Se eu dissesse que Inês de Castro tinha bufas grandes

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Se eu dissesse que Inês de Castro tinha bufas grandes (mas eu não disse, e se quem lê o ouviu, lá saberá porquê), todo o mundo perceberia que estou a fazer uma afirmação obscena. Algumas pessoas talvez sorrissem, achando piada por adiantado, reconhecendo o tom de quem vai respeitar pouco as normas ou as convenções sociais. E, na verdade, não se enganaria. Mas algumas pessoas talvez não soubessem quem foi Inês de Castro, então não perceberiam até que ponto a afirmação é infame. Ainda bem que, como vocês bem ouviram, eu não a disse.

Qualquer pessoa do mundo que conheça a história de Pedro e Inês sabe que ela dá forma narrativa e popularizou uma visão do amor idealizado. Algumas poucas poderiam dizer que nela se nota já um ideal amatório, continuado durante a história ocidental, até chegar a identificar o que significa hoje em dia a palavra romântico em todas as suas dimensões. Uma leitura feminista do mito sabe reconhecer em Pedro e Inês os estereótipos do perverso amor romântico. Inês é apenas uma personagem passiva, cujo único pecado, amar e ser amada, a vai levar à morte. E para quem ligue menos a essas coisas, a de Pedro e Inês será só uma belíssima história, a par de Romeu e Julieta, ou Tristão e Iseu. E seria um personagem dessa história que teria bufas grandes: irreverente.  

Nos países de língua portuguesa, trata-se de uma história bem conhecida. É-o especialmente em Portugal, onde só algumas pessoas com baixa exposição à cultura nacional poderão ignorá-la. Algumas até terão ouvido que era uma nobre galega. Sabem que é um episódio importante da história do país, que é uma das mais belas histórias de amor, e Inês é pouco menos que um ser angelical. A frase sobre as suas bufas andará entre o pecado e o insulto nacional.

Mas na Galiza, quase ninguém sabe quem foi Inês de Castro. Ninguém lhes disse (nem mesmo eu, nestas linhas), e assim mal podem imaginar como eram as suas bufas. Só mesmo pessoas com um certo interesse sabem. E, nesse caso,  é possível que cheguem mesmo a conhecer a existência de Joana de Castro, filha legítima do Conde de Lemos, de quem era bastarda Dona Inês. E talvez saibam que Dona Joana foi casada em condições estranhas com o Rei de Castela, e posteriormente repudiada, numa história estranhamente paralela para estarmos a falar de duas irmãs. 

Inês foi rainha depois de morta, e por isso os seus filhos aspiraram ao trono de Portugal, igual que o filho de Joana reclamou do de Castela. Dando-se as circunstâncias, não era impossível imaginar dois reinos unificados num matrimónio de primos galegos. Mas o sistema educativo nem permite que a população da Galiza conheça um dos mitos românticos mais importantes da Europa, que lhes é mais do que próprio. A frase sobre as bufas é obscena, mas esta ignorância é capaz de ser mais.

Até tal ponto podem diferir as implicações da frase de que Inês de Castro tinha bufas grandes, só porque o sujeito tem significados muito diferentes. E existe ainda mais alguma coisa: na nossa língua, bufa é geralmente um tipo de ventosidade, e também na Galiza. O peido é sonoro e evidente, enquanto a bufa é silenciosa e letal. Mas deste lado do Minho, pela presença maciça do castelhano informal, ouvindo a palavra bufas, uma pessoa pensaria antes nas mamas da nobre galega, o que sem dúvida mereceria também uma crítica feminista. Como estão a ver, a frase teria sido mesmo irreverente em todos os casos. Ainda bem que não a disse. Ah, a letra escrita! Ah, as bufas silenciosas!


Imagem: A Súplica de Inês de Castro (Eugénie Servières) adaptado pelo autor

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