Entrevista | Carlos Mendes Pereira:“O aPorto leva as pessoas ao Porto que os turistas não conhecem”

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Anualmente, desde 2011, os cursos aPorto levam dezenas de pessoas, sobretudo galegas, a descobrir a língua portuguesa na cidade do Porto. Trata-se de uma proposta da AGAL (Associação Galega da Língua) que nasceu como uma formação de imersão linguística, mas que acaba por ser muito mais do que isso. Sobre este projeto falamos com Carlos Mendes Pereira, fotógrafo, diretor de fotografia e apaixonado pela cidade onde nasceu, que dá forma ao programa de atividades culturais desta iniciativa. Um projeto que permite aproximar-se da Cidade Invicta de uma maneira diferente, combinando língua, cultura e descoberta da cidade.

Para quem nunca ouviu falar do aPorto: que tipo de experiência é esta? Um curso de língua, uma imersão cultural?

Dizer que o aPorto é um curso de língua é indubitavelmente redutor. É verdade que a base é essa, mas, desde a primeira ideia, já lá vão mais de 15 anos, nunca se pretendeu reduzi-lo a isso. O objectivo é mergulhar de cabeça no que o Porto tem para dar e que é inacessível ao visitante ocasional, levando para casa o coração cheio de experiências inesquecíveis e, pelo meio, uma imersão linguística que, segundo testemunhos de várias pessoas, chega a enriquecer o próprio galego já falado pelos participantes.

O aPorto acontece no Porto, uma cidade profundamente marcada pelo turismo nos últimos anos. Como se insere um projeto como este nesse contexto?

O Porto é uma cidade com uma personalidade muito própria e, à semelhança de muitas outras cidades sobrecarregadas de turismo, pode-se dizer que tem personalidade dupla. A imensa maioria das pessoas que visitam a cidade não consegue ultrapassar a camada superficial, mas, no aPorto, as pessoas são levadas pela mão de tripeiros e tripeiras que partilham os seus locais de predilecção, dão testemunho em primeira pessoa daquilo que a cidade é para si, para quem nasceu e vive na Cidade Invicta. Os participantes do aPorto vão a muitos locais que nem a maioria dos portuenses conhece, tornando única a experiência da cidade.

A AGAL trabalha a partir de uma visão reintegracionista da língua1. Como se vive isso na prática dentro do aPorto, com participantes de perfis tão diversos?

Essa é uma questão muito interessante! Há pessoas que vêm para o aPorto já com essa visão, mesmo algumas sem serem sócias da AGAL. Para essas, a frequência do curso e a convivência com pessoas do Porto reforça a convicção reintegracionista, naturalmente. Depois, há quem não o seja, mas saia do aPorto sendo-o. Essa situação é natural, ao aperceberam-se da proximidade linguística indiscutível entre o galego e o português, principalmente o do Norte. Há, ainda, aquelas que não se tornam reintegracionistas, mas que passam a ver o reintegracionismo como algo que faz sentido, perante as provas indiscutíveis.

A propósito de provas indiscutíveis, conto um caso que já aconteceu algumas vezes. Tanto na Galiza, como a falar com discentes do aPorto, eu falo sempre 100% português e já me aconteceu de me dizerem que não falasse galego, para aprenderem melhor o português. Quando afirmo que estou a falar português, é uma surpresa e, até, incredulidade.

Como evoluiu o perfil das pessoas participantes ao longo dos anos?

Houve dois momentos em que que notei alguma alteração no perfil de quem participa. O primeiro, foi nas edições iniciais. Nas primeiras duas ou três, havia uma clara participação de membros da AGAL e isso era perfeitamente normal. A divulgação inicial foi feita muito entre o colectivo AGALico, embora não exclusivamente, e foi natural que houvesse uma preponderância, entre participantes.

Depois, à medida que os aPorto iam ficando mais conhecidos, a participação passou a ser muito mais abrangente. A segunda alteração significativa deu-se aquando da homologação, por parte do governo da Galiza, dos cursos para docentes. Nos últimos anos, há semanas compostas exclusivamente por docentes, embora sempre se tenha notado grande participação de professores e professoras.

Que feedback o surpreendeu mais ao longo das edições anteriores?

Sem dúvida, o feedback mais marcante é haver pessoas que dizem que o seu galego saiu reforçado, após o contacto mais próximo -e com componentes social e pedagógica- com a língua portuguesa. Várias foram as pessoas que disseram que a sua expressão quotidiana jamais seria a mesma e que, após os aPorto, muitas coisas tinham passado a fazer muito mais sentido.

Se o Carlos tivesse de convencer alguém a participar dos aPorto, o que lhe diria?

Eu não tentaria convencer ninguém. Dar-lhe-ia contactos de participantes anteriores e o sucesso seria garantido. Ninguém melhor do que participantes anteriores para dizerem o espectacular que o aPorto é.

E ao contrário: quem é que talvez não devesse vir ao aPorto?

Creio que o aPorto não é o ambiente ideal para pessoas etnocêntricas, que não estejam abertas a absorver da língua e cultura de outrem e a colocarem em questão os dogmas em que vivem.

Como imagina o aPorto daqui a cinco anos?

O aPorto há-de ter longa vida. O público alvo está sempre em renovação, mas também há muitas pessoas que repetem duas ou três vezes. Preocupando-nos com essas, temos o cuidado de ir renovando a programação, mas há certos aspectos difíceis de alterar, como os passeios pela cidade ou a nossa histórica noite de gastronomia e música africanas.

O conceito de renovação, no entanto, é menos óbvio do que possa parecer. Por exemplo, após alguns anos a visitar Serralves, mudamos para outros museus, mas houve um regresso a esse espaço por haver, em certo ano, uma exposição imperdível. A renovação, por vezes, também se faz por regressos e até para quem participa isso pode ser um estímulo. Uma grande experiência vivida de forma efémera, deixa saudades e vontade de repetir. Aliás, tem sido frequente as pessoas, a título individual, regressarem a locais que conheceram pelos aPorto. Longa vida aos aPorto!


Da fotografia © Olívia Pena

  1. Visão reintegracionista refere-se ao movimento social que defende a regeneração da língua da Galiza como mais uma variedade de português no mundo. A associação AGAL promove uma ortografia galega moderna confluente com o português. ↩︎
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