O esteiro do Minho, fronteira ou passagem?

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Desde Camposancos até Caminha são apenas 4 quilómetros em linha reta através do rio Minho. Houve em tempos um Ferryboat que funcionava regularmente durante os meses de verão. Mas agora acabou. Existe o cais do lado galego, com uma cafetaria que acolhe, sobretudo, peregrinos que vão a caminho de Santiago. Também existe, em teoria, o Xacobeo Transfer Ferry & Taxi Boat, da Guarda (agência de excursões de barco).

Eu comprei um bilhete de ida desde Camposancos a Caminha para o dia 26 de agosto, seguindo a página web que se indicava no Google. Foi-me confirmado o meu pagamento de 9 € e lá fui até ao embarcadouro à espera do meu barco, que nunca chegou.

Perguntei no bar dos peregrinos e, fazendo um gesto de estranheza, disseram que não sabiam nada dessa empresa. Até parecia que não queriam falar: uma situação algo sinistra. Pensei nos romances de Agatha Christie e comecei a sentir-me irrequieta, perguntando a uns e a outros se sabiam algo dos barcos do Xacobeo Transfer. Entretanto, vi chegar um barco com gente e saí a perguntar. Mas tudo corria muito rapidamente e a lancha fazia manobras para partir depois de deixar a sua carga de pessoas. Parecia que todo o mundo sabia o que fazer, menos eu. Uns peregrinos desceram para o cais e, sem parar, continuaram a sua marcha. Gritei para o patrão do barco e ele respondeu-me que tinha pressa, pois ia recolher passageiros “mais para lá”. Eu estava em plena confusão. Não queria perder a oportunidade de ir até Caminha, ainda por cima depois de ter pago a passagem. Um homem entendido veio explicar-me que havia diferentes empresas para cruzar o esteiro. Falou aos gritos com o patrão para que me viesse buscar depois de fazer o serviço que o levava para jusante, em direção ao mar. De maneira que fiquei no cais à sua espera, sem ter a certeza de que voltaria por mim.

Mas o homem voltou e eu subi para um barquinho de 5 ou 6 metros, sozinha com o “capitão”, que apenas trocou comigo umas poucas palavras: — Ponha o colete. Sente-se aí (na proa). Não se mexa. Fique quieta. E zzzooom! Arrancou sobre as ondas da maré que entrava pela boca da ria do Minho. O barco enfiou para mar aberto e começou a dar saltos sobre as ondas com uma velocidade considerável. Eu fiquei com medo, porque os impactos da embarcação sobre as ondas me faziam saltar na borda. Agarrei uma corda que pendia da proa para me assegurar. A cada salto da barca e do meu rabo, eu dava um grito. Isso acalmava-me. O homem berrou-me para eu calar, mas eu não podia evitar: sou de Lugo, terra adentro, e não tenho o costume de andar no mar. Ele ia bem seguro, com a tranquilidade de quem faz esta passagem várias vezes ao dia. Perguntei-lhe o nome. Miguel, disse-me. De maneira que eu gritava: — Mais devagar, Miguel! E ele pedia para eu não gritar. Felizmente, a travessia durou pouco, uns dez ou quinze minutos. Aterramos na praia, no pinhal do Camarido. Lugar que adoro, por combinar o mar aberto típico das praias do Atlântico português com a calma da praia em concha da embocadura do Coura, orientada para a vila de Caminha.

Infelizmente, não era dia para praia, mas, felizmente, chegamos bem. O chefe estava à nossa espera e ainda demos umas gargalhadas, entre o nervoso e o alívio. O patrão queixou-se: — “Esta mulher veio a berrar o caminho todo!” Tudo acabou bem, como costuma ser em Portugal: sorrisos amáveis, mãos que ajudam, e um homem que estava lá ofereceu-se para me levar de boleia para Caminha (desde o pinhal há um bom trecho para ir a pé). Foi uma aventura amável, emocionante e, no final, divertida.

Fui perguntar na Capitania do porto sobre a volta e indicaram-me um bar onde vendiam os bilhetes para as barcas. Quis saber algo mais sobre aquela organização do transporte pelo rio. Atenderam-me bem e explicaram-me que as empresas solicitavam permissão para dispor de um ponto de arribada e de navegação, e eles concediam desde que cumprissem a normativa regulamentar. Nada sabiam de horários nem de frequências; apenas que tivessem as condições de segurança exigidas e as permissões de navegação e titulação requeridas para levar um barco daquele tamanho. Lá a coisa estava melhor organizada do que do lado galego.

Disseram-me que perguntasse por Matilde, uma moça loira, discreta e de falar baixinho. Eu também baixei a voz (por via das dúvidas…). Deu-me um número e indicou-me uma hora aproximada para a minha viagem. O Manuel, que controlava os passageiros, andava pelo meio a falar com uns e com outros. Falava todas as línguas do mundo (ou quase). O inglês pareceu-me impecável, o francês correto, e disse que sabia alemão e sei lá quantas línguas mais.

Nas barquinhas só podem ir até 6 pessoas, e ele organizava a passagem. Tive tempo para dar um passeio por Caminha, cidade que adoro. O mar estava calmo, não chovia e até deu para me tirarem uma foto cruzando o mar de volta para a Galiza.

Toda esta aventura tem a sua reflexão. Do lado “espanhol” não há resposta perante a suspensão de um transporte que tem muita procura, nomeadamente por parte dos peregrinos. O ferry “oficial” Camposancos–Caminha parou, e ninguém teve a iniciativa de aproveitar este negócio que, como é evidente, requer sacrifício. Do lado português, houve logo uma iniciativa que presta o serviço requerido. Algo de barulho, outro pouco de confusão, mas funciona. Eu cruzei os 4 quilómetros que separam Camposancos de Caminha, em vez de ter de fazer 55 km por estrada.

A cafetaria estava cheia de viajantes. O negócio era partilhado entre estes e os barcos. À volta desta havia várias lojas e o movimento de pessoas era incessante. Do lado de cá, só há uma cafetaria que parece depender do “Xacobeo”, onde ninguém aconselha nem orienta, e nem sequer falam galego. Cobraram-me 2 € por uma água! Quando perguntei pelo Xacobeo Transfer, olharam-se uns para os outros com cara de poker. Um “não sei” foi a única resposta.

Naquele lugar existem as ruínas do antigo Colégio dos Jesuítas de Camposancos. Nele, o Padre Merino fez o seu herbário da flora completa da Galiza, e também foi um dos campos de concentração mais numerosos durante os tempos escuros do franquismo, chegando a albergar mais de 260 mulheres. Algumas delas estavam grávidas e deram à luz em condições infra-humanas. Mais tarde, recuperado pelos jesuítas, foi residência de férias de estudantes do secundário.

O ambiente da arribada do lado “espanhol” é triste, decadente e inóspito à primeira vista. Mais adiante, campos de ténis e ambiente de luxo, falares castelhanos e veraneantes de alto nível.

Dá saudade do país que deixamos atrás: vital, amável, comunicativo, monumental, cuidado, cheio de iniciativas e de internacionalidade; orgulhoso da sua/nossa língua comum.

Senti pena pelo meu país, a Galiza, que nem sabe contar a sua própria história, nem conservar o seu património, nem ter uma reação imaginativa para dar um serviço demandado e popular, enquanto constrói pistas de ténis, residências exclusivas próprias para especulação e prioriza o castelhano. Dizia o Padre Sarmiento: “como gaios e papagaios”, imitando os colonizadores.

Algo teremos de fazer. Seguiremos tentando…

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