No Norte, o médico ainda é da família

   Tempo de leitura: 4 minutos

Há estatísticas que precisam de explicação. Esta precisa, antes de tudo, de ser reconhecida: o Norte tem a maior cobertura de médico de família do país.

A 24 de agosto, 98% dos utentes elegíveis da região Norte tinham médico atribuído. O Centro apresentava uma cobertura de 95%, o Alentejo de 83%, o Algarve de 80% e Lisboa e Vale do Tejo de 74%.

Desta vez, o Norte está em primeiro lugar numa área que interfere diretamente com a vida das pessoas.

Em Montalegre, toda a gente que reúne as condições previstas pode ter médico de família. Num concelho onde uma parte significativa da população é idosa, este dado tem um valor muito concreto. O médico de família acompanha doenças crónicas, prescreve exames, renova medicação, orienta o utente dentro do Serviço Nacional de Saúde e ajuda a evitar idas desnecessárias às urgências.

É o médico a quem se recorre quando a tensão arterial deixa de obedecer, quando a diabetes exige vigilância ou quando uma dor começa a durar mais do que o bom senso aconselha.

Chama-se médico de família porque, muitas vezes, acaba por conhecer a família. Não por intimidade, mas por continuidade. Conhece os antecedentes, os tratamentos anteriores e as doenças que atravessam gerações. Essa informação poupa tempo, evita repetições e permite tomar decisões clínicas mais informadas.

A dimensão nacional mostra, contudo, um país muito desigual. O Serviço Nacional de Saúde tinha 10.769.099 utentes inscritos nos cuidados de saúde primários. Destes, 10.599.255 reuniam as condições para receber médico de família. Tinham médico atribuído 9.234.694. Continuavam à espera 1.364.561, o equivalente a 13% dos utentes elegíveis. A cobertura nacional situava-se nos 87%, segundo os dados divulgados pela Administração Central do Sistema de Saúde.

A diferença entre o Norte, com 98%, e Lisboa e Vale do Tejo, com 74%, é de 24 pontos percentuais. Não se trata de uma diferença pequena nem de uma curiosidade estatística. Significa que o lugar onde se vive continua a influenciar o acesso aos cuidados de saúde primários.

Os números agora conhecidos resultam de uma atualização do Registo Nacional de Utentes. O sistema passou a distinguir melhor quem está inscrito, quem reside efetivamente no país e quem reúne as condições para ter médico de família. Entre os inscritos considerados não elegíveis estão pessoas sem título de residência, utentes sem contacto com o SNS nos últimos cinco anos e cidadãos que manifestaram a opção de não ter médico atribuído.

Isto significa que a taxa de cobertura deve ser lida sobre o universo dos utentes elegíveis. Significa também que os números atuais não podem ser comparados de forma direta com todas as estatísticas anteriores, porque mudaram as regras da contagem.

Feita esta explicação, o essencial permanece: o Norte lidera o país.

É um resultado importante para uma região que enfrenta dificuldades conhecidas na fixação de profissionais. No interior, contratar um médico não resolve automaticamente o problema. É preciso criar condições para que permaneça, organize a sua vida e construa uma relação continuada com os utentes.

Montalegre conhece bem esta preocupação. O envelhecimento dos profissionais e a possibilidade de reformas levaram a criar incentivos para a fixação de especialistas em Medicina Geral e Familiar. A cobertura atual deve, por isso, ser entendida como uma realidade que exige planeamento. Um médico atribuído hoje pode deixar uma lista sem resposta amanhã, caso saia e não seja substituído.

Talvez seja essa a principal lição dos 98%. Uma boa cobertura não é um assunto encerrado. É um trabalho que tem de ser mantido.

No Norte, quase todos os utentes elegíveis têm médico de família. Em Montalegre, todos podem ter acesso a esse acompanhamento. Num país com mais de 1,3 milhões de pessoas ainda à espera, é um resultado que merece ser dito com clareza.

Sem triunfalismos, mas também sem a velha tendência de considerar normal tudo aquilo que funciona.

Às vezes, uma das melhores notícias é precisamente esta: marcar uma consulta e saber quem estará do outro lado.

Share