Burela vibrou por Cabo Verde

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Uma crónica de

Atrás de resultados e golos, o Campeonato do Mundo costuma oferecer histórias extraordinárias que revelam a face mais humana de um desporto tornado paixão planetária. Além das inúmeras críticas ao Mundial que possivelmente menos representa os adeptos, encontramos pequenas epopeias, protagonistas inesperados e comunidades migrantes que encontram no futebol o elo que as faz orgulhar e reivindicar as suas origens enquanto povo. O que relaciona Burela, na Marinha galega, Chaves e Cabo Verde? Fomos à procura da resposta.

O 15 de junho Espanha e Cabo Verde enfrentavam-se em Atlanta. Era o primeiro jogo do Mundial de 2026 para as duas equipas. De um lado, uma das favoritas, vencedora da edição de 2010, a contar com jogadores inseridos na elite mundial (Pedro ou Lamine Yamal, a superarem os 150-200 milhões de euros de “valor de mercado” – noutro dia tocará falar destas absurdas cifras -). De outro, “os Tubarões Azuis”, perante a sua primeira participação e após uma qualificação inédita (primeiro lugar no grupo, deixando para atrás a favoritas como Angola e os Camarões). Nenhum jogador da seleção azul joga no país. A maior parte, em Portugal.


A festa foi completa em Burela.

O jogo acabou com um empate sem golos, quase um “milagre” em termos desportivos, com um fantástico desempenho cabo-verdiano. A exibição da seleção africana, que conseguiu travar uma das favoritas ao título, foi acompanhada com especial interesse em Burela, uma vila costeira de 10 mil habitantes e onde reside uma importante comunidade cabo-verdiana — cerca de 10% da população tem origem no país insular—.

Muitos deles chegaram à costa do cantábrico galego nos anos 1970, para trabalharem na pesca e na construção.

Lavilson Rodrigues, informático num hospital, após 16 anos em Burela, atende ao meu telefonema com uma voz cheia: “o empate foi vivido como uma vitória, não só pelo resultado, mas pelo que representa para um país que pela primeira vez está no Mundial. Muitos de nós crescemos a ver as grandes seleções do mundo, e sonhávamos alguma vez poder competir a esse nível”. Lavilson comenta ainda a importância do desafio e a união de duas comunidades que, na realidade, são só uma desde há décadas. “Em Burela viveu-se de uma maneira muito especial. As estimativas indicavam que tínhamos um 1% de hipóteses de não perder, e quando cheguei à praça da Marinha e vi a quantidade de pessoas que lá estavam foi maravilhoso. Galegos e cabo-verdianos, juntos, desfrutamos imenso. Nunca tinha visto nada similar, vou ter isto para sempre guardado nas minhas lembranças

Adeptos cabo-verdianos, em dia de festa. Burela, tingida de azul

Falamos também com a Erika Mendes, de 22 anos de idade, nascida em Porto Mosquito, filha de marinheiro e estudante de Filologia Portuguesa. Responde-nos muito atenciosamente: “para mim o empate contra Espanha, uma equipa muito mais forte, foi incrível”. Erika explicava nas redes que não se imagina ”longe de Burela”, o seu lar. E acrescenta a significação de um dia marcado para a história: “em Burela celebramos felizes neste dia, dentro do Festival de Cabo a Cabo que se organizou para acompanhar o evento desportivo”. O Festival, com o apoio de concelho e da deputação de Lugo, contou com um interessante cartaz: torneios desportivos, gastronomia e arte completaram uma iniciativa intercultural muito festejada, Ouviram-se as músicas electrónicas do Baiuca, DJ Kandole, DJ Danifox e o folk tradicional de Lilaina e Saya ou Batuko Tabanka.

Esta última é uma associação cultural que expressa a união entre os dois termos: de um lado, um género musical caracterizado pela percussão e pelo canto —inscrito pela UNESCO na lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade—. De outro lado, a manifestação popular que combina dança, música e outros elementos comunitários.

Criada em Burela em 2000 por mulheres vindas de Cabo Verde para a Galiza, a Batuko Tabanka representa um coletivo focado na preservação e divulgação das tradições de Cabo verde, nomeadamente do batuko, uma manifestação própria da ilha de Santiago. Falamos com Maria Tavares, uma das precursoras da associação e uma das primeiras em chegar ao litoral norte galego em busca de um futuro melhor. “Estamos todos muito contentes e vamos continuar a apoiar”, diz, emocionada, .

A comunidade cabo-verdiana tornou-se parte essencial da identidade de Burela. Uma identidade baseada no respeito após décadas de convívio. Conversamos com o Edilson Tavares, 27 anos e afamado por se ter tornado em 2019 um dos primeiros cabo-verdianos de Burela a aceder à universidade galega em anos: “um dos motivos da celebração era o simples facto de jogar. Os cabo-verdianos de todo o mundo, vimos nas redes sociais, celebraram. Tivemos repercussão nas tvs mundiais, sobretudo naquelas dos países lusófonos. Depois do jogo ficamos na praça, foi fantástico

Edilsoon Tavares, na Praça da Marinha, no dia do jogo.

Edilson, jubiloso, representa mais um exemplo do sucesso do Modelo Burela, que desde há mais de 20 anos trabalha pelo apoio integral a jovens oriundos do arquipélago, além de outros migrantes (até 40 nacionalidades diferentes). Compreender Burela é impossível sem falarmos com o Bernardo Penabade, professor e impulsionador do projeto. Penabade celebra a diversidade e o esforço de anos de atenção a estudantes em situação de insucesso escolar, enquanto respira profundamente. Feliz, agora é que se está a saber da “convivência multicultural de Burela, que chegou aos ouvidos de milhões de pessoas graças à dimensão do evento”.

Mas para além da educação focada nos novos modelos de atenção à diversidade, uma das ferramentas principais de integração tem sido a voz. A Rádio Burela apresenta-se como rádio educativa, sempre ao lado das pessoas em risco de exclusão, sobretudo dentro da comunidade migrante.

Afinal, trata-se de uma escola de comunicação a contar com o “Projeto Neo” (incorporação à cultura galega) e programas marcantes como o “Grandes Vozes do Nosso Mundo” ( de músicas galegas e lusófonas). Penabade destaca as visitas recebidas que irão visibilizar um projeto único: “na praça onde se viu o jogo e onde se festejou passaram inúmeros meios de comunicação, televisões, rádios e digitais. Havia muita expectação e já nos dias anteriores sabia-se que iria acontecer algo grande”.

No entanto, a palavra mais repetida, em época de fakes, barulho mediático e a sempre temida violência à volta do futebol, foi uma: festa. “Milhares de pessoas desde a primeira hora da manhã, não apenas durante o jogo. Sem um único incidente, falamos de uma celebração coletiva, uma festa da comunidade”. E continua, carregado desse orgulho coletivo: “todo o mundo fala disto, o festival foi uma grande iniciativa. Não estamos perante um impacto simplesmente peninsular. Toda Europa deveria tomar nota do modelo de convivência de Burela, é muito necessário”.

Se alguém destacou no jogo foi com certeza o guarda-redes, Vozinha. O internacional cabo-verdiano foi determinante para manter o marcador (0-0 contra a Espanha, lembrem) e converteu-se num dos nomes mais comentados após o encontro. Uma jornalista brasileira foi conversar com ele, ofereceu-lhe a t-shirt canarinha e recordou-lhe que, pelo menos nas redes, o sucesso era inegável: em poucas horas, de 50 mil seguidores na rede Instagram, passou a 14 milhões em apenas uns dias (!) O “mundo”, aos seus pés.

A atuação do veterano guarda-redes (40 anos, 7 defesas decisivas), teve eco em Trás-os-Montes, onde é uma das referências do clube local, o GD Chaves. Para se juntar aos guerreiros transmontanos chegou em 2024 Josimar José Évora Dias, Vozinha —a alcunha de “Vozinha” vem ligada à sua avó materna, que foi quem o criou—.

A sua vida futebolística foi bastante tardia, e só com 25 anos é que se tornaria profissional no Mindelense. Após uma aventura angolana, já na casa dos 30 começou a sua rota pelas ligas “menores” europeias: Moldávia, Chipre, Eslováquia. Acompanhou a seleção africana em 4 competições continentais, entre 2013 e 2023. Até chegar às duas últimas épocas no GDC, com 50 jogos e fim de contrato. Isto é, o guarda-redes que está na moda realizou a sua maior exibição atuando como agente livre, sem clube.

Nelson Lenho é o novo diretor desportivo do GD Chaves, uma equipa habituada a morar entre a I e a II Liga. Atende o telefone nuns dias cheios de chamadas e entrevistas. Onde mora o Vozinha? Por onde é que passeia a cadela? Que bares costuma frequentar?… eis algumas das perguntas mais esquisitas que lhe realizaram.

Mais a sério, não deixa elogios nenhuns sem dizer quando falamos do nome mais repetido “Se existe pessoa que merece estar a passar este momento, é o Vozinha. As suas lágrimas e emoção do final do jogo eram verdadeiras. Certamente que, por tudo aquilo por que passou durante toda a sua carreira, merece”. Lenho lembra ainda que o cabo-verdiano “veio para o Chaves há dois anos, e sempre representou um exemplo para os mais novos e velhos. Praticamente um capitão na sombra, porque ele é muito calmo e reservado”.

Porém, para quem brilha num Mundial, a escolha de futuro é sempre a maior dúvida. “Foi sempre respeitado e respeitoso. Deu-se muito bem com as pessoas de Chaves, adaptou-se desde o início. Queria ajudar ao Chaves a subir de divisão. E fez dois anos de bom nível, mas com o patamar que atingiu neste Mundial, os nossos caminhos… não irão seguir juntos” O máximo representante da gestão técnica do clube flaviense, não hesita, e acrescenta: “propostas não lhe vão faltar. Porém, desejo-lhe tudo de bom. Ele é que vai decidir o seu futuro, quer dentro ou fora do campo”.

Estas palavras relatam perfeitamente a decisão mais difícil, a tomar quando a festa acabar. Mas, na era da longevidade humana, com centenários a tornarem-se rotina, quem ousa desafiar a realidade e leva o Vozinha para a reforma?

É noite fechada em Chaves, apenas se ouvem alguns sons ao pé do rio Tâmega, vindo da Galiza, uns quilómetros acima. Mais a norte, em Burela, alguns ainda não conseguem esquecer a festa e o convívio de segunda-feira. Alguém fala crioulo misturado à galega, e diz qualquer coisa acerca daquele Vozinha que decidiu colocar Cabo Verde no mapa geopolítico, versão redonda da vida. Com 6 horas de diferença, do outro lado do oceano Atlântico, estão os “tubarões azuis”, a realizarem o “sonho americano”.

Será que há tempo para mais “milagres”? Em Burela, Chaves ou Mindelo acreditam. Vozinha tem a resposta.

Cabo Verde, aconteça o que acontecer, será um bocado mais feliz a partir de hoje.


Das fotografias © Bernardo Penabade

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