Não é preciso sermos académicos para sabermos todos como andamos a viver a toque de caixa. É o imposto do nosso tempo, do qual quase ninguém está isento.
Paga-se, e bem, com o corpo e com a cabeça. Não é por acaso que a ideia da sociedade do cansaço, do filósofo Byung-Chul Han, tem tido tanta saída…
Termos como “produtividade” invadiram a esfera científica como invadiram as restantes, transformando o quotidiano dos investigadores em constantes contas a prestar, que normalmente não prestam para nada. A produção científica entrou num tal frenesim que, hoje, a ciência sofre do mesmo mal da sociedade: o ruído. Claro que, sendo eu parte do sistema, sou também parte do problema. Produzir, produzir, tornou-se sinónimo da carreira na qual se corre. Resta perguntar, correr para quê?
A investigação faz-se de ideias. Deveria fazer-se, por isso, de uma minuciosa analítica dessas ideias, a partir de todos os ângulos possíveis. Uma ideia precisa sempre do teste do tempo, simplesmente, para ver se lhe consegue resistir. Só que, o tempo curto em que vivemos, o tal tempo do toque de caixa, não é bom, nem para as ideias nem, muito menos, para a sua analítica. O resultado é vivermos, também os investigadores, afogados numa ciência em que as eurekas de outrora, aquelas ideias que nos assombravam e estimulavam o pensamento, foram substituídas pela confusão do ruído, para a qual apenas elaboramos planos de sobrevivência. Às vezes, mas só às vezes, lá descobrimos que fomos salvos pelo instinto.
Não deixo de notar que, quando fazia jornalismo (ou tentava), não eram poucas as vezes em que, frustrado, desabafava a frase mais ouvida nas actuais redacções: “isto não é jornalismo”. O frenesim da produtividade científica também tem muito pouco a ver com ciência. Isto já não é pensar o novo, isto é só, no máximo, pensar o mesmo. Vivemos, pois, encurralados, numa capsula que, dando-nos a ilusão da velocidade, nos deixa atónitos, no mesmo sítio. Deixa-nos, portanto, piores do que estávamos.
Quebrar o imobilismo da aceleração infinita torna-se, pois, um acto de resistência. A tarefa não é fácil, mas, tal como os jornalistas que ainda resistem à prescrição de só produzirem comunicação, há igualmente momentos em que as ideias resistem ao seu desgaste pela máquina que as mutila à nascença, num artigo que é só mais um. A ideia que resultou na comemoração que aqui partilho, andou comigo assim, durante anos, resistindo a um parto precoce.
Foi analisada. Pensada. Foi deixada adormecer. Até que, um dia, despertou.
Estava, pelos vistos, pronta a abraçar o mundo.






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