Deus hackeado

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Às vezes a minha atenção captura uma imagem de beleza, e quero tirar uma foto. Às vezes tiro e nunca mais a vejo. Às vezes, subo-a às redes. Às vezes descubro que a câmara frontal está ligada, e no ecrã tenho uma horrível perspectiva do meu papo. Às vezes tiro a foto, mas nunca compartilho com ninguém. Talvez haja mais gente a quem lhe passe, mas nunca saberemos, porque isto nunca se fala.

Durante a grande maioria da história da humanidade, o ser humano mal se viu como era fisicamente. O espelho é um invento relativamente recente, ainda muito mais a câmara fotográfica, agora já integrada no telemóvel. A água em calma refletia imagens, certo, mas a perspectiva costumava ser de baixo, igual que a minha câmara frontal, e imagino que nunca fosse favorecedora. O papo é sempre o papo. Só era pelos olhos dos demais que nos sabíamos feios ou bonitos. E no fundo ainda é. 

Mas mesmo nos casos mais extremos de feiura, estava sempre o olhar de deus. Ele não se preocupava (ou preocupa) pelo aspecto externo. A beleza estava no interior, e era precisamente lá que deus olhava. Ainda bem. Se fôssemos bons de palavra, pensamento e ação, ele devia gostar de nós. Nada nos garantia que os demais gostassem, mas algo é algo. Deus era a câmara frontal que via além da imagem, e sem filtros. 

Na tradição budista, olhar-se para dentro também é uma prática importante. A meditação é uma técnica de observação metódica, cujo objetivo é conhecer os componentes da individualidade. Precisamente a metáfora da água calma servia para falar do aquietamento da mente, para que pudesse refletir o que havia. Na observação, poderia conferir-se que todos os elementos da individualidade são tremendamente instáveis, e que nenhum deles, nem o seu conjunto, pode constituir um sujeito substancial. Dessa maneira, a individualidade é descoberta como fictícia. E nalgumas tradições entende-se ainda mais: que somos na verdade uma rede de consciências luminosas. 

Isto nada tem que ver com a perspectiva (talvez possamos dizer que zenital) das religiões teístas. No cristianismo, por exemplo, acredita-se na existência da alma, uma essência de si, imaterial e divina, que cada pessoa deve conservar como um tesouro, para entregá-la ao criador no momento da morte. Hineni, “estou aqui”, diz a alma ao seu deus quando se entrega, segundo a tradição hebraica. E na verdade é isso, talvez, o mais básico e importante que uma pessoa pode comunicar, a deus ou a quem quer que seja. Tão importante é sabermo-nos acompanhados. 

A ideia de um deus omnipresente também é companhia, mas sabermo-nos rede não é menos. Na solidão, o crente podia ter deus, e o budista todos os seres do mundo. Agora, temos o telemóvel, e as redes sociais. São praticamente omnipresentes. Se não forem omniscientes, pelo menos sabem de nós muito mais que nós mesmes. E também carregam, como deus, um olhar que interiorizamos e é profundamente moralizante. Mas com que valores? 

O sufrágio universal baseia-se na crença no indivíduo como unidade básica de decisão. O voto é individual, o resultado colectivo. Mas a individualidade é instável, condicionada por milhares de fatores. Eu, porque medito, sei, mas no fundo todes sabem. É na maneira como procura integrar-se no colectivo que o indivíduo se define e cria a imagem de si, e isso condiciona a possibilidade de decidir. Quem consegue mediar nesse processo tem um poder imenso, nas redes sociais e em qualquer comunidade, sem ir mais longe nas religiosas. 

Entretanto, o telefone vibrou. Resposta a uma fotografia? Hineni, disse o simples gesto de abrir a notificação no aplicativo. A atenção foi entregue a um algoritmo: diz que foi Lula que venceu. E isto faz-me pensar que uma rede de almas luminosas vergou a rede das luzes dos telemóveis. No “Exército do Lula”, do Janones, e na mobilização histórica na Paulista, cada indivíduo deixou-se ver por outros indivíduos. O papo tornou-se imagem de beleza. Estamos aqui. Mas por quanto tempo?

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