Cães de peluche

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Um monge perguntou ao mestre Zhaozhou: “Um cão tem a natureza de Buda?” (…)

Koan Mu

Os cães não são ursinhos de peluche. São animais, movidos por instintos, e as categorias humanas, a nossa forma específica de compreender o mundo, nada lhes diz respeito. Às vezes é preciso lembrá-lo. De facto, acabei de lembrá-lo à Rita, a minha cadela, depois de me vir pedir mais festinhas, pela centésima vez no dia. Ela ficou a olhar para mim, inclinando para um lado a cabeça. Parece evidente que não percebeu o que lhe disse, mas as suas pupilas focaram-me com interesse e tristeza. Diria que não compreendeu, mas ela bem que queria. E impressiona-me a expressividade desses olhos, e dos movimentos tão simples de pescoço. 

Havia, há anos, um boneco de cão que se colocava na chapeleira do carro. Lembro aquela figura com um ar divertido. Quando eu era novo, aquilo já era velho, mas tinha a graça de mover a cabeça, consoante a inércia do carro, as viragens, a vibração, os trambolhões. O mecanismo era uma simples alavanca: a cabeça nascia de um grande cilindro ou vara introduzido no corpo vazio do boneco e, no outro extremo, tinha um peso. Tudo estava pendurado de um pequeno gancho à altura do pescoço, do qual sobressaía a cabeça canina. Evidentemente, não existia ali nenhum cão a mover a cabeça, mas era por isso que aquilo tinha graça: não havia cão, mas nós éramos capazes de vê-lo, e até se movia.

Descartes defendia um modelo maquinista para compreender os animais. O relógio era a grande maquinaria do seu tempo, e havia tal fascinação por ele que passou a constituir um paradigma. Havia lá uma coisa, toda ferros, cadeias, pesos, que funcionava de maneira quase autónoma. Era questão de tempo (desculpem o trocadilho) que se acabasse por fazer analogia com os seres vivos. E assim, não sei se por primeira vez, a vida foi conceitualizada como um mecanismo. 

A perspectiva cartesiana sobre os animais tem sido amplamente rejeitada pelo pensamento moderno, mas a visão da vida como mecanismo parece ter ganhado cada vez mais força. Agora os seres humanos somos química, ou mecanismos psicológicos, ou peças de uma engrenagem social, a própria natureza foi entendida como uma espécie de maquinaria interdependente e estável, no conceito de ecossistema, e até há quem acredite que o mercado obedece a leis naturais. Descartes situava o homem fora da natureza, mas agora sabemos que somos parte dela. E, no entanto, continuamos a ver-nos, cada vez mais, fora, porque é esse o ponto de vista necessário para pensar que a natureza é alguma coisa por si própria. Quanto mais falamos da natureza como um todo, mais longe dela nos situamos.

A maneira como é construído esse conceito de natureza é reflexo da maneira em que desejamos relacionar-nos com ela. Poderá ser alguma coisa para preservar, ou alguma coisa para explorar, ou alguma coisa em que devemos integrar-nos, ou que devemos integrar em nós. E nessa definição, que poderá ser construída com diversos valores, estamos no fundo a definir quem somos. Por isso os mecanismos de definição respondem, no fundo, aos movimentos do entorno, mas tendo como fulcro o peso que cada pessoa leva dentro. Igual que o cão do carro. 

Há quem pense que a natureza não passa de recursos para a nossa existência, e a indagação do conceito de ecossistema, por mais dinâmico que ele seja, permite-lhe distinguir funções, como num mecanismo qualquer. Se alguém lhes fala de direitos animais, ou distingue na natureza traços humanos, bem poderia virar a cabeça com cara de incompreensão ou pasmo. Por sorte ou por azar, eu aprendi com a Rita a sentir ternura perante esse tipo de gestos. E por sinal, ela volta a perdir-me miminhos.

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