Há uma pergunta que eu ouço cada vez mais. Não dita em voz alta. Sentida. Aparece no meio de um jantar bom, no silêncio depois de uma reunião de trabalho, nas três da manhã quando o sono não vem e o telemóvel não ajuda.
O que é que andamos aqui a fazer?
Não é desespero. É lucidez. É o corpo a perceber, antes da cabeça lhe dar licença, que há qualquer coisa profundamente torta nisto tudo. E que temos andado tão ocupados a sobreviver que não tivemos tempo de perguntar a quem é que sobrevivemos.
Calma. Antes de ficarem sérios, deixem-me começar por outra coisa.
Conhecem a Lilith? A maioria não conhece. E quem conhece, conhece-a como demónia. Monstro que mata bebés. Espírito do mal com cabelo comprido e mau feitio. É o que ficou dela. O que não ficou, o que foi cuidadosamente removido como quem arranca uma página de um livro e depois jura que o livro sempre foi assim, é que a Lilith era antes disso uma deusa. Soberana. Igual. Há versões que dizem que foi a primeira mulher, antes da Eva. Que se recusou a deitar-se por baixo de Adão. Que disse “não” ao primeiro homem do mundo e saiu do Paraíso por vontade própria. Ninguém a expulsou. Ela é que se foi embora. O que é pior, do ponto de vista do sistema: não é possível transformar em mártir quem se vai por vontade própria. A Eva ficou e comeu a maçã. A Lilith saiu e virou demónio. Moral da história: a que obedece perde o jardim. A que desobedece perde o nome.
E nós, que crescemos neste filme, achamos que isto é mitologia. Mas o que é religião para uns é mitologia para outros. E uso o plural masculino de propósito. Porque o senso comum que decide o que é sagrado e o que é conto foi construído para beneficiar o masculino. Não importa o teu sexo ou género: o poder que nos rege é criação do homem. E as histórias que o homem não controla, transforma em lenda. Ou em demónio. Se substituíres “Paraíso” por “parlamento” e “Adão” por “sistema”, a história é de ontem.
A energia dessa deusa não morreu com a lenda. Está em cada mulher que bateu com a porta. Cada mulher que pediu o divórcio quando o divórcio era pecado. Cada mulher que denunciou o agressor quando a denúncia era vergonha. Cada mulher que disse “não” e pagou o preço que o sistema cobra a quem diz “não”: a solidão, o julgamento, o nome transformado em insulto. Não é uma personagem. É uma linhagem. E essa linhagem não precisa de templo. Precisa de coragem. E coragem, na história das mulheres, nunca foi o que faltou. O que faltou foi quem a reconhecesse como tal em vez de a chamar histeria.
E aqui perto, no Minho, a mesma coisa com outro sotaque. Conhecem as Mouras Encantadas? Não as dos livros de turismo. As dos avós. As que aparecem perto das fontes, das grutas, dos megalitos. Há quem veja nelas memórias de deusas pré-cristãs da terra e da fertilidade. O Cristianismo chegou e não as conseguiu matar. Então encantou-as. “Encantadas” é a palavra que o folclore usa. Não mortas. Suspensas. À espera de que alguém as liberte. Os megalitos do Minho chamam-se até hoje “casas da moura.” A pedra guarda a memória do que a instituição tentou fazer esquecer. E a minha trisavó, em Vila Verde, curava crianças com ervas e rezas e ninguém lhe chamava bruxa porque era demasiado útil para ser queimada. Mas se tivesse nascido cem anos antes, ardiam-lhe as mãos. A utilidade é o único escudo que o sistema dá às mulheres que sabem demais.
Estão a rir-se? Óptimo. Porque agora é que dói.
A jornalista indígena Shirley Djukurnã Krenak, do povo Krenak de Minas Gerais, disse algo que não consigo desaprender desde que o li: “A violação de uma mulher é a do próprio Planeta, porque o nosso corpo é terra e o que corre dentro de nós é um grande rio.” Não é metáfora. É cosmologia. É uma forma de ver o mundo onde a violência sobre o corpo e a violência sobre o território são o mesmo acto. Porque são, de facto, o mesmo acto. A mesma mão que viola a terra para extrair lítio é a mão que viola corpos para extrair obediência. A mesma lógica. O mesmo movimento. Tirar o que está dentro. Vender o que se tirou. Deixar o buraco.
E Maria Pankararu, professora e investigadora indígena do sertão pernambucano, diz o que muitos de nós, bem instalados nas nossas cidades com Uber Eats e Netflix, estamos finalmente a começar a sentir: “O mundo está precisando escutar o chamado da nossa Mãe Terra, que se traduz em respeitar todos os seres vivos, os rios, mares, florestas. Para nós, cada um desses seres tem vida própria e faz parte de nós.”
Faz parte de nós. Não nos pertence. Faz parte de nós. A diferença é tudo.
As mulheres indígenas que defendem os seus territórios são as que mais morrem por isso. Não morrem por acidente. Morrem porque aquilo que protegem tem valor económico para quem não as reconhece como donas de nada. A terra que elas guardam desde sempre, sem papel nem título, é exactamente a terra que alguém quer minerar em nome de um progresso que nunca chegará a quem lá vive. O que fazem de concreto, não em cimeira, em prática, inclui reflorestamento, viveiros de sementes nativas, criação de abelhas, revitalização de rios, brigadas contra incêndios. Fazem o que os governos levam décadas a tentar sistematizar. E fazem-no sem orçamento, sem reconhecimento, e frequentemente com uma bala a caminho.
Em Covas do Barroso, no Norte de Portugal, a Aida Fernandes faz a mesma coisa. Sem bala, mas com a GNR paga por uma empresa britânica a vigiar-lhe a terra. A terra que a FAO classificou como Património Agrícola Mundial e que o Estado quer transformar numa mina de lítio a céu aberto. Para a transição verde. Para salvar o planeta. E para salvar o planeta, destroem uma aldeia. A Shirley Krenak reconheceria isto. A Maria Pankararu reconheceria. A minha trisavó de Vila Verde reconheceria. É sempre a mesma história: alguém chega, decide que a terra tem dono, e o dono nunca é quem lá vive.
Eu sei qualquer coisa sobre isto. Sobre ter o nome tirado. Sobre ter a história reescrita por outros. Sobre crescer dentro de um corpo que o sistema decidiu que lhe pertencia mais do que a mim.
A 25 de março deste ano, mudei o meu nome. Fui a uma repartição de finanças e disse em voz alta, pela primeira vez num documento oficial, quem sou. Mia. Três letras. Uma vida inteira para as pronunciar. E quando saí, com o papel na mão, não senti a euforia que esperava. Senti alívio. O alívio de quem finalmente pára de correr de si própria. Não é diferente do alívio da terra quando a chuva chega depois de um incêndio. Não é alegria. É o fim de uma violência. É o corpo a dizer: finalmente.
Porque a alienação que sentimos, essa sensação de viver uma vida que funciona mas não pertence, não é fraqueza individual. Não é falta de gratidão. Não é depressão. É o resultado lógico de ter crescido dentro de um sistema que separou o corpo da terra, o feminino do sagrado, e o cuidado do poder. Que expulsou as deusas. Que queimou as curandeiras. Que encantou as mouras. Que cercou os baldios. E que agora nos vende mindfulness a trinta euros a sessão para tratar a doença que ele próprio inventou.
Se me estão a achar séria demais, peço desculpa. Quando escrevo na Visão sou mais cultura pop, mais francesinha, mais SIMMMMM. Dentro de mim coabitam a Graça e a Xeila e nem sempre se entendem sobre quem fala primeiro. A Xeila queria dizer que a primeira mulher cancelada da história não foi uma influencer. Foi uma deusa. E que, filha, se ela tivesse de se deitar por baixo de todos os Adãos que eu conheci, também saía do Paraíso. A Graça ganhou. Desta vez.
A terra não tem dono. Nunca teve. E esta é, talvez, a notícia mais bonita que vos posso dar. Porque se a terra não tem dono, então ninguém te pode expulsar dela. Podes ter perdido a casa, o emprego, o nome, a paciência, a fé. Mas a terra está debaixo dos teus pés. Agora. Enquanto lês isto. E ela não te pede renda. Não te pede currículo. Não te pede que sejas alguém. Pede-te só que estejas.
A minha trisavó sabia isto. As mulheres Krenak sabem. A Aida Fernandes em Covas do Barroso sabe. As Mouras Encantadas, suspensas dentro das pedras do Minho, sabem. E a primeira mulher que disse “não” sabe melhor do que ninguém: que o “não” mais antigo do mundo foi dito por uma mulher. E que o mundo ainda não recuperou.
Mas vai recuperar. Não por decreto. Não por cimeira. Pela mesma razão que a erva cresce nas fissuras do betão: Insiste. Teima. Fura. E quando encontra uma fissura, não pergunta se pode. Cresce.
Tu és essa fissura. E o que cresce em ti, mesmo quando o betão é espesso e o sol é pouco, é a mesma coisa que cresce na terra quando ninguém está a olhar: vida. Teimosia de vida. A mais antiga e a mais bonita das forças.
Não precisas de saber o nome dela para a sentir. Basta parar. Respirar. Pôr os pés no chão. E lembrar-te de que o chão é teu. Não porque o compraste. Porque fazes parte dele. Sempre fizeste.
Agora descansa. Já fizeste muito por hoje. E amanhã, se ninguém te disser isto, fica aqui dito: estás bem. Não precisas de ser mais. Já és. Na próxima semana, conto-te o resto.





