A última vitória de Heitor

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Eu também fui ver o último filme de Christopher Nolan. A sua versão da Odisseia foi provavelmente o grande sucesso dos cinemas este ano, e não me foi alheio. Mas eu, ainda por cima, tinha na prateleira de leituras dois livros pendentes, que também li durante as férias: Circe ou o pracer do azul, de Begonha Caamanho, e Ophiusa, de Samuel L. Pimenta. Em ambas obras, o próprio Ulisses é um personagem importante. Li com fruição, e afinal, passei um verão homérico. 

Contrariamente ao itaquiense Ulisses, eu estive a maior parte desse tempo em casa. Não vou negar que me movi um pouco: uns dias na Maratona de Leitura da Sertã, e uns outros poucos de descanso num destino que não direi. À parte isso, passei a maioria do tempo no meu domicílio, desfrutando da minha zona de conforto, que para isso está. Foram só os livros que me fizeram viajar a sério.

Também, nos últimos anos, tenho perdido o ânimo para fazer turismo. Já é inevitável padecê-lo em qualquer lugar, e não tenho ânimo para o auto-ódio. Ainda menos durante o tempo de descanso em que devia estar a espairecer, e nos lugares que devia desfrutar. E, perante tanta ansiedade que nos dão o trabalho e a vida, afinal é para isso que construímos os nossos lares: para ter conforto, emocional e material. E talvez seja precisamente Ulisses o personagem que melhor compreendeu isto. 

Há, no entanto, no filme de Nolan, como nas referidas obras de Caamanho e Pimenta, uma coisa que me chocou: Ulisses não é, como na tradição homérica, caracterizado como astuto. Em todas as obras, há referência ao facto de ele ter criado a estratégia do cavalo de Troia, mas também há, no fundo, alguma crítica implícita a tal estratagema indigno, causante de tanta dor. Em vez de astuto, Ulisses é um ser nobre, verdadeiro compêndio de virtudes, deixando à parte certos assuntos que não quero contar, para evitar o spoiler.  

A astúcia de Ulisses, a sua capacidade de usar a inteligência para vencer o oponente ou superar os conflitos, brilha praticamente pela sua ausência. Ele tem, no entanto, uma evidente vontade de paternar, já presente no original homérico, mas deliberadamente destacado, acho eu, nestas obras modernas. Inclusive, no caso da relação com a sua tripulação, os cuidados são norma, coisa também herdada da tradição, mas muito mais evidente agora. 

Vou dizê-lo mais claramente: estes Ulisses parecem, na verdade, Heitores. O príncipe de Troia, morto pelas mãos de Aquiles, era um nobre guerreiro, amante pai e esposo. Ele não causou o ataque à sua cidade, mas assumiu em primeira pessoa a defesa. Mesmo a sua ação na guerra é, no fundo, um ato de cuidado. Heitor é, em definitivo, a figura do pai: o único arquétipo masculino a que é permitido o acesso à ternura. E este personagem parece-se mais ao Ulisses moderno do que o Ulisses homérico. Na verdade, acho eu, todo o cinema de Hollywood parece ter adoptado Heitor como modelo heroico. 

O escritor e psicanalista Luigi Zoja analisa no seu livro Il gesto di Ettore. Preistoria, storia, attualità e scomparsa del padre, a maneira como o arquétipo do pai cobra vida pela figura de Heitor (e como este arquétipo decai na posterior história do Ocidente). Ele chama a atenção para uma cena concreta, no canto sexto da Ilíada, em que, no meio da batalha, o herói troiano volta a entrar nos muros da cidade. Depois de ter rejeitado os cuidados que a sua mãe lhe oferece, dirige-se à sua própria casa, para encontrar Andrómaca, a sua esposa, acompanhada do bebé de ambos, Astíanax. Num memorável diálogo, Heitor reitera o seu compromisso de morrer antes de ver a sua família escravizada, morta e desonrada. E então acontece o caso mais simbólico da história: Heitor deseja abraçar o seu filho, mas não pode, porque o elmo que veste faz com que Astíanax não o reconheça, e tenha medo dele. E cito agora a tradução de Frederico Lourenço na Quetzal:

Então se riram o pai amado e a excelsa mãe:

e logo da cabeça tirou o elmo o glorioso Heitor,

e depô-lo, todo ele coruscante, no chão da casa.

De seguida beijou e abraçou o seu filho amado […]

Heitor pede então aos deuses que o seu filho cresça até superá-lo, a ele, o seu próprio pai e herói de Troia. É difícil imaginar um símbolo mais puro da ternura paterna, e também da sua natureza dupla: como guerreiro protetor, fora de casa, e como homem sensível e cuidador, dentro dela. Esse elmo simboliza a transição entre os dois mundos, o intervalo em que a figura do pai tinha sentido. Por isso, para Zoja, é Heitor, e não Aquiles, o verdadeiro herói da Ilíada. Eu não o tenho tão claro. 

Ocorre-me que talvez a Ilíada esteja a falar-nos de duas guerras paralelas, e não só no Olimpo e em Troia. Talvez esteja a falar-nos da guerra dos campos de batalha, que só podem ser ganhas por guerreiros violentos como Aquiles, que nunca desfrutará da vitória, e de uma outra guerra, que só os valores ganham: a de constituir um exemplo de virtude, aquela que cabe ao arquétipo do pai. Acho que o facto de que Homero imortalize as duas figuras como modelos de comportamento nos diz muito sobre a duplicidade que constitui a figura paterna e, por extensão, sobre o conceito de patriarcado. E também acho que a ternura de Heitor nos devia fazer questionar o que queremos dizer quando utilizamos esse termo. Se calhar, é só na figura do pai que podemos beber para pensar naquilo a que chamamos novas masculinidades. E poderá o patriarcado ser ultrapassado sem elas? 

Mas, enfim, e em definitivo, o que queria dizer é que Ulisses, nos nossos tempos, já não é Ulisses. Eu próprio perdi a vontade de aventuras e de viagens que o antigo aqueu simbolizava, e eu adorava em criança. E, na minha opinião, é isso, e não outra coisa, que torna tanto o filme de Nolan, como os livros de Caamanho e Pimenta, adaptações duvidosas da tradição homérica. Mas, ao mesmo tempo, também é isso que as torna monumentos dignos de serem vistos e lidos: o triunfo da figura do pai sobre qualquer forma de herói. A última vitória de Heitor. E, decididamente, não a derradeira.


Fonte da imagem: wikipedia.org

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