A Internacional Nacionalista

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Há qualquer coisa de enternecedor num nacionalista português a festejar a vitória de um nacionalista alemão.

É quase uma Internacional Nacionalista. O nome tem um pequeno problema lógico, mas não sejamos picuinhas. Se conseguimos ter influencers que recomendam livros que não leram, também podemos ter uma internacional de pessoas que defendem que cada país deve preocupar-se exclusivamente consigo próprio.

A dificuldade começa depois. Porque o nacionalista alemão não acha que Portugal deve estar primeiro. A pista está, aliás, na palavra “alemão”. Ele acha que a Alemanha deve estar primeiro. O francês acha que deve ser a França. O holandês, os Países Baixos. O austríaco, a Áustria. E o português, naturalmente, Portugal.

O problema é quando se juntam todos para celebrar o muito que têm em comum. É uma confraternização de pessoas que concordam entusiasticamente que os outros devem ficar para trás.

Não sei se dá para construir uma família política europeia assim, mas deve proporcionar jantares interessantes. Sobretudo quando chegar a conta e for preciso decidir quem paga primeiro.

Em Portugal habituámo-nos, entretanto, ao “Portugal primeiro”, tradução pouco imaginativa de outros “primeiro” que circulam pela Europa e afins. E há portugueses que rejubilam quando partidos nacionalistas crescem na Alemanha, em França, nos Países Baixos ou na Áustria. Celebram cada vitória como se estivesse em curso uma espécie de campeonato europeu e todos jogassem pela mesma equipa.

Só que não jogam. Talvez valesse a pena explicar-lhes uma coisa. Quando um desses partidos diz “os nossos primeiro”, nós somos os outros. Não é uma questão ideológica particularmente sofisticada. É gramática.

Aliás, se todos forem realmente coerentes com o princípio de colocar os seus cidadãos primeiro, a grande aliança internacional nacionalista tem um problema de funcionamento. Todos querem ser primeiros e ninguém parece particularmente interessado em ser segundo. É uma fila onde cada pessoa exige estar à frente. E nós até devíamos perceber isto melhor do que muitos.

Durante décadas atravessámos fronteiras à procura da vida que Portugal não conseguia dar-nos. Fomos para França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Bélgica. Uns de comboio, outros a salto. Trabalhámos nas obras, nas fábricas, nas limpezas, nos hotéis, nas minas. Vivemos em quartos sobrelotados e bidonvilles. Mandámos dinheiro para casa e construímos aqui casas onde, durante muitos anos, só entrávamos em Agosto.

Não é uma história remota, escondida nos manuais. É suficientemente recente para estar nos álbuns de família. Em muitas casas portuguesas ainda existem fotografias diante de um automóvel com matrícula francesa, postais enviados de Paris, envelopes com dinheiro e histórias de viagens intermináveis feitas para regressar à terra no Verão.

Portugal foi durante muito tempo um país que exportava aquilo que hoje alguns parecem considerar um problema quando o importamos: pessoas à procura de uma vida melhor. Mas a memória é uma coisa extraordinária. Às vezes bastam duas gerações e uma companhia aérea low cost para um povo de emigrantes começar a falar de imigrantes como se nunca tivesse feito uma mala.

E regressam as palavras. “Invasão.” “Vêm tirar-nos o trabalho.” “Aceitam salários mais baixos.” “Não respeitam os nossos costumes.” “São demasiados.” “Não são como nós.” “Estão a mudar o país.”

Nem sequer é necessário inventar argumentos novos. O nacionalismo, além de muitas outras coisas, é bastante sustentável: recicla. Mudam-se os protagonistas e conserva-se o texto.

Há ainda uma habilidade linguística que ajuda bastante. Quando um português vai trabalhar para Londres, Paris ou Berlim, é cada vez mais frequente ser um “expatriado”. Quando um brasileiro, um cabo-verdiano, um angolano, um indiano ou um nepalês vem trabalhar para Portugal, é um “imigrante”.

A geografia é a mesma: alguém saiu do seu país e foi viver para outro. Mas as palavras tratam logo de estabelecer a classe executiva e a económica da mobilidade humana.

Talvez por isso me faça alguma confusão ver portugueses entusiasmados com forças políticas europeias que fizeram da hostilidade à imigração uma parte importante da sua identidade. Não porque seja proibido concordar com elas. Cada um escolhe as suas companhias. Mas convém perceber o lugar que nos reservam à mesa. Sobretudo porque centenas de milhares de portugueses continuam hoje a viver fora de Portugal. São médicos, investigadores, trabalhadores da construção civil, enfermeiros, empregados de mesa, professores, engenheiros, cuidadores. Alguns têm salários elevados. Outros fazem precisamente os trabalhos que, nesses países, também se diz que “os estrangeiros vieram roubar”.

Emigrantes, portanto. Ou “expatriados”, quando queremos que a palavra pareça ter frequentado a universidade.

E quando um nacionalista desses países exige habitação primeiro para os seus, empregos primeiro para os seus, apoios sociais primeiro para os seus e escolas primeiro para os seus, talvez os nossos nacionalistas devessem fazer uma pergunta antes de abrir o champanhe: quem são exactamente “os seus”? Porque dificilmente somos nós. E aqui a coisa deixa de ser apenas divertida.

A Europa foi construída, com todas as suas contradições e insuficiências, precisamente a partir da ideia de que talvez fosse conveniente substituir uma parte da competição entre nacionalismos por alguma coisa que se parecesse com cooperação. Não por súbito romantismo. Também porque o continente tinha adquirido alguma experiência sobre aquilo que acontece quando cada nação decide que os seus interesses, a sua identidade e o seu povo são incomparavelmente mais importantes do que os dos vizinhos.

A memória europeia também parece ter prazo de validade. Por isso, quando vejo nacionalistas portugueses exultantes com o avanço de nacionalistas noutros países, fico sempre sem perceber exactamente o que festejam.

Talvez imaginem que existe uma solidariedade automática entre todos os que querem fechar portas. Que o alemão que quer menos estrangeiros fará uma pequena excepção para o português. Que o francês que exige “os franceses primeiro” acrescentará discretamente, em letra pequena, “e os portugueses também, porque são boa gente”. Que as fronteiras defendidas pelos outros terão uma portinhola lateral especialmente reservada para nós.

É possível. Mas eu não apostaria muito nisso. O mecanismo do nacionalismo é bastante simples. O estrangeiro é sempre o outro enquanto estamos do lado de cá da fronteira. Depois atravessamo-la. E, subitamente, o estrangeiro somos nós. Talvez fosse útil lembrarmo-nos disso antes de festejarmos quem promete pôr-nos em segundo lugar. Mesmo que o faça na nossa língua ideológica.


Fotografia: Sérgio Aires

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