livro de há 65 anos, em que se conta da perseguição levada a cabo para que a contaminação do amor não acorde a tolerância no coração das pessoas. A este trabalho de Daniel Filipe, vieram juntar-se poemas de Sophia de Mello Breyner, um excerto do romance “1984” de George Orwell, e um número considerável de notícias e declarações públicas, todas rigorosamente creditadas, datadas e referenciadas na sua fonte de publicação, construindo-se um corpo dramatúrgico com uma mensagem poderosíssima, pensada também na vertente de encenação e da interpretação.
Os sinos ribombaram e houve muita coisa importante a ler-se e a escutar-se na quase uma hora de espetáculo – ou recital ou manifesto – que resultou das quase vinte horas de oficina e ensaio. Ler é recriação e efervescência mental, escreve, a certa altura, Irene Valejo no seu “Manifesto pela leitura”. E sim, vivemos em tempos em que urge apoiar as pessoas que acreditam, constroem e expandem os nossos sonhos, diz ainda Irene Valejo concordando com o carácter de urgência que o poeta Daniel Filipe entrega ao amor. Que perigo, o que seria essa contaminação distópica de empatia, humanidade e afeto? pergunta ironicamente Pedro Lamares, sem intenção de nos dar a resposta já feita, pretendendo talvez a muito mais complexa tarefa de despertar em cada um de nós a arte de tocar sinos, através da exposição a um espetáculo – ou recital ou manifesto – definido por ele próprio como perigoso e potencialmente contagioso.
Entre poesia, ficção e realidade, entre os textos que a trupe de campanólogos reuniu, falou-se de desinformação e de discursos de ódio; de manipulação e de pensamento livre; de racismo, de xenofobia, de abertura e de compreensão; de desigualdade e de injustiça; de violência perpetrada contra as franjas mais vulneráveis e marginalizadas da sociedade e de responsabilização cívica. Falou-se da condição feminina e de migração; de liberdade e de esperança; de futuro e de justiça. A poesia de permeio com a revolta, os factos a empurrar à necessidade de agir, a arte como ferramenta de intervenção em mensagem sonante e inequívoca, inquestionável, também, porque rigorosamente ancorada no domínio da verdade.
Quem pensou – como eu, talvez – que assistiria a mais um belíssimo recital poético, depressa se desenganou, rendendo o corpo e a cabeça a uma implacável tareia de poesia, sim, mas também de humanidade, de intervenção com carácter de urgência ao redor de cada um, de apelo à defesa dos valores humanos fundamentais, ao fincar dos pés e à guarda intransigente dessa linha de justiça e de verdade.
Quem não esteve lá, pode – eu diria que deve – ainda ver e escutar porque a Maratona de Leitura é filmada e integralmente partilhada online, prolongando o eco e o efeito potencialmente contagioso desta instalação artística nascida da mais poética campanologia. Fica só a perder a alegria da partilha que vem depois de terminar o espetáculo – ou recital ou manifesto –, quando público e campanólogos se reúnem, finalmente, no bar da povoação.
Da fotografia © Vitorino Coragem




