Três aldeias dentro de uma sala

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Durante muitos anos, três aldeias couberam numa escola.

Caniçó, Linharelhos e Paredes construíram-na há cerca de meio século, num Portugal em que aprender a ler ainda podia depender dos quilómetros, do inverno e da vontade coletiva. O Estado decretava a escolaridade. As aldeias tratavam, por vezes, de levantar as paredes.

Em 1970, um em cada quatro portugueses não sabia ler nem escrever. No interior, uma escola era uma alteração profunda na ordem das coisas. Pela primeira vez, os filhos podiam saber mais do que os pais sem terem de negar aquilo que os pais sabiam.

Ali aprenderam-se as letras, mas também a estar com os outros. A esperar pela vez. A dividir o banco. A perceber que a criança da aldeia vizinha tinha o mesmo frio, a mesma tabuada e provavelmente a mesma merenda.

Depois faltaram crianças.

Fechar uma escola é sempre um assunto maior do que fechar um edifício. Significa que deixou de haver gente suficiente para garantir a sua função original. E uma porta fechada no centro de uma aldeia acaba por ensinar uma matéria que ninguém escolheu: a perda.

A antiga escola de Caniçó foi agora requalificada. Já não voltará a ser escola. Volta a ser necessária.

Será um espaço comunitário para acolher as populações das três aldeias que a edificaram. Mudou a função, permaneceu o princípio: ninguém constrói comunidade sozinho.

E percebeu-se quando é preciso devolver utilidade ao que já existe. Recuperar esta escola é recusar que um edifício público termine transformado num arquivo do despovoamento.

A obra devolveu condições. O sentido será dado pelas pessoas.

Naquelas salas já não se ensinará a tabuada. Poderão realizar-se encontros, atividades e conversas. Haverá decisões, divergências, aniversários, dúvidas e cadeiras ocupadas por quem já ali se sentou com poucos anos. É provável que continuem a aprender. A comunidade tem matérias para as quais nunca houve manual.

Há cerca de cinquenta anos, Caniçó, Linharelhos e Paredes juntaram-se para construir uma escola para os filhos. Hoje voltam a recebê-la para todos.

Talvez as políticas públicas ganhem humanidade quando compreendem isto: servir uma população não consiste sempre em trazer alguma coisa de fora. Por vezes, basta devolver-lhe, em boas condições, aquilo que ela própria construiu.

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