Eurostat revela que a UE gerou cerca de 58 milhões de toneladas de desperdício alimentar num único ano. Famílias são responsáveis por mais de metade do desperdício
Redação |
No Dia Internacional de Consciencialização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos, o Eurostat revelou que cada habitante da UE gerou, em média, 129 kg de desperdício alimentar em 2024. O setor doméstico liderou este volume, com as famílias a responderem por 69 kg por pessoa, representando mais de metade do total desperdiçado.
Em Portugal, o volume total de desperdício alimentar atingiu 1,820.452 toneladas, sendo as famílias e domicílios responsáveis por 1,185.536 toneladas, o que equivale a 65% de todo o desperdício registado no país.
O comércio a retalho e a distribuição de alimentos responde por 235.933 toneladas (13%), seguido pelos restaurantes e serviços de alimentação com 206.535 (mais de 11%). Por fim, a produção primária gerou 12.212 toneladas (7%), enquanto o setor de processamento e fabrico contabilizou 65.236 (3,6%).
Hábitos e dados na União Europeia
O volume total de desperdício alimentar na UE atingiu cerca de 58 milhões de toneladas, sendo a maior parcela gerada no âmbito doméstico, onde as famílias e domicílios somaram 31 milhões de toneladas (53%).
O restante do desperdício dividiu-se ao longo da cadeia de produção e distribuição. A indústria de fabrico de produtos alimentares e bebidas contribuiu com 25 kg por habitante, enquanto o setor de restaurantes e serviços de alimentação gerou 15 kg. Por fim, a produção primária e o comércio a retalho – juntamente com outras formas de distribuição – responderam por 10 kg cada.
Ao longo dos restantes setores da cadeia de abastecimento, o processamento e fabrico de alimentos registou 11,3 milhões de toneladas (19,5%), seguido pelos restaurantes e serviços de alimentação, com 6,7 milhões de toneladas (11,5%). Por fim, o comércio a retalho e outra distribuição de alimentos respondeu por cerca de 4,6 (8%), enquanto a produção primária gerou 4,2 milhões de toneladas (7%).
No conjunto da União Europeia, o desperdício alimentar atinge cerca de 57.900 000 toneladas. Dentro deste montante, a Alemanha lidera o ranking com 10,930.971 toneladas (19% do total europeu), seguida de perto pela França, que regista 9,997.000 toneladas (17%). A Itália ocupa a terceira posição ao gerar 8, 087.882 (14%), a Polónia surge em quarto lugar com 4,758.339 (8%) Por fim, a Espanha fecha este grupo dos cinco maiores produtores de desperdício com 2,624.926 toneladas (4,5%) do total da UE.
Respostas cívicas: recolhas e distribuição solidária e sustentável
Ao abrigo do aumento da consciência social, vão surgindo diversas iniciativas cívicas, públicas e privadas que procuram dar respostas ao problema do desperdício alimentar. Em Portugal, a Refood destaca-se como um dos principais exemplos desta dinâmica, funcionando através de centros locais mantidos por voluntários que recolhem alimentos excedentes em estabelecimentos comerciais e os distribuem por pessoas em situação de necessidade.
A Refood conta com 69 núcleos ativos, onde 8.166 voluntários colaboram diretamente com 1.240 fontes de alimentos fornecedoras, conseguindo apoiar um total de 12.780 beneficiários. Esta estrutura permite resgatar 5.000 toneladas de alimentos por ano, o que se traduz na distribuição de cerca de 4 milhões de refeições.
A cooperativa Fruta Feia exemplifica este esforço ao comercializar cabazes semanais de fruta e legumes que os supermercados tradicionais recusam devido a padrões puramente estéticos, ligando agricultores e consumidores na construção de um modelo de consumo mais consciente.
O impacto acumulado do projeto reflete-se na sua equação de integração e nos correspondentes indicadores ambientais. A articulação entre 405 produtores, 21 delegações e 12.776 consumidores permitiu evitar até à data o desperdício de 8 564 toneladas de alimentos. Este volume resgatado traduz-se na valorização de 9,397.605 m3 de água, no aproveitamento de 202 hectares de solo e na poupança de 12,278.143 quilowatts-hora de energia, resultando ainda na prevenção de 7.622 toneladas de emissões de CO2.
O Prato Certo atua na educação alimentar e na prevenção do desperdício doméstico. A iniciativa disponibiliza recursos práticos como o calendário de produtos da época, listas de produtores locais e orientações para uma alimentação sustentável. Com o apoio dos 16 municípios algarvios, instituições de ensino e saúde pública, o projeto já alcançou diretamente mais de 2.268 participantes em ações de capacitação e oficinas de culinária. Dirigido a impactar mais de 2.000 famílias da região, destaca-se pelas oficinas de aproveitamento integral dos alimentos, permitindo estimar uma redução entre 15% e 20% na fatura alimentar doméstica.
Na Galiza, os bancos de alimentos assumem um protagonismo central e um forte reconhecimento social no combate ao desperdício e na ajuda comunitária. O Banco de Alimentos de Vigo / Pontevedra destaca-se por ter resgatado 115.902 kg em supermercados no primeiro semestre de 2026, redistribuindo 664.843 kg de comida a mais de 20.000 pessoas vulneráveis, além de recuperar mais de 5.000 kg de produtos alimentares nos excedentes da feira internacional Conxemar.
O Banco de Alimentos Rias Altas, opera em cooperação com cerca de 39 supermercados colaboradores para a recolha de excedentes antes do fim do prazo de validade, mantendo uma capacidade de mobilização próxima das 200 toneladas de alimentos por campanha.
Por sua vez, o grupo de distribuição alimentar Vegalsa-Eroski anunciou que salvou mais de 6.500 toneladas de alimentos do desperdício no primeiro semestre de 2026 nos seus estabelecimentos na Galiza e regiões vizinhas. Do total recuperado, 5.223 toneladas foram direcionadas diretamente para consumo humano — através de doações e de vendas com desconto por proximidade da data de validade —, o que equivale a 20,8 milhões de refeições e permite alimentar cerca de 11.397 famílias durante seis meses.
A empresa detalhou ainda que 145 toneladas foram doadas diretamente a entidades sociais e bancos de alimentos, enquanto as restantes 1.603 toneladas, não aptas para consumo humano, foram reencaminhadas para a produção de alimentação animal.
Imagem: Instituto Cidade Amiga – Brasil




