Primeiro foi o greenwashing. Depois o pinkwashing. O capitalismo tem uma imaginação inesgotável para descobrir causas que fiquem bem na fotografia. Desde que não obriguem a alterar o essencial: o modelo de negócio.
Agora temos uma nova modalidade: Greenwashing com depósito de dez cêntimos.
O princípio é de uma simplicidade admirável. Durante décadas, produziram-se milhões de toneladas de plástico descartável. Depois convenceram-nos de que o verdadeiro gesto ecológico consiste em devolver esse mesmo plástico ao sítio de onde nunca devia ter saído.
É quase uma forma de absolvição colectiva.
Compramos a bebida. Pagamos mais dez cêntimos. Levamos a garrafa para casa. Guardamo-la durante dias. Transportamo-la até uma máquina. Esperamos que a máquina esteja operacional. Esperamos que reconheça o código de barras. Esperamos que não tenha decidido entrar em greve precisamente quando chegámos.
Se tudo correr bem, recuperamos os dez cêntimos. É provavelmente a única caça ao tesouro em que o prémio já era nosso. Mas o detalhe mais delicioso é outro.
Quem lidera esta grande cruzada ambiental não é um organismo público nem uma entidade independente. São, precisamente, os maiores produtores de bebidas e os gigantes da distribuição. As mesmas empresas que passaram décadas a convencer-nos de que não podíamos viver sem embalagens descartáveis apresentam-se agora como as guardiãs da sustentabilidade. É a Philip Morris a liderar as campanhas anti-tabágicas.
É um modelo fascinante. É como entregar a presidência da Liga Protectora das Ovelhas ao lobo. O lobo garante que continua a apreciar carne fresca, mas agora fá-lo com uma enorme preocupação ambiental.
Não duvido da importância de aumentar as taxas de recolha de embalagens. A União Europeia faz bem em exigir resultados. O que me intriga é outra coisa: por que razão continuamos a discutir quase exclusivamente a reciclagem do plástico e tão pouco a sua substituição?
Lembro-me de um tempo em que as garrafas de vidro regressavam aos cafés e a nossas casas. Eram recolhidas, lavadas, esterilizadas e reutilizadas. O conceito era tão revolucionário que até tinha um nome simples: reutilização.
Hoje, pelo contrário, parece que descobrimos uma solução muito mais sofisticada: continuamos a produzir montanhas de plástico, baptizamos o processo de “economia circular” e entregamos ao consumidor uma parte significativa da logística. É difícil não admirar a elegância da operação.
Mas há uma imagem que me ficou na cabeça desde que o sistema arrancou.
Começam a aparecer pessoas a percorrer ruas, jardins e caixotes do lixo à procura de garrafas e latas. Muitas delas vivem na rua. Outras sobrevivem na fronteira invisível entre ter uma casa e perdê-la. Para quem tem muito pouco, dez cêntimos deixam de ser um gesto simbólico de cidadania ambiental. Passam a ser dinheiro. Não muito, mas suficiente para justificar quilómetros de caminhada e horas de procura.
É aqui que o cinismo atinge o seu auge.
Durante anos repetiram-nos o princípio do “poluidor-pagador”. No fim, quem acaba a percorrer as ruas para recolher o lixo que os outros deixaram para trás são, muitas vezes, aqueles que menos beneficiaram da sociedade de consumo e que vivem das sobras que ela produz.
Uma sociedade mede-se, também, pelas pessoas a quem entrega os trabalhos que ninguém quer fazer. E há qualquer coisa de profundamente perturbador quando a transição ecológica começa a depender de quem vive daquilo que os outros deitam fora.
O sistema chama-lhe economia circular. Eu olho para ele e vejo pobreza circular. O plástico circula. O dinheiro circula. Os lucros circulam. A pobreza dá voltas e permanece exactamente no mesmo lugar.
Se a economia circular só fecha graças à pobreza, talvez o problema já não seja apenas ambiental e seja, antes de mais, moral. As empresas continuam a vender plástico. Nós continuamos a comprá-lo. E são os mais pobres que, por extrema necessidade, acabam por garantir que o sistema funciona.
Talvez seja esse o verdadeiro triunfo do greenwashing: conseguir transformar a pobreza numa ferramenta da política ambiental sem que quase ninguém se sinta incomodado com isso.
Dizem que este sistema serve para salvar o planeta. Talvez. Mas há qualquer coisa que continua por resolver: porque é que, em quase todas as grandes causas, e também na ecologia, acabamos sempre por entregar aos mais pobres o trabalho que ninguém quer fazer?
Fotografia: Sérgio Aires





